A espiritualidade pascal: o Espírito Santo anima e fortalece a Igreja

Introdução

A encarnação de Deus Filho aconteceu por obra do Espírito Santo (cf. Lc 1, 35); no Batismo, o Espírito testemunhou a identidade do Filho Amado (cf. Jo 1, 32; Mt 3, 16-17); movido pelo mesmo Espírito, Jesus proclamou a sua missão libertadora e foi ao encontro dos mais pobres (cf. Mc 1-5; Lc 4, 1.14-18); após instruir os doze apóstolos, Jesus os enviou movidos pelo poder do Espírito Santo para serem suas autênticas testemunhas (cf. Jo 20, 22) e evangelizar o mundo todo (cf. At 1, 8). Despedindo-se, prometeu que seu Espírito estaria sempre com Eles como o pedagogo, o advogado, a fonte de força e verdade (cf. Jo 14, 26; 16, 13-15).

Por ocasião da solenidade de Pentecostes, somos convidados a aprofundar o sentido da sua presença e o significado do dons do Espírito Santo para vida da Igreja. O Espírito Santo é Dom por execelência para a vida do mundo (cf. At 2, 38). E seus frutos em nós, são dons! Chamam-se “dons” porque nos são doados, são presentes, não depende de méritos e nem de esforços pessoais. Não são conquistas humanas! Deus é a fonte inesgotável de todos os carismas (de dons) e graças em vista da nossa santificação.  

A conhecida lista dos dons do Espírito Santo nos remete a um texto do profeta Isaías (cf. Is 11, 1-2). Mas os dons do Espírito Santo são infinitos. O Filho de Deus, o Messias que se expressou, historicamente, em Jesus de Nazaré, tem a plenitude das riquezas divinas porque nele habita a plenitude da divindade (cf. Cl 2, 9).

Todo aquele que doa algo a alguém, sempre traz em sua mente um desejo em relação às atitudes do beneficiário. Assim também Deus em relação a nós! Deus nos cumula de dons para que melhor possamos viver, superar os desafios que surgem na vida cotidiana, sendo-lhe fiel e realizando a sua vontade. A vontade de Deus é a nossa santidade, a sintonia com o seu ser. Portanto, essa é a finalidade principal dos dons do Espírito Santo doados a nós!

  1. Os sete dons do Espírito Santo

O Espírito Santo fecunda a nossa vida com seus muitos frutos (cf. Gl 5, 22-23). Mas reflitamos sobre os clássicos sete dons.

A SABEDORIA é o dom que nos capacita para distinguir o bem do mal e, a partir dessa distinção, agir escolhendo o Bem, para ser livre, responsável, feliz. O dom da sabedoria nos capacita para um agir conveniente de acordo com os contextos e circunstâncias sem prescindir da verdade e nem da justiça para consigo e com os outros.

O ENTENDIMENTO é o dom que nos capacita para compreender aquilo que a razão não explica e nos faz reconhecer, acolher e respeitar a natureza das coisas e a condição humana, por exemplo, o sentido da nossa vida, a necessidade de fazer o bem para ser feliz, a verdade de que somos peregrinos neste mundo, de que somos limitados e em Deus deve estar a nossa esperança, a necessidade de dar um sentido para o sofrimento!

A CIÊNCIA é o dom da busca de respostas, dom da inquietude que vem da razão que nos leva ao conhecimento e que, por sua vez, fecunda a nossa razão, o estudo, a reflexão, o discernimento. A ciência vem da inteligência que nos possibilita resolver problemas, fazer projetos, programar o tempo, tomar consciência da importância da responsabilidade humana diante das necessidades do mundo. O dom da ciência nos aponta para o bom senso no agir, para o meio termo, o equilíbrio, a prudência, a temperança, a busca ética de meios para a promoção de um mundo melhor e em prol da vida.

O CONSELHO é o dom da capacidade de instruir os outros, de dar-lhes suporte moral, espiritual, afetivo. O dom do Conselho nos fala do reto uso da “língua”, da “linguagem”, do diálogo e também da escuta para sermos capazes de comunicar o bem que liberta. Conselho é a capacidade de contrariar a propagação do mal através da palavra edificante; o dom do Conselho denuncia mentiras e tudo o que ofende a dignidade humana, nos dá capacidade para reconhecermos que não somos autossuficientes, que precisamos ser confrontados e confrontar, de esclarecer e sermos esclarecidos.

