Movimento leigo reza pelas vocações

Membros do Movimento Serra com seminaristas e o bispo de Formosa, dom Adair José Guimarães / Crédito: Arquivo pessoal - Luis Albino
Membros do Movimento Serra com seminaristas e o bispo de Formosa, dom Adair José Guimarães / Crédito: Arquivo pessoal – Luis Albino

Quando o padre João Manoel Lopes entrou para o Seminário Menor Nossa Senhora D’Abadia, da diocese de Formosa (GO), em 2000, encontrou lá um grupo de leigos que se fazia sempre presente e disposto a acolher os seminaristas e rezar por eles. Era o Movimento Serra, ainda hoje atuante na diocese goiana e em outras partes do Brasil.

“Na minha vocação, o Movimento Serra esteve presente a partir do momento em que entrei para o seminário”, disse o padre à ACI Digital. “Sempre nas reuniões, jantares que eles faziam conosco, seminaristas, era uma presença muito atuante e também orante. Uma característica que sempre me marcou no movimento foi a oração pelas vocações”, acrescentou.

O Movimento Serra nasceu em 1935, em Seatle, EUA, “com a finalidade de proteger ou amparar os sacerdotes”, contou o presidente do Conselho Nacional do Movimento Serra no Brasil, Luis Albino. Com o tempo, disse, perceberam a “necessidade de rezar não só pelas vocações, mas também pela santificação do clero”.

Segundo ele, o movimento tem três objetivos: “primeiro, favorecer e promover as vocações ao sacerdócio ministerial na Igreja Católica, com uma vocação especial ao serviço e apoio ao sacerdote em seu sagrado ministério; depois, valorizar e animar as vocações à vida religiosa consagrada na Igreja Católica; e o terceiro é ajudar seus membros a reconhecer e a responder com sua própria vida ao chamado de Deus à santidade em Jesus Cristo, inspirados pelo Espírito Santo”.

“Então”, disse Luis Albino, “baseado nesses objetivos, o Serra age com uma entidade de amor profundo à consagração dentro da Igreja”.

O movimento chegou ao Brasil em 1962, trazido pelo leigo Luiz Antônio Compagnoni e pelo então arcebispo do Rio de Janeiro (RJ), cardeal Jaime de Barros Câmara. “Eles foram aos EUA, descobriram o movimento e trouxeram para o Brasil e a primeira comunidade do Serra do Brasil é a do Rio de Janeiro, que chamamos de Serra Mater”, disse Luis Albino.

Desde então, o movimento se expandiu pelo Brasil. Atualmente, há 206 comunidades do Serra “de Norte a Sul” do país. Segundo Albino, “algumas comunidades são diocesanas, outras paroquiais”. “Isso depende muito da situação em que elas surgiram e da necessidade daquela região”, disse, ressaltando que o Serra atua muito de acordo com a necessidade” da diocese, do seminário.

Apoio para seguir a vocação

Albino contou que, em sua atuação, o movimento busca “não só rezar pelas vocações, pela santificação do clero”, mas também “fomentar amizades entre os católicos, fomentar, amparar e proteger esses jovens que, às vezes, vão para o seminário, mas não têm o apoio necessário para poder discernir a sua vocação”.

“A gente sabe, hoje é muito fácil você optar por uma profissão, todo mundo apoia, mas, quando um jovem opta pela vocação, muitas vezes, a sociedade tende a não apoiar. E o Serra tem justamente esse objetivo, de apoiá-los nesses momentos”, disse.

Segundo Albino, esse apoio se manifesta como um “apoio espiritual, afetivo, e também financeiro”, sempre de acordo com o que a Igreja local precisa.

Luis Albino citou o exemplo da atuação do movimento em sua diocese de Formosa (GO), onde o Serra procura “sempre estar dentro do seminário”. “Nós temos uma reunião mensal, que é uma reunião de jantar. Cada serrano prepara um prato e, num sábado à noite, nós fazemos um jantar coletivo e todos os seminaristas participam conosco, não só da questão da alimentação, mas também da oração, do convívio social, porque esse convívio é importante, porque eles se sentem abraçados, se sentem valorizados pela sociedade que os acolhe”, disse.

