Monsenhor Ronaldo Menezes – Vice-Presidente da Fundação Nazaré de Comunicação
Neste artigo, não entrarei em detalhes sobre a formação dos Evangelhos nem na teoria das duas fontes, assunto muito apropriado para quem está no Seminário. Deixo essas questões para os professores de Sagrada Escritura, como o nosso padre Romeu Ferreira, biblista de alto nível que temos em nossa Arquidiocese. A redação dos Evangelhos é um estudo muitíssimo interessante. Grosso modo, pode-se dizer que Marcos foi o primeiro Evangelho a ser escrito. Mateus e Lucas utilizaram o texto grego de Marcos e outra fonte; os estudiosos chamam essa fonte desconhecida de “Q”; ela contém uma série de sentenças ou ditos de Jesus, que não se encontram no texto de Marcos. Mateus e Lucas usam materiais próprios provenientes de tradições diferentes. Lucas nos informa de suas minuciosas pesquisas particulares. Não se questiona que estes documentos são os mais próximos de Jesus Cristo e, por isso, as informações que trazem sobre o Senhor são as mais confiáveis.
O Evangelho de São Marcos é o mais antigo. Segundo o grande historiador da Igreja, Eusébio de Cesareia, foi escrito em Roma, a partir dos ensinamentos de São Pedro. Marcos, o autor do Evangelho, é o João Marcos, discípulo muito próximo do Apóstolo Pedro, que o menciona em sua primeira Carta (1Pd 5,13). A estrutura deste Evangelho é bem simples, dividido em duas partes: a primeira se desenvolve na Galileia e a segunda, em Jerusalém, a partir do capítulo 11. Tomar um tempo para ler este Evangelho, sem pressa, sem preocupação de estudante, com a única intenção de conhecer a pessoa e a mensagem de Jesus, é um dever que temos como discípulos do Senhor. Se eu puder dar apenas um conselho, apenas um, é este: observe que o final das duas partes é uma profissão de fé em Jesus e em sua filiação divina – Pedro e o Centurião romano fazem essa profissão de fé na divindade de Jesus.
São Mateus é o Evangelho mais citado pelos Padres antigos. Para uso da minha comunidade paroquial, escrevi um pequeno roteiro deste Evangelho, a fim de ajudar nas reuniões de estudo da paróquia. Mateus e Lucas trazem, no início da redação, os dois primeiros capítulos, o relato da infância de Jesus. A primeira parte de Mateus é uma grande proclamação do Reino de Deus, ou do seu reinado, da fundação da Igreja por Jesus e de como a semente do Reino se estende. São próprios de Mateus cinco discursos de Jesus, que parecem seguir a estrutura do Pentateuco. Há quem afirme essa intenção. Não há quem desconheça o vibrante Sermão da Montanha e seus ensinamentos. O final de Mateus é um horizonte sobre a expansão da pregação e da missão da Igreja no mundo. É cativante ler São Mateus.
A terceira fonte próxima é o Evangelho de São Lucas, médico e companheiro de São Paulo em suas viagens apostólicas. É de sua autoria o Evangelho e o livro dos Atos dos Apóstolos. Eusébio de Cesareia, em sua História Eclesiástica, afirma que Lucas era oriundo de Antioquia e que, além de Paulo, manteve contato com outros Apóstolos, suas “testemunhas oculares” da vida e da mensagem de Jesus. Quem sabe uma, senão a principal, dessas testemunhas não tenha sido a própria mãe de Jesus, a virgem Maria! Não podemos negar esta possibilidade. Lucas escreve para os cristãos procedentes do paganismo, sem descartar, logicamente, os de origem judaica. Quem lê com atenção este Evangelho, vê claramente suas partes bem definidas: Nazaré, Belém e o templo de Jerusalém; o ministério de Jesus na Galileia; a viagem para Jerusalém e sua paixão, morte e ressurreição, em Jerusalém.
O quarto Evangelho é atribuído a João, o filho de Zebedeu (Mc 1,19-20). Também é Eusébio quem afirma que João, o autor do Evangelho, foi o mesmo discípulo que se reclinou ao peito de Jesus na última ceia, e escreveu enquanto estava em Éfeso. João divide o ministério de Jesus em duas etapas: a primeira na Galileia e a segunda, na Judeia. O ministério de Jesus, ao contrário do que dizem os três primeiros evangelistas, dura três anos: Jesus faz três viagens a Jerusalém para celebrar a Páscoa. Entre tantos aspectos da vida de Jesus, penso nos importantes encontros do Senhor: com Nicodemos à noite, com a mulher samaritana no poço de Jacó e com a multidão faminta, como lemos no famoso relato do capítulo 6, sobre o pão da vida. A simbologia do Evangelho segundo João é riquíssima, bonita, viva.
Então, para quem deseja conhecer bem Jesus é imprescindível debruçar-se nos Santos Evangelhos, ler repetidas vezes esses textos sagrados, auxiliar-se das importantes notas de algumas de nossas Bíblias, marcar, anotar. Nós, cristãos, não podemos desconhecer a vida e a mensagem de Jesus Cristo.
