
A Igreja Católica é feita de continuidade. A cada novo Papa, um legado permanece e, muitas vezes, é aprofundado.
Há poucos meses no cargo, é observada a possibilidade de que oPapa Leão XIV possa finalizar os escritos inacabados de Francisco, como as exortações sobre os pobres e as crianças, um desejo mencionado ao público no último ano de seu pontificado.
A frase “não à autorreferencialidade”, constantemente repetida por Francisco ao longo de seu pontificado, ajuda os fiéis a entenderem que um Papa não escreve para si, mas para a Igreja, com o apoio de quem veio antes dele.
Desde o início de seu pontificado, Leão XIV tem dado sinais dessa continuidade. Em sua primeira audiência geral, em 21 de maio de 2025, ele retomou o ciclo de catequeses iniciado por Francisco, centrado no tema “Jesus Cristo, nossa esperança”, escolhido para o Ano Santo.
A estrutura dos textos também se manteve: linguagem acessível, curta, com reflexões inspiradas em obras de arte, como a pintura O Semeador ao Pôr do Sol, de Van Gogh.
Curiosamente, Francisco havia feito algo semelhante em sua última catequese, publicada apenas por escrito, ao meditar sobre A Volta do Filho Pródigo, de Rembrandt. A conexão entre os dois discursos sugere que Leão XIV pode estar seguindo um roteiro pastoral já pensado por seu antecessor.

O bispo Prevost junto ao Papa Francisco
Esse tipo de sucessão não é novidade. Veja alguns exemplos:
• Encíclica LumenFidei Elaborada por Bento XVI antes de sua renúncia, foi publicada e assinada por Francisco em 2013. Sua publicação completou a trilogia sobre as virtudes teologais: fé (LumenFidei), esperança (SpeSalvi) e caridade (Caritas in Veritate). • Catequeses sobre os Salmos e os Cânticos Iniciadas por São João Paulo II em 2001, a primeira parte das catequeses sobre os “Salmos e cânticos das Laudes” se estenderam até 2003. A segunda parte, dedicado aos “Salmos e cânticos das Vésperas” teve início em 2003, até sua morte em 2005 e foi continuado por seu sucessor, Bento XVI, até 2006. • Catequeses sobre as virtudes cristãs Iniciadas por João Paulo I, foram continuadas por João Paulo II após sua breve passagem como sucessor de Pedro em 1978. • Via-Sacra de 1979 As meditações da primeira Via-Sacra do Papa João Paulo II foram baseadas em escritos de Paulo VI. |
Antes de sua morte, Francisco mencionou ao público seu desejo de escrever uma exortação apostólica sobre as crianças. Isso ocorreu durante o Encontro Internacional sobre os Direitos da Criança no Vaticano, em fevereiro de 2025. Francisco afirmou:
“Para garantir continuidade e promover esse compromisso em toda a Igreja, pretendo preparar uma exortação apostólica dedicada às crianças.”
Outro documento já em rascunho seria sobre os pobres. Se retomado, pode se tornar mais um texto de continuidade entre um papa e outro, considerando especialmente a vivência missionária no Peru de Leão XIV, que moldou sua sensibilidade social.
Contudo, como aponta a tradição da Igreja, o novo Papa é livre para seguir outros caminhos. Ele pode concluir os projetos do predecessor ou abrir novas frentes, conforme o discernimento pastoral lhe indicar.

Curiosidade:
A primeira exortação pessoal de Francisco, EvangeliiGaudium, veio só meses após LumenFidei. Nela, o Papa argentino expressou muito de sua experiência como pastor na América Latina, especialmente na Conferência de Aparecida (2007), da qual foi um dos redatores.
Fonte: Portal A12 / PorBeatriz Nery / Com Aleteia