A sinodalidade é a forma e o estilo da Igreja

Sigo reportando importantes falas do Cardeal Mario Grech, secretário-geral do Sínodo dos bispos. No Consistório da criação dos 13 últimos novos cardeais, em junho passado, ele proferiu ao Papa Francisco um importante discurso, sintetizando aquilo que a Igreja está vivendo neste tempo de caminhada sinodal.

Eis o texto: Santidade, convocados ao Consistório em tempos tão graves para a humanidade inteira por causa da pandemia, queremos dirigir o nosso pensamento aos “fratelli tutti” [irmãos todos] que estão na provação. As dramáticas circunstâncias que a Igreja e o mundo estão atravessando nos desafiam a oferecer uma leitura da pandemia que ajude a todos e a cada um a também aproveitar nesta tragédia a oportunidade para “repensar os nossos estilos de vida, as nossas relações, a organização das nossas sociedades e, sobretudo, o sentido da nossa existência”.

Posta como “sacramento, isto é, sinal e instrumento da íntima união com Deus e da unidade do gênero humano”, a Igreja é chamada a abrir caminhos, a se pôr Ela mesma, novamente, a caminho. Essa é a lição do Concílio Vaticano II, no capítulo II da Lumen gentium, que recupera a ideia do Povo de Deus a caminho: para o Novo Testamento a condição dos cristãos é a dos peregrinos, que vivem no mundo como estrangeiros, sabendo bem que só poderemos alcançar a plenitude no Reino de Deus. Mais uma vez, no início de um novo milênio, o Espírito parece nos dizer que devemos voltar a ser “os do Caminho” (cf. At 9,2).

Uma Igreja que caminha é uma Igreja que “caminha junto”. O Povo de Deus não é uma soma de indivíduos; é o “santo povo fiel de Deus”. Se ela caminha “junto”, não erra o caminho, porque, como totalidade dos batizados, exerce aquela capacidade “infalível in credendo”, o sensus fidei que o senhor tanto nos convida a escutar para discernir “aquilo que o Espírito diz à Igreja”. Eram essas as solicitações que o senhor, Santidade, fez a todos por ocasião do 50º aniversário da instituição do Sínodo, quando desenhava o perfil de uma “Igreja constitutivamente sinodal”.

Uma Igreja sinodal é “uma Igreja da escuta”. A escuta recíproca como escuta do Espírito talvez seja a forma mais verdadeira de realizar aquele “pensamento aberto, isto é, incompleto, sempre aberto ao mais de Deus e da Verdade, sempre em desenvolvimento” que o senhor, Santidade, enfatiza de bom grado como disposição do bom filósofo, do bom teólogo, evidentemente também do “bom bispo”. Não se trata, de modo algum, de relativismo; pelo contrário, capta-se aqui o próprio dinamismo da Tradição, em virtude da qual “a Igreja tende para a plenitude da verdade divina, até que nela cheguem a cumprimento as palavras de Deus”.

Dentro desse dinamismo, esclarece-se o perfil da Igreja sinodal e da sinodalidade como forma e estilo da Igreja. Essa é a visão que o senhor, Santo Padre, nos propõe com força. A constituição Episcopalis communio tenta implementá-lo, interpretando o Sínodo dos Bispos não mais como evento, mas como processo, no qual estão envolvidos em sinergia o Povo de Deus, o Colégio dos Bispos e o bispo de Roma, cada um segundo a sua função. Gosto de sublinhar o papel irrenunciável que o Povo de Deus desempenha nesse processo. Desse modo, o sensus fidei recupere a sua função ativa, que permite praticar a escuta como princípio de uma Igreja verdadeira e totalmente sinodal.

A sinodalidade introduz todos os níveis da vida e da missão da Igreja numa dinâmica de circularidade fecunda: as Igrejas particulares, as províncias e regiões eclesiásticas, a Igreja universal, na qual o Colégio dos Cardeais também oferece a sua parte, estão inseridas nesse processo sinodal que manifesta “um dinamismo de comunhão que inspira todas as decisões eclesiais”.

Essa é a base da tarefa que, juntos, somos chamados a desempenhar e a cujo serviço se coloca a Secretaria do Sínodo. Ela pode colaborar para facilitar as passagens entre os níveis de exercício da sinodalidade. A sua primeira contribuição é precisamente a da escuta: eu já escrevi a todos os bispos, oferecendo a nossa disponibilidade, e muitos, de todas as partes da terra, me confirmaram a importância da escuta recíproca. Mas creio e desejo que a Secretaria possa fazer mais, por exemplo, apoiando os bispos e as Conferências Episcopais no amadurecimento de um estilo sinodal, sem interferir, mas acompanhando os processos em curso nos diversos níveis da vida eclesial.

Essa pode ser a modalidade com que a Secretaria do Sínodo participa do dinamismo da “Igreja em saída”, em um mundo que, nas circunstâncias dramáticas que estamos atravessando, precisa ainda mais que a Igreja seja verdadeiramente “sacramento universal de salvação” (LG 48).
Quem nos sustenta é a esperança, dom do Espírito Santo para os tempos difíceis. Charles Péguy, em “O pórtico do mistério da segunda virtude”, a imaginava como “uma menina de nada”, a menor das irmãs, entre a fé, comparada a uma esposa, e a caridade, vista como uma mãe. E concluía: “O povo cristão só presta atenção nas duas irmãs mais velhas, a primeira e a última (…). Cegos que são, não conseguem ver que, em vez disso, é a do meio que arrasta as duas irmãs mais velhas”.
“Não deixemos que nos roubem a esperança!”. Que Maria, a Stella maris, que nós, malteses, veneramos sob o título de Nossa Senhora de Ta ‘Pinu, nos infunda essa esperança.

Ao senhor, Santo Padre, que quis nos escolher para um serviço mais direto à Igreja, pedimos que nos abençoe.
A entrevista completa encontra-se publicada no site: https://www.ihu.unisinos.br/categorias/605119-uma-igreja-que-caminha-junto-discurso-de-homenagem-e-agradecimento-de-dom-mario-grech-ao-santo-padre

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