Congresso da Pastoral Familiar em Capitão Poço

A Paróquia Santo Antônio Maria Zaccaria, em Capitão Poço, acolheu, nos dias 1º e 2 de agosto, o ‘XXVII Congresso Diocesano da Pastoral Familiar’, promovido pela Diocese de Bragança (PA). O encontro reuniu agentes pastorais em torno de uma reflexão sobre os desafios atuais das famílias e os caminhos para uma ação evangelizadora mais próxima, acolhedora e missionária.

Com o tema “FamiliarisConsortio e AmorisLaetitia: um olhar para a frente e perspectivas pastorais”, o congresso foi assessorado pelos coordenadores do Regional Norte 2, Carvalho e Luciana Limão. A programação propôs uma leitura integrada de dois importantes documentos da Igreja sobre a família, destacando a continuidade entre eles e a necessidade de transformar seus ensinamentos em práticas pastorais concretas.

O versículo escolhido para iluminar o encontro foi retirado da Carta de São Paulo aos Romanos, “Acolhei-vos uns aos outros, como também Cristo vos acolheu” (Rm 15,7). A passagem sintetiza um dos principais apelos apresentados durante o congresso, uma pastoral familiar capaz de acolher as pessoas em suas realidades concretas, sem julgamentos precipitados e sem perder de vista a beleza do Evangelho.

Ao longo das reflexões, os participantes foram convidados a compreender que o primeiro passo de uma pastoral viva é a acolhida. Em um mundo marcado por divisões, inseguranças, conflitos e diferentes formas de sofrimento, a Pastoral Familiar é chamada a ser uma expressão concreta da misericórdia de Deus. “Acolher, nesse contexto, não significa relativizar a proposta cristã ou abandonar a verdade. Significa criar condições para que cada pessoa seja escutada, compreendida e acompanhada em um caminho possível de amadurecimento na fé”, explicou Luciana Limão.

A reflexão apresentada durante o congresso recordou a urgência de uma pastoral solidária, empática, discreta e livre de julgamentos. Uma pastoral que saiba acompanhar as diferentes situações de vida e ofereça percursos personalizados, respeitando a história, os limites e as possibilidades de cada pessoa.

Em uma das mensagens apresentadas, o Papa Leão XIV afirma que as famílias precisam ser acompanhadas sem que a Igreja substitua o papel que lhes é próprio. A missão pastoral, portanto, é caminhar ao lado, oferecer instrumentos para a busca de Deus e ajudar cada família a reconhecer a ação da graça em sua própria história. A proposta é passar de uma pastoral que apenas orienta ou cobra para uma pastoral que também escuta, compreende e ajuda a recomeçar.

A ‘FamiliarisConsortio’, publicada pelo Papa São João Paulo II, apresenta a família como uma comunidade de vida e de amor, chamada a cumprir uma missão dentro da Igreja e da sociedade. O documento destaca quatro tarefas fundamentais da família, formar uma comunidade de pessoas, servir à vida, participar do desenvolvimento da sociedade e participar da vida e da missão da Igreja.

Nessa perspectiva, a família não é vista apenas como destinatária da evangelização. Ela é também sujeito da ação evangelizadora. É na família que a fé pode ser vivida, transmitida e testemunhada nas relações do cotidiano.

A casa é compreendida como uma verdadeira ‘Igreja doméstica’, espaço de oração, educação, partilha, transmissão da fé e serviço. A família também é chamada a exercer uma presença social, defendendo a vida, a justiça, a paz e a dignidade humana, afirmou Luciana.

A ‘AmorisLaetitia’, por sua vez, publicada pelo Papa Francisco após o caminho sinodal sobre a família, aprofunda a necessidade de olhar para as famílias reais, com suas alegrias, limites, crises e feridas. O documento propõe uma pastoral marcada pelo acompanhamento, pelo discernimento e pela integração.

Enquanto a ‘FamiliarisConsortio’ ajuda a recordar o que a família é e qual é a sua missão, a ‘AmorisLaetitia’ oferece caminhos para que a Igreja saiba caminhar com as famílias concretas, especialmente aquelas que enfrentam situações de fragilidade.

Ao comparar os documentos, a coordenadora do regional Norte 2, falou sobre a continuidade entre os dois, e do anúncio da beleza do matrimônio e da família. O desenvolvimento pastoral está na passagem de uma atuação centrada apenas em eventos para uma pastoral organizada em processos permanentes.

Um dos pontos destacados durante o congresso foi a necessidade de reconhecer que a família continua sendo uma boa notícia, mesmo quando atravessada por crises e dificuldades. A fragilidade não elimina a vocação familiar; ao contrário, pede uma presença mais próxima e responsável da Igreja.

Entre os desafios atuais estão a cultura do provisório, a insegurança nos vínculos, as dificuldades econômicas, a solidão, os problemas relacionados à saúde mental, os conflitos conjugais, a violência e a dificuldade de transmitir a fé dentro de casa.

