Papa marca golaço de evangelização

Papa Leão XIV entra ontem (8) no estádio Santiago Bernabéu, lotado com 80 mil pessoas. | Daniel Ibáñez/EWTN
Papa Leão XIV entra ontem (8) no estádio Santiago Bernabéu, lotado com 80 mil pessoas. | Daniel Ibáñez/EWTN

Diante de um Santiago Bernabéu lotado, uma figura vestida de branco fez sua entrada. Mas não era Mbappé, nem Cristiano Ronaldo, nem qualquer outro jogador do Real Madrid, e sim o papa Leão XIV. Foi um momento particularmente significativo para Robert Prevost no estádio das grandes conquistas esportivas de seu time — embora, como papa, pertença a todos.

Não havia nenhuma partida sendo disputada, mas a Igreja diocesana de Madri, junto com as dioceses sufragâneas de Alcalá de Henares e Getafe, receberam o papa com uma euforia comparável à de um gol decisivo numa final de Copa do Mundo.

“Para um jogador de futebol, marcar um gol neste estádio é algo que marca a sua vida. Hoje, a Igreja de Madri marcou um gol que ficará para sempre”, disse o papa antes de começar seu discurso.

O evento reuniu representantes de paróquias, movimentos, vida consagrada, sacerdotes e agentes pastorais, com a presença de conselhos pastorais paroquiais. Diante do papa, alguns jovens apresentaram uma pequena peça teatral retratando uma partida de futebol. David Bustamante, um cantor espanhol, também se apresentou. Mas houve também testemunhos comoventes, como o de um homem de 33 anos que foi batizado no ano passado e que agora vai se casar.

Discursando para padres, mulheres consagradas e bispos de Madri, Leão XIV disse: “A vossa alegria será contagiante se deixar de ser uma emoção passageira, para se tornar um modo estável de ser, um sentimento profundo que renova as pessoas, os grupos e a comunidade diocesana”.

“O Batismo transforma verdadeiramente a vida… Não há que temer a realidade de isso nunca produzir uniformidade”, disse o papa no penúltimo encontro na capital da Espanha, antes de iniciar a segunda etapa de sua viagem, que o levará hoje (9) a Barcelona.

Para ilustrar essa ideia, ele recorreu ao Novo Testamento como antídoto à uniformidade, graças ao “testemunho, na variedade das suas vozes”. Ele também alertou sobre o episódio da Torre de Babel, em que, segundo o relato bíblico, os homens, “obrigados a um projeto totalitário e meramente humano, segundo o relato bíblico – acabaram por não compreender o seu próximo”.

Em resposta a isso, e em consonância com o que foi proposto em sua recente encíclica Magnifica humanitas, ele falou sobre a figura de Neemias, que envolveu toda a comunidade na reconstrução dos muros de Jerusalém, como uma “alternativa à homogeneização e à confusão”.

O papa aproveitou esse encontro com alguns fiéis da comunidade diocesana da comunidade de Madri para delinear as chaves para uma evangelização eficaz no século XXI. Ele falou sobre a importância de “não nos dispersarmos nem nos fecharmos cada um no grupo ou no ambiente em que já nos sentimos seguros, entre pessoas que cantam sempre a mesma melodia”.

“Para chegar ao coração da cidade, é preciso cultivar a consciência de que a verdade é sinfónica e sempre nos ultrapassa, e cultivar o desejo de encontrar o Ressuscitado, que vai sempre à nossa frente, nos precede e talvez já esteja presente onde ainda não O procuramos”, disse ele.

Assim, disse Leão XIV, “procurá-Lo e segui-Lo é a condição para O indicar: caso contrário, não há evangelização, e podemos compreender isto melhor hoje do que no passado”.

“Nada vos perturbe, nada vos assuste! Juntos, como Igreja diocesana, podeis oferecer o testemunho evangélico que liberta as melhores forças de uma humanidade bombardeada de imagens e palavras, mas faminta de justiça e sedenta de verdade”, disse o papa.

Ele falou também sobre a relação especial entre a Igreja e a cidade, que se concretiza — como disse — “entre pessoas de carne e osso, nas relações laborais e de proximidade, mas também nas diversas comunidades, associações e entidades de bairro”, e que adquire ainda maior relevância “mudança de época que estamos vivendo”.

