
Um desafio não somente tecnológico, mas principalmente antropológico: o ser humano perante as novas tecnologias, especialmente a Inteligência Artificial (IA), é tratado pelo Papa Leão XIV na mensagem para o 60º Dia Mundial das Comunicações Sociais, que será celebrado no Domingo da Ascensão do Senhor, 17, com o tema “Preservar vozes e rostos humanos”.
Entre os dias 7 e 9, em formato híbrido – on-line e presencial, o 7o Congresso de Comunicação, promovido pelo Serviço à Pastoral da Comunicação (Sepac Paulinas), pela Pastoral da Comunicação da Arquidiocese de São Paulo e pela Signis Brasil – Associação Católica de Comunicação, deu destaque ao tema. Nas falas dos diferentes conferencistas ressoou um aspecto enfatizado pelo Papa na mensagem: “Não somos uma espécie feita de algoritmos bioquímicos predefinidos antecipadamente: cada pessoa possui uma vocação insubstituível e irrepetível, que emerge da vida e se manifesta precisamente na comunicação com os outros”.
Uma questão de natureza antropológica
A parte presencial do congresso ocorreu na manhã do sábado, 9, no auditório das Paulinas, na Vila Mariana, iniciado com um momento de espiritualidade conduzido pela Irmã Viviani Moura, FSP, vice-coordenadora da Pascom arquidiocesana: “Em um mundo de algoritmos eda Inteligência Artificial, somos chamados a recordar que a comunicação é um dom de Deus. A comunicação nos coloca em relação com os outros e com a criação. A comunicação cristã deve ecoar a experiência da palavra que se fez carne e se colocou na dinâmica humana”.
Ao saudar os participantes, o Cardeal Odilo Pedro Scherer lembrou que as novas tecnologias, como os smartphones e a Inteligência Artificial, ao mesmo tempo que podem aproximar pessoas distantes geograficamente, estão distanciando aquelas mais próximas fisicamente, criando dificuldades para o relacionamento interpessoal.
“As novas gerações são as mais afetadas com isso, pois já não sabem mais como se expressar pessoa a pessoa. Não conseguem mais se abrir, contar sobre seus sentimentos, angústias e necessidades, falar de seu mundo interior. Essa é uma questão antropológica fundamental, pois somos seres de relação, que, conversando, nos conhecemos. Se, ao contrário, ficamos fechados como ilhas, incomunicáveis, perdemos muito do que é humano”, observou o Arcebispo de São Paulo, enfatizando a preocupação da Igreja com o fato de que os algoritmos são seletivos, reduzem os seres humanos a elementos quantificáveis, não retratando a pessoa de modo integral.
Vozes e rostos humanos na era do algoritmo
Um dos conferencistas do sábado foi o Padre Tiago Sibula, da Diocese de Santo André (SP), Assessor da Comissão Episcopal para Comunicação da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB).
Ele enfatizou que na mensagem deste ano, o Papa Leão XIV afirma que é essencial preservar rostos, vozes e histórias humanas para que a semente da verdade não se perca e para que o humano não seja reduzido a dados, a um perfil nas redes sociais, a uma imagem, enfim, a algo que seja controlável pelo algoritmo.
“O grande risco da nossa época não é tecnológico, mas sim de se ter uma aparência de comunicação. Cada vez mais, perdemos a sua verdade, pois hoje podemos ouvir vozes sem pessoas, vozes artificiais; ver rostos sem nos encontrar, rostos artificiais; receber mensagens sem autoria; e até mesmo interagir com a tecnologia, mas permanecermos profundamente sozinhos”, comentou Padre Tiago, detalhando que hoje muitas pessoas não se relacionam verdadeiramente com outras, e assim exclui-se do processo humano a alteridade.
Ainda segundo Padre Tiago, nessa era dos algoritmos, a facilidade em encontrar respostas rápidas leva ao empobrecimento do pensamento, à perda da capacidade de escutar; àformação de “bolhas” nas redes sociais, pois o contraditório é visto como algo que incomoda; e à simulação de relações, pois a IA se mostra sempre empática, próxima e amiga, o que não ocorre sempre nos relacionamentos reais.
Entretanto, o conferencista enfatizou que não se trata de “demonizar a Inteligência Artificial”, que tem se mostrado muito útil para a pesquisa e organização de dados, mas de utilizá-la com a clareza de que ela não deve substituir aquilo que é próprio do humano: sua inteligência, seu discernimento moral, sua responsabilidade e sua capacidade de amar.
Padre Tiago também destacou ser fundamental educar as novas gerações sobre as potencialidades e riscos das novas tecnologias de comunicação; e que pastoralmente, a missão é fazer com que as pessoas se reconciliem com a realidade concreta e se vejam como são diante de Deus. “A Igreja não existe para alimentar algoritmos, mas para comunicar Cristo”, enfatizou.
A formação da consciência pastoral
Também conferencista no evento presencial, a jornalista Silvia Torreglossa, cooperadora paulina, integrante da Signis Brasil, professora universitária e mestra em Ciências da Comunicação, se valeu de quatro canções de Gilberto Gil – “Cérebro Eletrônico” (1959), “Parabolicamará” (1992), “Pela Internet” (1996), “Pela Internet 2” (2018) – para ilustrar como o ser humano foi se relacionando ao longo das décadas com as evoluções das tecnologias de comunicação, as quais aproximaram as pessoas, mas também trouxeram um maior volume de informações e atribuições, levando à percepção de que o tempo tem passado cada vez mais rápido.