Também foi ressaltado que as novas configurações familiares exigem escuta cuidadosa e discernimento responsável. Não se trata de abandonar a proposta cristã, mas de encontrar formas adequadas de apresentá-la e de acompanhar as pessoas em suas circunstâncias concretas.

A pastoral não substitui a verdade, mas cria condições para que a verdade seja acolhida como caminho. O discernimento, por sua vez, evita tanto a rigidez quanto a improvisação. Ele exige preparação, oração, formação e acompanhamento, sempre com atenção à dignidade das pessoas.

Nesse sentido, a Igreja é chamada a acompanhar com solicitude seus filhos mais frágeis, ajudando-os a reconhecer que suas histórias não estão fora do alcance do amor e da misericórdia de Deus.

O congresso também propôs uma mudança na forma de compreender a preparação para o matrimônio. Em vez de um curso isolado, realizado pouco antes da celebração do sacramento, foi apresentada a necessidade de construir um verdadeiro ‘itinerário de discernimento vocacional’.

Luciana Limão ao apresentar o caminho mostrou que podem existir diferentes etapas. A ‘Preparação remota’, que envolvendo a família, a catequese, a juventude e a cultura vocacional; ‘ a ‘Preparação próxima’, com atenção ao namoro, à afetividade, à fé, à liberdade e ao projeto de vida; a ‘Preparação imediata’, contemplando o sacramento, a liturgia, o compromisso e a vida comunitária; o ‘Acompanhamento dos primeiros anos de matrimônio1, com encontros, casais acompanhantes, integração na comunidade e apoio diante dos desafios iniciais.

A reflexão reforçou que o matrimônio precisa de cuidado permanente. A celebração do sacramento não representa o fim da preparação, mas o início de uma caminhada que exige diálogo, oração, paciência e capacidade de recomeçar.

Também foram apontadas ações como o acompanhamento da educação dos filhos, a oração familiar, a transmissão da fé e a oferta de apoio em situações de crise, sem moralismo e sem abandono. Outro aspecto importante trabalhado durante o congresso foi a compreensão de que a Pastoral Familiar não deve ser um setor isolado dentro da paróquia ou da diocese. A família precisa ser considerada um eixo transversal da ação evangelizadora.

Isso significa que a catequese, a liturgia, a Pastoral da Juventude, a ação social, a formação vocacional e as demais pastorais devem perguntar, em suas atividades, qual realidade familiar está por trás de cada pessoa atendida.

A Pastoral Familiar não substitui os outros serviços eclesiais. Ela ajuda toda a comunidade a reconhecer que cada pessoa pertence a uma família, traz uma história e vive relações que influenciam sua fé, suas escolhas e seus sofrimentos.

Essa visão pede uma pastoral orgânica, construída na comunhão, na corresponsabilidade e na continuidade. O desafio é deixar de trabalhar apenas com iniciativas isoladas e criar processos que envolvam padres, diáconos, leigos, casais, jovens, profissionais e demais agentes pastorais.

A integração das fragilidades foi apresentada como uma das tarefas mais urgentes da Pastoral Familiar. A Igreja precisa acompanhar as pessoas feridas sem obscurecer a beleza do Evangelho e sem transformar a fragilidade em motivo de exclusão.

Esse acompanhamento exige escuta capaz de reconhecer histórias, feridas, limites e possibilidades. Exige também formação dos agentes pastorais para que saibam discernir, orientar e encaminhar cada situação com responsabilidade.

A integração na vida eclesial pode acontecer de maneira gradual, respeitando os passos possíveis de cada pessoa e de cada família. Para isso, são indispensáveis uma linguagem que una verdade e misericórdia, além de espaços seguros de diálogo e acompanhamento.

A ‘AmorisLaetitia’ recorda a necessidade de acolher, acompanhar, discernir e integrar os casais em nova união, possibilitando que também eles façam a experiência do amor incondicional de Deus. Ao mesmo tempo, o documento reafirma que a Igreja não deve renunciar a propor o matrimônio. A proposta cristã precisa ser apresentada com clareza, mas também com proximidade, linguagem compreensível e atenção às situações concretas da vida.

O congresso destacou ainda a importância de unir a Pastoral Familiar, a catequese e a Pastoral da Juventude em processos comuns. A fé nasce, amadurece e é transmitida em relações concretas. Nesse caminho, pais e mães precisam ser ajudados a recuperar sua missão como primeiros educadores da fé. Os jovens também precisam encontrar espaços para refletir sobre namoro, afetividade, vocação, projeto de vida e responsabilidade.

A ação pastoral pode ainda valorizar o papel dos avós e dos idosos como guardiões da memória e da experiência de fé das famílias. Em muitas comunidades, são eles que mantêm vivas as orações, as devoções, as histórias e os vínculos que atravessam gerações.

A proposta é construir uma pastoral menos defensiva e mais propositiva, capaz de apresentar caminhos de felicidade e de sentido. Em vez de apenas denunciar o que está errado no mundo, a Igreja é chamada a mostrar, com a própria vida, a beleza de uma existência marcada pelo amor, pela fidelidade, pelo serviço e pela esperança. Durante o encontro, ganhou força a imagem de uma Pastoral Familiar que não permanece parada diante das mudanças e dos sofrimentos do mundo.

