Dom Paulo Andreolli, SX – Bispo Auxiliar de Belém
Caríssimos leitores, quero iniciar este nosso encontro dominical com palavras de louvor e gratidão a Deus, expressas nos primeiros versículos do salmo da liturgia deste domingo: “Bendize, ó minha alma, ao Senhor, e todo o meu ser, ao seu santo nome! Bendize, ó minha alma, ao Senhor, não te esqueças de nenhum de seus favores” (Sl 102/103,1-3). Essas palavras revelam o reconhecimento e o louvor ao Senhor, Deus-Criador. Nosso Deus é compassivo e misericordioso; é o Deus do perdão.
E é justamente a partir dessa imagem de Deus que convido cada leitor a olhar para o título deste artigo: “A beleza do perdão nas Sagradas Escrituras”. Há nele duas expressões importantes: a beleza do perdão e as Sagradas Escrituras. A Igreja dedica o mês de setembro à Palavra de Deus, celebrando o chamado Mês da Bíblia. É na Palavra que aprendemos o verdadeiro significado de dar e receber o perdão. As Sagradas Escrituras nos ajudam, portanto, a compreender e a viver essa experiência.
A Bíblia apresenta Deus como Aquele que se compadece de seus filhos e oferece sempre a possibilidade de recomeçar. O perdão é uma das expressões mais profundas do amor e da misericórdia de Deus. Perdoar não significa dizer que a ofensa não teve importância, mas escolher não permanecer preso à mágoa, ao ressentimento e ao desejo de vingança. O perdão abre espaço para a reconciliação, para a paz e para uma nova maneira de olhar o outro.
Se a Palavra de Deus apresenta o perdão dessa forma, precisamos buscar nela os caminhos para fazer verdadeiramente essa experiência. A liturgia deste 24º Domingo do Tempo Comum nos conduz justamente por esse caminho. As leituras formam uma mensagem muito clara: quem experimenta a misericórdia de Deus é chamado a ser misericordioso também.
A 1ª Leitura, do livro do Eclesiástico, mostra que não podemos pedir a Deus aquilo que não estamos dispostos a oferecer aos nossos irmãos. O texto nos convida a abandonar a ira, a raiva e o desejo de vingança. Ao lembrar a aliança com o Altíssimo, somos chamados a não guardar para sempre as faltas dos outros: “Pensa na aliança do Altíssimo, e não leves em conta a falta alheia” (Eclo 28,9). O perdão, portanto, não é apenas um sentimento, mas uma decisão que precisa fazer parte da vida de quem deseja caminhar com Deus.
O Salmo reforça essa mensagem ao apresentar um Deus que perdoa, cura e é cheio de compaixão. O salmista reconhece que o Senhor não nos trata segundo as nossas faltas, mas age conosco de acordo com sua misericórdia. Essa atitude de Deus deve despertar em nós uma profunda gratidão. Ao reconhecer o quanto somos perdoados, também aprendemos a oferecer perdão aos que convivem conosco.
Na 2ª Leitura, da Carta de São Paulo aos Romanos, o apóstolo recorda que “vivos ou mortos, pertencemos ao Senhor” (Rm 14,8). Essa afirmação nos ajuda a compreender que toda a nossa vida deve estar orientada para Deus. Se pertencemos ao Senhor, somos chamados a seguir seus caminhos: caminhos de amor, misericórdia, justiça, compreensão e perdão. Não cabe a nós viver julgando ou condenando o irmão, mas procurar agir de acordo com a fé que professamos.
No Evangelho de Mateus, encontramos o centro da mensagem deste domingo. Pedro pergunta a Jesus quantas vezes deve perdoar o irmão que pecar contra ele: “Até sete vezes?” Jesus responde: “Não te digo até sete vezes, mas até setenta vezes sete” (Mt 18,21-22). Com essa resposta, Jesus não está propondo uma simples conta matemática. Ele está ensinando que o perdão não pode ser limitado por um número. O cristão é chamado a perdoar sempre.
A parábola do servo que recebeu o perdão de uma grande dívida e, logo depois, recusou-se a perdoar uma pequena dívida de seu companheiro torna a mensagem ainda mais forte. Jesus mostra a incoerência de quem deseja receber misericórdia, mas não consegue oferecê-la. Deus nos perdoa muito mais do que somos capazes de compreender; por isso, não podemos fechar o coração diante daquele que nos pede uma nova oportunidade.
O perdão é um caminho de liberdade. Quando guardamos continuamente uma ofensa, corremos o risco de permanecer presos ao passado. Quando perdoamos, não mudamos aquilo que aconteceu, mas podemos mudar a maneira como lidamos com essa experiência. O perdão permite que a vida continue e abre espaço para a paz que Deus deseja oferecer a cada um de nós. Que o Senhor, rico em misericórdia, nos conceda a graça de pedir e dar o perdão!