Em sua apresentação Silvia rememorou conceitos apresentados pelo filósofo e semiólogoUmberto Eco a respeito dos apocalípticos – que vem nas novas tecnologias um mal para humanidade, com potencial de explorar as pessoas – e dos integrados – que nelas veem, euforicamente, uma grande capacidade para a ampla conexão das pessoas. O ideal para Eco, porém, é que se faça uso consciente e com criticidade das novas tecnologias.
Silvia também tratou sobre conceitos de psicanálise, como o teste de Turing, um experimento mental para determinar se uma máquina pode exibir comportamento inteligente indistinguível do humano. Ela comentou que a tecnologia cada vez mais, por meio dos algoritmos, aprendeu a antecipar os desejos humanos e seus comportamentos, mas efetivamente nada jamais terá a força do contato entre humanos.
A doutora em comunicação comentou ainda a respeito do constante receio das pessoas nessas era digital de estarem perdendo algo relevante, de estarem desinformadas, uma das razões para o uso frequente do smartphone ao longo do dia.
“Todos nós temos de nos vigiar em relação ao uso das redes, da inteligência artificial e do que estamos fazendo com o nosso tempo livre”, comentou, destacando que compete a quem tem função de liderança pastoral educar, “formando para o discernimento digital e a leitura crítica dos algoritmos” e fazer com que a tecnologia sirva para ir em direção ao outro, bem como habitar as redes de modo autêntico.
A primazia do ser humano
Na conferência on-line que abriu o 7º Congresso, na quinta-feira, 7, Robson Ribeiro, mestre em Teologia, filósofo, historiador e professor na Educação Básica, tratou sobre a primazia do ser humano na comunicação.
Ele apontou para a atual crise antropológica na qual o performar nas redes sociais sobrepõe-se à verdadeira busca da identidade humana. “Somos seres humanos, criados à imagem e semelhança de Deus, ou somos seres humanos do algoritmo?”, indagou.
Ribeiro sublinhou que as atuais transformações digitais não são apenas de natureza instrumental, mas estruturais, impactando a família, a Igreja e as relações sociais como um todo. “Quando a comunicação se reduz a dados, se tem a crise do ser humano, pois ela impacta como nós somos e como nos relacionamos com aqueles à nossa volta. O ser humano é relação: escuta, presença e sentido”, enfatizou, destacando que quando somente a informação governa – “Infocracia” – a experiência do encontro entre as pessoas desaparece.
O mestre em Teologia recordou documentos recentes da Igreja que tratam sobre os impactos da IA: “Quo vadishumanitas?”, publicado este ano pela Comissão Teológica Internacional, da Santa Sé; e Antiqua et Nova, lançado pelos Dicastérios para a Doutrina da Fé e para a Cultura e Educação, em 2025: “A Igreja convida a refletir para não rejeitar o novo, mas sim purificá-lo, orientá-lo e colocá-lo a serviço da vida, da dignidade e do bem-comum”.
“Preservar rostos e vozes, significa preservar a nós mesmos, acolhendo com coragem, determinação e discernimento aquilo que é oferecido pela tecnologia, mas que isso não signifique esconder de nós mesmos pontos críticos diante dos riscos que podemos estar vivendo”, complementou, enfatizando ser fundamental “recuperar a primazia do humano como dom, relação e vocação”, colocando-o no centro das relações sociais e não reduzindo-o a dados.
A IA na evangelização
A outra conferência on-line aconteceu na sexta-feira, 8, com a Irmã Joana Puntel, FSP, professora e doutora em Ciências da Comunicação.
Ao tratar sobre a Inteligência Artificial e a evangelização, ela explicou que a evangelização deve ser entendida como “viver, levar e comunicar a Boa Nova a todas as parcelas da humanidade”, missão para a Igreja como um todo e para cada batizado que se mantém nesta era marcada pelo digital, em que a existência humana se dá no onlife: “a revolução introduzida pela internet se tornou parte dos lugares que habitamos, de onde passamos o nosso tempo e de onde interagimos. Não é só um impacto tecnológico, mas um novo habitat”, explicou.
A religiosa paulina sublinhou que para evangelizar neste contexto não basta saber usar os instrumentos de comunicação, mas é preciso fazê-lo com fundamentação teológica e bíblica.“Não podemos estar submissos às inovações tecnológicas que faltam com a ética e não se preocupam com a dignidade do ser humano”, enfatizou.
Ao mencionar a mensagem de Leão XIV para o 60º Dia Mundial das Comunicações Sociais, Irmã Joana sublinhou que o grande desafio não é tecnológico, mas antropológico, para que a IA, a longo prazo, não deteriore as capacidades cognitivas, emocionais e comunicativas do ser humano.
A religiosa paulina citou ainda que na mensagem, o Papa Leão XIV aponta que “renunciar ao processo criativo e entregar às máquinas as próprias funções mentais e a própria imaginação significa enterrar os talentos recebidos para crescer como pessoas em relação a Deus e aos outros. Significa esconder o nosso rosto e silenciar a nossa voz”.
Irmã Joana também enfatizou: “Toda pessoa que evangelize on-line é chamada a dominar a gramática dessa cultura, ou seja, os algoritmos, narrativa visual, dinâmica da comunidade – mantendo-se firme na fé”.
Por fim, destacou que a revolução digital exigirá das pessoas uma educação digital, com uma formação humanística e cultural, para assegurar que as novas tecnologias não apaguem o humano, mas que sejam usadas a serviço da dignidade, do encontro e do bem comum. A educação midiática, portanto, “precisa ser parte da missão evangelizadora da Igreja”.
Fonte: Jornal O São Paulo / Por Daniel Gomes







