A messe é grande

Dom Paulo Andreolli, SX – Bispo Auxiliar de Belém

Caros leitores, neste nosso encontro semanal, queremos refletir sobre a dimensão missionária e vocacional da Igreja, à luz da liturgia do 11º Domingo do Tempo Comum. Para esta partilha, conto com a colaboração do missionário Xaveriano, padre René Casillas Barba, SX.

O Evangelho de Mateus (9,36-10,8) nos mostra que a missão nasce da compaixão de Jesus. Ao ver as multidões “cansadas e abatidas, como ovelhas sem pastor” (Mt 9,36), Cristo revela um olhar cheio de misericórdia e cuidado diante do sofrimento humano.

A missão da Igreja não surge apenas como uma organização ou estratégia, mas como resposta ao amor de Deus pela humanidade. É desse coração misericordioso de Jesus que nasce o envio missionário. O Papa Francisco expressa isso ao afirmar que prefereuma Igreja acidentada, ferida e enlameada por ter saído pelas estradas a uma Igreja fechada em si mesma e presa às próprias seguranças (EvangeliiGaudium, n. 49).

O Concílio Vaticano II também reforça essa verdade ao ensinar que “a Igreja peregrina é, por sua natureza, missionária” (Ad Gentes, n. 2). Ou seja, anunciar o Evangelho não é uma atividade secundária, mas faz parte da própria identidade da Igreja.

Essa reflexão pode ser iluminada também pela obra “O louco de Deus no fim do mundo”, do escritor Javier Cercas. O livro apresenta o encontro entre a dúvida humana e a busca sincera pela fé. O autor mostra que, mesmo em uma sociedade cada vez mais secularizada, continuam vivas as perguntas profundas sobre o sentido da vida, da morte e da esperança.

As “ovelhas sem pastor” de hoje podem ser vistas nas muitas pessoas que vivem perdidas em meio a tantas informações, mas com pouca esperança e sentido interior. São pessoas que carregam perguntas profundas, mesmo quando não usam uma linguagem religiosa. Muitas vezes, a dúvida não afasta da fé; pelo contrário, pode se tornar um caminho de encontro com Deus.

O Evangelho mostra que Jesus não responde primeiro com condenação, mas com compaixão. Antes de enviar os discípulos, Ele pede oração: “Pedi ao Senhor da messe que envie operários para a sua messe” (Mt 9,38). O missionário não é dono da mensagem, mas servidor da obra de Deus.

Quando Jesus envia os discípulos para curar os doentes, purificar os leprosos e expulsar os demônios (Mt 10,8), Ele mostra que a missão precisa alcançar a vida concreta das pessoas, levando cura, esperança, reconciliação e dignidade.

Hoje, a comunidade cristã é chamada a perceber onde estão os “campos da messe”: os jovens afastados da Igreja, mas cheios de perguntas; os adultos marcados por sofrimentos e perdas; aqueles que buscam sentido para a vida em meio às dúvidas do nosso tempo.

Também somos convidados a olhar com atenção para as famílias que enfrentam dificuldades, para os idosos que sofrem com a solidão e para tantas pessoas desanimadas diante das crises sociais e econômicas. A missão da Igreja acontece justamente nesses ambientes onde a esperança parece enfraquecida e onde o coração humano mais necessita de acolhida e escuta.

Outro aspecto importante da missão é o testemunho. Em um mundo marcado por discursos de intolerância e individualismo, as pessoas esperam encontrar cristãos que vivam a fraternidade, a solidariedade e o amor ao próximo. Mais do que palavras, o Evangelho precisa ser anunciado por meio de gestos concretos de misericórdia e serviço.

Por isso, toda vocação nasce de um encontro verdadeiro com Cristo. Quando alguém se sente amado por Deus, descobre também o desejo de servir aos irmãos. A oração pelas vocações continua sendo urgente, para que nunca faltem homens e mulheres dispostos a dedicar sua vida ao anúncio do Reino de Deus nas comunidades, nas periferias e em todos os lugares onde o Evangelho ainda precisa chegar.

Caros leitores, evangelizar significa acolher, escutar e testemunhar com humildade. Significa apresentar o Evangelho não como imposição, mas como caminho de esperança e encontro com Cristo.

O “fim do mundo” citado por Javier Cercas não é apenas um lugar distante, mas representa os momentos extremos da vida humana, quando todas as respostas parecem faltar. É justamente aí que o missionário é chamado a estar presente, levando o olhar compassivo de Cristo e anunciando, com simplicidade e amor, a luz do Evangelho para as buscas mais profundas do coração humano.

Compartilhe essa Notícia

Leia também