Monsenhor Ronaldo Menezes – Vice-Presidente da Fundação Nazaré de Comunicação
A despeito do que se tem dito sobre as similaridades entre o Sermão de Jesus na Montanha sagrada da Galileia e os Dez Mandamentos recebidos por Moisés no Monte Sinai, no Egito, o fato evidente em si mesmo é que Jesus é infinitamente superior a Moisés. Moisés era um emissário de Deus, que transmitia as palavras recebidas de Deus, um intermediário e intercessor. Jesus é o Filho de Deus e, por isso, está investido de poder próprio e de autoridade indiscutível para aperfeiçoar a lei que Moisés apresentou ao povo do antigo Israel. Se Jesus podia aperfeiçoar a lei era porque também essa lei admitia progresso em sua interpretação verdadeira.
Sobre a questão da superioridade da nova justiça à lei antiga, lemos abaixo o texto de São Mateus:
“Ouvistes que foi dito aos antigos: Não matarás; aquele que matar terá que responder no tribunal. Eu, porém, vos digo: todo aquele que se encolerizar contra seu irmão, terá que responder no tribunal; aquele que chamar ao seu irmão “cretino!” estará sujeito ao julgamento do Sinédrio; aquele que lhe chamar “renegado” terá de responder na geena de fogo. Portanto, se estiveres para trazer a tua oferta ao altar e ali te lembrares de que o teu irmão tem alguma coisa contra ti, deixa a tua oferta ali diante do altar e vai primeiro reconciliar-te com teu irmão; e depois virás apresentar tua oferta”(Mt 5,21-24).
O Senhor Jesus começa este famoso ensinamento – as 6 antíteses – com esta frase: “Ouvistes que foi dito aos antigos” porque o Decálogo fazia parte da catequese fundamental de todo israelita (cf. Ex 20,13 e Dt 5,17). Então era um ensino corrente nas sinagogas, que se devia aprender com o que tinha sido dito aos antepassados. Depois ele dirá: “Eu, porém, vos digo”. Fala-se de “antítese” como se fosse uma oposição, mas não é bem assim, isto é, uma oposição. Antes, é, como se disse acima, uma nova interpretação, um aperfeiçoamento da lei antiga. O Senhor não nos pede uma obediência legalista, cega e externa da lei, mas ensina a obediência do coração, uma adesão interior; portanto, não está negando o ensinamento do Antigo Testamento, mas indicando a interpretação correta da Palavra de Deus, isto é, a intenção original do Criador.
A palavra que lemos acima se refere ao quinto mandamento da lei de Deus, “não matar”, no sentido de ato premeditado e intencional contra alguém, contra uma pessoa. Em seu ensinamento, Jesus introduz três formas de tirar a vida de uma pessoa, além do ato físico próprio. O primeiro é a ira, a cólera, a origem, conforme São João, de todo homicídio: “Todo aquele que odeia seu irmão é homicida; e sabeis que nenhum homicida tem vida eterna permanecendo nele” (1Jo 3,15); a ira neste caso é um atentado contra a identidade da pessoa como filha de Deus, criada a sua imagem e semelhança. O segundo modo é chamar o irmão de “cretino”, que a nota “g” da Bíblia de Jerusalém ajuda a compreender como alguém que tem “cabeça vazia, sem miolos”, uma maneira de depreciar alguém, publicamente. A terceira maneira de matar alguém é chamá-lo de “renegado”, em sua pior conotação moral e religiosa, pois considera a pessoa praticante de impiedade perante Deus. Parecem coisas simples, mas não! É uma forma de rejeição do irmão, de alguém que Deus pôs em nosso caminho e em nossa vida.
Aqueles que tratam outra pessoa dessa maneira, matando-a em sua integridade, está condenada ao fogo do inferno, ou da geena, originalmente um vale próximo a Jerusalém onde se faziam sacrifícios humanos em honra ao deus pagão Moloc, depois transformado em um local para se queimar o lixo da cidade, cujo fogo não se apagava, mas ardia, permanentemente. Uma sugestiva imagem para o inferno real. A advertência de Jesus não pode ser aplicada a todos os homens – bem que poderia ser; é, antes para nós, os seus discípulos, que ele fala e exige um novo comportamento em relação aos outros irmãos, como testemunho para os demais. Para os dias atuais, é uma boa tarefa para não embarcarmos na onda comum de destruição da imagem de quem quer que seja, tirando sua identidade e seu valor. Num mundo de intolerâncias, os discípulos de Jesus somos chamados a renovar as relações interpessoais, a partir da Palavra de Deus; este é um compromisso que vai além das nossas relações dentro do corpo da Igreja ou das comunidades cristãs; estende-se a todas as pessoas, até aquelas que parecem não ter nenhuma identidade conosco ou ainda que nos rejeitem e critiquem nosso modo de ser no mundo.
Deste compromisso de não matar de nenhuma forma, o Senhor tira duas consequências extremas, que implicam no próprio culto de adoração a Deus, ou seja, na maneira de nos relacionarmos com Deus em nossas assembleias ou igrejas: a primeira é a exigência da reconciliação com o irmão antes de qualquer ação litúrgica, para depois apresentar a Deus nossa oferta ou oração; a segunda é a reconciliação prévia, antes de qualquer altercação, para evitar danos maiores. Este é, sem dúvida, um caminho de aperfeiçoamento das relações humanas que levam à eliminação da famosa lei de Talião, do olho por olho, dente por dente.




