Dom Armando Bucciol conduz retiro dos bispos

Na 62ª assembleia geral da CNBB

A tarde desta quarta-feira (15) marcou o início de um dos momentos mais reflexivos da 62ª Assembleia Geral da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (AG CNBB), o retiro espiritual dos bispos. Conduzido por Dom Armando Bucciol, diretor espiritual do Colégio Pio Brasileiro em Roma, o encontro estende-se por todo o dia de amanhã (16), propondo um mergulho na espiritualidade e no compromisso missionário da Igreja.

Dom Armando, que dedicou 33 anos de sua vida ao Brasil antes de retornar à Itália, assumiu a pregação a convite da presidência, após a impossibilidade de comparecimento do Cardeal PierbattistaPizzaballa. Para ele, o retorno ao Brasil e ao convívio com o episcopado é motivo de alegria. “Vim para matar a saudade e reencontrar os bispos. Participar desta assembleia, que é a maior do mundo em sua variedade, é viver uma experiência de extraordinária comunhão eclesial”, afirmou.

O tema central do retiro é o “seguimento de Jesus Cristo crucificado e ressuscitado para testemunhar e louvar o seu amor”. Dom Armando estruturou suas reflexões em torno das exigências e desafios da evangelização, citando o Papa Paulo VI ao recordar que “a Igreja existe para evangelizar”.

Um dos pontos altos da fala de Dom Armando foi a desconstrução da lógica do poder. Inspirado pelo gesto de Jesus ao lavar os pés dos discípulos, ele enfatizou que, na Igreja, a autoridade deve ser sinônimo de serviço. “Nós, os bispos, quanto mais poder, mais serviço. Esta é a lógica evangélica que devemos constantemente procurar”, sublinhou.

Aprofundando as reflexões de amanhã, Dom Armando destacou um termo fundamental para o atual momento da Igreja, a parresia (ou parrésia). Mas o que significa esse conceito e por que ele é tão vital? De origem grega, a parresia pode ser traduzida como “coragem evangélica”, “ousadia” ou “liberdade de dizer tudo”. No contexto bíblico, especialmente no livro dos Atos dos Apóstolos, ela descreve a força do Espírito Santo que permitia aos discípulos anunciar o Evangelho com convicção e sem medo, mesmo diante de perseguições.

Para Dom Armando e para o próprio Papa Francisco, a parresia é o antídoto contra a ambiguidade nas relações humanas. Ela representa a transparência e a autenticidade necessárias para que a Igreja viva de forma profética. Ter parresia significa te ‘Coragem para falar a verdade’, sem rodeios ou interesses ocultos; tem que ter ‘Transparência nas relações’, construir uma Igreja mais honesta e próxima do povo, e ter a ‘Ousadia missionária’, não se acomodar, mas sair ao encontro das periferias e dos desafios do mundo moderno.

Encerrando o primeiro bloco de reflexões, Dom Armando, que possui longa trajetória ligada à liturgia, convocou os bispos a uma vivência litúrgica fiel ao Evangelho. Ele lembrou que, embora existam “liturgias” na política e até no futebol, a liturgia cristã deve ser caracterizada pelo encontro real com o Mistério. “Viver da liturgia que celebramos com olhos e coração de fé” é, segundo ele, o caminho para uma Igreja verdadeiramente enraizada na Palavra.

Após a primeira parte do retiro, os bispos seguiram para o Santuário Nacional de Aparecida que tornou-se o coração da Igreja no Brasil nesta noite. Com a presença de bispos de todas as regiões do país, a celebração eucarística de abertura marcou o início oficial da 62ª Assembleia Geral Ordinária da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB).

A missa, celebrada em um ambiente de “solene alegria do tempo pascal”, foi um convite para que os pastores e fiéis reconhecessem o amor desmedido de Deus Pai, que entregou seu Filho amado para que o mundo tenha vida eterna. Durante a homilia, o presidente da CNBB e celebrante da noite, o Cardeal Dom Jaime Spengler, partiu do Evangelho de João para aprofundar a natureza do amor divino. “Deus amou tanto o mundo. Deus é amor sem medidas”, afirmou, destacando que a entrega de Jesus é a expressão máxima da generosidade e da magnanimidade de Deus, que vai ao encontro do ser humano para reconduzi-lo à Sua intimidade.

O presidente destacou que esse amor exige uma resposta, o crer. No entanto, para o episcopado brasileiro, esse “crer” vai além da adesão intelectual. “Crer significa confiar-se, lançar-se sem reservas, entregar-se a quem nos amou por primeiro. É lançar-se sempre de novo, de forma nova, no seguimento do Filho amado”, explicou.

Um dos pontos centrais da mensagem foi a definição da própria missão dos bispos reunidos em Assembleia. O celebrante recordou que o encontro com a pessoa de Jesus faz irromper um “novo horizonte existencial” que, de forma particular, constitui os bispos em um colégio e em uma conferência episcopal.

Segundo a homilia, a CNBB é uma das formas mais significativas de exprimir e servir à comunhão eclesial nas diversas regiões do Brasil, sempre em união com o Papa, garantidor da unidade da fé. “Nossa Assembleia Geral expressa o nosso empenho de seguir respondendo ao amor de Deus”, pontuou o celebrante, reforçando o compromisso dos bispos em servir à Igreja e ao povo brasileiro.

A missa de abertura não foi apenas um rito formal, mas um envio espiritual para os dias de intenso trabalho que se seguem. Com as ações iluminadas pela verdade e pela luz do Evangelho, os bispos iniciam as sessões deliberativas da Assembleia Geral, que buscará caminhos para a evangelização e para o fortalecimento da presença da Igreja na sociedade.

Sob a proteção de Nossa Senhora Aparecida, a 62ª AG CNBB começa com o olhar fixo na esperança da Ressurreição e na certeza de que a missão da Igreja é ser sinal do amor de Deus no mundo, com o prosseguimento do retiro durante todo o dia de quinta-feira, consolidando-se como um espaço de silêncio e escuta para os pastores que guiam a Igreja no Brasil, buscando renovar as forças para os desafios sociais e pastorais que a Assembleia ainda debaterá nos próximos dias.

Fonte: Regional Norte 2 / Por VívianMarler

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