A PIEDADE é o dom que nos faz zelar pela nossa filial relação com Deus-Pai. Piedade é o conjunto das atitudes do ser, francamente, filho! Ser piedoso é professar a fé e a confiança na paterna providência divina. Disso derivam muitas atitudes: o dever da pronta obediência, da serena aceitação de sua vontade, da atenta escuta de sua palavra, da acolhida do dever, da fraternidade para com os irmãos, da necessidade da comunhão através da contínua oração.

A FORTALEZA, que São Paulo chama de “longanimidade”, é a firmeza de ânimo; não é um estado emocional, mas, sim, solidez de convicções que brotam do reconhecimento da contínua presença de Deus na própria vida que nos dá segurança. A fortaleza como dom do Espírito alicerça a espiritualidade, robustece os bons propósitos, afugenta a instabilidade de ânimo, firma a vontade de cumprir bons propósitos, capacita o fiel para ser constante e firme nas adversidades da vida que o convidam ao desânimo.

O TEMOR DE DEUS é o dom que nos leva a preservar amor; não é sinônimo de “medo” de Deus! Trata-se do Amor que não quer descontentar, do “medo” de desagradar, do “medo” de perder benefícios. Quem ama, faz tudo para não descontentar o amado, para não ofendê-lo, para não magoá-lo, para não feri-lo…Porque quem ama faz tudo para estar mais em comunhão com o amado, em sua sintonia, em sinergia, em um continuo diálogo que alimenta a amizade. O amor nada faz de inconveniente. Amor e Bem caminham juntos.

 

  1. Dons para amar e melhor servir

O Espírito Santo é o princípio de vida (cf. Gn 6, 17; Ez 37, 10-14), a força vital e renovadora da Igreja (cf. Ez 37). O Espírito Santo é a fonte de toda boa inspiração que alimentava os profetas para que pudessem bem servir ao povo com firmeza e honestidade (cf. Ez 2, 2; 3, 12-14); é o mesmo Espírito que fez os tímidos e pobres discípulos de Jesus superarem suas fragilidades e os transformou em corajosas testemunhas do Ressuscitado.

Quem vive segundo as inspirações do Espírito recebe dons e produz bons frutos (cf. Is 11, 2s; Gl 5, 22s). O Espírito Santo é o nosso Consolador (paráclito), pedagogo (que nos educa e conduz), isto é, “advogado” dos discípulos de Jesus diante do Maligno, inimigo do Reino de Deus (cf. Jo 14, 15-26; 15, 26-27; 16, 7-14). Todos os dons do Espírito Santos nos capacitam para amar e melhor servir!

 

  1. O Espírito e o serviço de liderança

O Espírito Santo é o mestre da Verdade e da Santidade que forma, orienta, fortalece, anima a Igreja para que ela seja fiel à sua missão confiada por seu fundador. Essa consciência do protagonismo do Espírito Santo é essencial para todos os líderes da Igreja.

O serviço de liderança é uma missão exigente e, por isso, precisa estar alicerçado na sabedoria divina para ser verdadeiro, caridoso, honesto, claro, livre, firme, justo, prudente, perseverante, apaixonado pelo bem das pessoas, capaz de relação, aberto ao novo… Líderes inteligentes, mas sem abertura ao Espírito de Deus, tornam-se vaidosos, arrogantes, violentos, egoístas. As nossas fragilidades naturais, sem a força do espírito, podem causar grandes desvios no exercício da autoridade de um líder.

Concluamos esta reflexão com um texto sagrado que nos leva a meditar sobre a beleza do Espírito de Deus: “Na Sabedoria há um espírito inteligente, santo, único, múltiplo, sutil, móvel, penetrante, imaculado, lúcido, invulnerável, amigo do bem, agudo, livre, benéfico, amigo dos homens, estável, seguro, sereno, que tudo pode e tudo abrange, que penetra todos os espíritos inteligentes, puros e sutilíssimos. A sabedoria é mais ágil que qualquer movimento, atravessando e penetrando tudo por causa da sua pureza. (…) Ela é reflexo da luz eterna, espelho nítido da atividade de Deus e imagem da sua bondade. Embora seja única, ela tudo pode. Permanece sempre a mesma, mas renova tudo, e entrando nas almas santas, através das gerações, forma os amigos de Deus e os profetas” (Sb 7, 22-28).

PARA REFLEXÃO PESSOAL:

  1. O que significa um dom?
  2. É importante a reflexão sobre o protagonismo do Espírito Santo no serviço de liderança, por quê?
  3. Quais são os mais evidentes dons do Espírito Santo na vida da Igreja?

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