Por Pe. Helio Fronczak
A imagem é um espelho embaçado. Um espelho embaçado não perde sua essência, mas deixa de realizar sua função: ele não consegue refletir a realidade com nitidez. Assim acontece com a alma humana quando se torna prisioneira das mil situações e preocupações do cotidiano. O “vapor” das distrações e dos vícios obscurece nossa superfície, impedindo que a beleza interior da sabedoria de Deus, que ilumina todo ser humano, transpareça diante de nós.
A consequência de vivermos como um espelho embaçado é o distanciamento da nossa própria verdade e da luz divina. São Paulo ilustra essa nossa condição de visão obscurecida ao escrever aos Coríntios: “Porque agora vemos como por espelho, em enigma, mas então veremos face a face; agora conheço em parte, mas então conhecerei como também sou conhecido” (1 Coríntios 13,12). Se a nossa natureza por si só já é limitada, com o acúmulo de vícios ela se torna ainda mais escura.
Santo Agostinho, em sua busca incansável pela verdade, reforça essa necessidade de olhar para dentro, e nos ensina que Deus não deve ser buscado fora, mas no mais íntimo de nós mesmos: “Não saias de ti, volta para dentro de ti mesmo; a verdade habita no homem interior”. No entanto, para encontrar essa Verdade, o espelho da alma deve estar limpo. Agostinho compreendeu que os vícios são como ruídos e sombras que nos distraem do “Mestre Interior”.
Para que as virtudes floresçam e iluminem nosso interior, é indispensável o exercício da purificação. Retirar os vícios é como limpar o vidro: um gesto necessário para que a luz de Deus, que habita em nós, possa finalmente ser refletida com clareza, guiando nossos passos e servindo de farol para os que nos cercam.