“Quando reduzimos a vida eclesial a uma rotina em que cada um permanece fechado nos seus hábitos e no seu papel, o que nos falta é o Espírito”, disse Leão XIV.

Suas palavras pareciam ecoar o testemunho da freira María San José, da Congregação das Filhas de Santa Maria do Coração de Jesus. Mulher culta e independente, com duas graduações e dois mestrados, ela deixou uma vida confortável no banco Santander para se dedicar à vida religiosa, demonstrando como o chamado de Deus alcança todas as áreas da vida.

“Percebi tudo o que eu tinha, tudo o que eu havia construído, mas algo mais me preenchia, e isso era esta vida consagrada, esta entrega ao Senhor”, disse ela, a caminho do evento, à EWTN News.

“Deus conhece, um a um, os corações dos seus habitantes [de Madri]. Conhece-os como só Ele sabe e pode fazê-lo, isto é, no amor e, portanto, na liberdade”, disse o papa, enfatizando que Deus é “misericórdia infinita e deseja que todos se salvem”. “Deseja-o ao ponto de se fazer carne e carregar sobre si todo o pecado, o mal e o que há de negativo no mundo”, disse Leão XIV.

Entre os presentes no estádio Bernabéu estava o padre Antonio Sánchez, sacerdote da diocese de Getafe, ordenado em outubro do ano passado. O padre Sánchez falou à ACI Prensa, agência em espanhol da EWTN, sobre a emoção que sentiu ao participar, ao lado do papa, da procissão de Corpus Christi depois da missa celebrada na praça de Cibeles no último domingo (7).

Segundo ele, “ser selecionado sem qualquer mérito era um privilégio; o único requisito era que os sacerdotes da província eclesiástica estivessem na procissão”, disse.

“Com uma atitude de adoração, ver o papa, que foi um grande testemunho por estarmos perto da procissão, num momento tão singular, foi algo muito especial. Colocamo-nos no mesmo nível do Papa, e vê-lo como estava na procissão, adorando e centrado em Cristo… foi como se percebêssemos: em meio a toda a comoção, centrados em Cristo, a quem consagramos as nossas vidas”, disse Sánchez pouco antes de o papa entrar no estádio, onde foi recebido com um entusiasmo difícil de descrever.

As 80 mil pessoas reunidas começaram então a entoar, tomadas pela alegria: “Papa Leão, um só coração”.

Antes desse encontro, o papa esteve na catedral de Santa Maríala Real de laAlmudena, que foi o cenário de um dos eventos mais marcantes de Leão XIV em Madri.

O papa depositou uma rosa de ouro aos pés da catedral de Almudena, como símbolo de seu amor filial: um gesto precioso que demonstra a profunda devoção mariana do papa. Esta será a quarta devoção espanhola a Nossa Senhora a receber esta dádiva. As outras três são: Nossa Senhora da Esperança de Macarena; Nossa Senhora da Cabeça; e Nossa Senhora de Montserrat.

Essa distinção pontifícia é um reconhecimento da piedade popular e mariana de Madri. Tem raízes antigas e simboliza a bênção papal.

A tradição remonta ao papa são Leão IX, que a instituiu em 1049. Ao longo dos séculos, foi concedida a mosteiros, santuários, soberanos e figuras proeminentes em reconhecimento ao compromisso deles com a fé e o bem comum. No passado, a rosa de ouro foi também concedida a rainhas, como Isabel I de Castela, que foi a primeira monarca a recebê-la em 1493 por ordem do papa Inocêncio VIII.

O evento principal foi a subida ao nicho de Nossa Senhora, onde o papa depositou a oferenda floral e rezou diante dela. Foi a primeira visita de Leão XIV à catedral de Almudena como papa, embora não a primeira do então padre Robert Prevost, que desde então visitou a Espanha em cerca de 50 ocasiões.

Sua visita mais notável à catedral de Almudena ocorreu por ocasião da canonização, em 2002, de Alonso de Orozco, agostiniano que morreu em Madri — no convento que ocupava o atual prédio do Senado da Espanha — e cujos restos mortais agora estão sepultados na capela do convento das freiras agostinianas contemplativas na rua La Granja.

Fonte: ACI Digital / Por Victoria Cardiel

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