Além disso, os membros do movimento dão uma ajuda financeira ao seminário, que é destinada para a instituição, e não para um seminarista em específico, ressaltou Albino. “Quando a gente faz uma ajuda coletiva, a gente também sustenta o seminário, porque o seminário sabe dosar todas as responsabilidades, todos os consumos, todas as coisas”, disse. “A gente procura ajudar, mas ajudar para que todos possam ter a mesma condição de estar lá estudando e recebendo aquele apoio necessário para tudo isso”, acrescentou.

Os membros do Serra também ajudam, “por exemplo, nos encontros vocacionais e outras atividades, seja preparando um almoço, arrumando as coisas, sempre conforme o seminário quer”, disse.

Segundo o padre João Manoel, o Movimento Serra “tem uma presença muito particular dentro” da diocese de Formosa. “Poderia dizer que é um braço leigo permanente da pastoral vocacional da diocese, porque o movimento reza, convida, acompanha e sustenta as vocações”, disse.

Segundo o sacerdote, o Serra está presente em várias paróquias da diocese, inclusive na catedral, onde ele é pároco. “O movimento sempre trabalhou no despertar vocacional, particularmente com um folheto que eles distribuem, um cartaz com a frase ‘Você já pensou em ser padre?’” e a frase ‘Eu preciso de você’, com “o Cristo que aponta e que convida”. “Então, o movimento busca criar uma cultura vocacional e isso sempre ficou muito nítido”, disse.

O padre João Manoel contou que o movimento “têm também o trabalho de acompanhar o sacerdote depois da ordenação, rezando por cada padre da diocese”. “Então, sempre foi uma presença muito orante, uma presença que sempre ajudou muito o seminário”, completou. Para ele, o Movimento Serra “tem feito, sim, a diferença em nossa Igreja diocesana”.

O diácono permanente Ulysses Antônio Sebben, de União da Vitória (PR), faz parte do Movimento Serra há mais de 60 anos. Para ele, o movimento é importante nos dias de hoje, quando “temos significativa carência de presbíteros e de homens e mulheres de vida consagrada”. “O ideal para um melhor e necessário atendimento aos fiéis, em nossa Igreja, seria um número quatro vezes maior do que o existente”, disse. “Daí a importância de ‘rezar e trabalhar pelas vocações de especial consagração’, exatamente o que fazem os membros do Movimento Serra em seus encontros mensais ou até semanais, através das missas, rosário, hora eucarística etc., sempre pelas vocações e pela santificação do clero”, completou.

Amor ao sacerdócio

O diácono Ulisses contou que já houve “vários casos de sacerdotes que nos disseram: ‘Sou padre graças ao Movimento Serra que sempre visitava o seminário onde eu estudada, trazendo presentes, produtos, alimentos… e, especialmente dirigindo-me palavras de estímulo, de entusiasmo, de verdadeira amizade, muitas vezes até – praticamente – substituindo meus pais que moravam longe’”.

Há 40 anos como membro do Movimento Serra, Luis Albino disse que, pessoalmente, o movimento trouxe para sua vida “um amor muito grande pelo sacerdócio”. “Para nós, é muito especial, porque já acompanhamos muitos jovens que chegaram ao seminário, e muitas vezes acompanhamos esse crescimento intelectual, espiritual, como pessoa. É muito gratificante ver essa evolução. E, quando chega o dia da ordenação, você se lembra daquele primeiro dia em que você viu a apresentação dele no seminário, o quanto ele cresceu e ele responde a isso de uma maneira tão singular, que é extremamente gratificante”, disse.

“Quando vemos padres muito bem preparados, muito bem equilibrados no seu sacerdócio, isso já é para nós uma grande vitória”, concluiu Luis Albino.

Fonte:ACI Digital / Por Natalia Zimbrão

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