Não uma Pastoral Familiar sentada, mas uma pastoral em pé. Não uma pastoral silenciosa, mas uma pastoral capaz de acolher o grito da humanidade. Não uma pastoral distante, mas uma pastoral iluminada por Cristo e disposta a levar a luz do Evangelho às famílias.

Luciana Limão pediu aos presentes, que essa pastoral fosse missionária, para poder caminhar pelas estradas do mundo e reconhecer a presença de Deus nas diferentes realidades familiares. Uma pastoral parada corre o risco de se tornar incapaz de perceber as novas perguntas e de responder aos apelos do tempo presente.

A reflexão recordou uma afirmação do Papa Francisco, feita na celebração conclusiva da ‘XVI Assembleia Geral Ordinária do Sínodo dos Bispos’, em 27 de outubro de 2024: a Igreja precisa se levantar e seguir adiante, impulsionada pelo chamado de Cristo.

A partir das reflexões apresentadas no ‘XXVII Congresso Diocesano da Pastoral Familiar’, foram apontados alguns caminhos para enriquecer a ação pastoral. ‘Escutar a realidade das famílias’ para poder reconhecer suas alegrias, desafios e feridas; ‘Reorganizar os processos pastorais’ para superar uma atuação limitada à realização de eventos; ‘Preparar e acompanhar os matrimônios’ não somente antes, mas depois da celebração do sacramento; ‘Integrar as fragilidades com prudência’, evitando tanto o julgamento quanto o abandono; ‘Formar agentes e presbíteros’ para a escuta, o discernimento e o acompanhamento; ‘Unir família, juventude e iniciação cristã’ em itinerários de formação pois são um conjunto, e ‘Reconhecer a família como sujeito missionário’  capaz de evangelizar a casa, a comunidade e a sociedade.

A proposta é substituir expressões que encerram caminhos por perguntas que abrem possibilidades. Em vez de afirmar que “a família acabou”, perguntar ‘onde estão as sementes e como podemos cuidá-las?’. Em vez de dizer “você está errado”, aprender a dizer ‘vamos caminhar juntos e discernir os passos possíveis.

Ao final, as reflexões reafirmaram que a família não pode ser reduzida a um tema de estudo ou a um grupo destinatário de atividades. Ela é caminho de evangelização, espaço de comunhão e lugar onde a fé pode nascer, amadurecer e ser transmitida.

A ”FamiliarisConsortio” recorda que a família é vocação, comunidade de vida e de amor, chamada a servir à vida, à sociedade e à Igreja. A “AmorisLaetitia” ajuda a compreender que essa família real precisa ser acompanhada com alegria, ternura, realismo, discernimento e misericórdia. Juntas, as duas exortações deixam um apelo à Igreja: não abandonar as famílias, não reduzi-las, não idealizá-las nem julgá-las à distância. É preciso amá-las, anunciar-lhes a verdade, sustentar seus caminhos e ajudá-las a descobrir a graça de Deus presente em suas histórias.

O futuro da Pastoral Familiar será fecundo quando a Igreja deixar de tratar a família apenas como tema e passar a reconhecê-la como caminho. A “FamiliarisConsortio” oferece a identidade e a missão; a “AmorisLaetitia” oferece a gramática pastoral do acompanhamento.

Para Elizetes Castro Moura, que junto com seu esposo Antônio Marcos, que são o casal coordenador da região episcopal são Francisco de Assis, o encontro enriqueceu a caminhada de todos os agentes da Pastoral Familiar da região de Bragança. “O Congresso foi um momento muito importante de partilha, comunhão e renovação da missão evangelizadora. Também foi uma oportunidade de capacitação, para que os agentes pudessem atuar de forma mais qualificada em suas paróquias, além de compartilhar experiências e iniciativas que apresentaram bons resultados em suas comunidades. Esses encontros, além de animarem os agentes, fortalecem-nos para a missão de acolher, acompanhar e servir as famílias à luz do Evangelho. Os participantes são enriquecidos e fortalecidos espiritualmente por meio das orações, da celebração eucarística, da adoração, das palestras e também dos momentos de convivência e lazer entre as famílias. São ocasiões em que se renova o entusiasmo missionário e os agentes são motivados a continuar seus serviços com esperança e dedicação. O Congresso é muito mais do que um simples encontro: favorece a intimidade entre os participantes, fortalece os laços entre os agentes e oferece uma oportunidade de crescimento na fé e de aquisição de novos conhecimentos.

Foi com esse horizonte que a Diocese de Bragança realizou o congresso em Capitão Poço, olhando para a realidade das famílias com esperança, renovando o compromisso de caminhar com elas e reconhecendo que cuidar da família é também cuidar da vida, da fé e do futuro da Igreja.

Fonte: Regional Norte 2 / Por VívianMarler

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