Deixar-se conduzir pelo Espírito Santo

 

 

Ao terminar a cinquentena pascal, com a qual desfrutamos tudo o que significa a presença do Ressuscitado, que vive entre nós e permanecerá conosco até sua vinda gloriosa, no fim dos tempos, o Senhor nos concede seu presente mais precioso, o dom do Espírito Santo. E desejamos que o Espírito nos conduza pelas sendas do caminho que nos leva à plenitude de Deus e com Deus, na comunhão com a Santíssima Trindade e entre nós.

Os dons do Espírito Santo são derramados em abundância na Igreja e no coração dos fiéis. São eles a Sabedoria, o Entendimento, o Conselho, a Fortaleza, a Ciência, a Piedade e o temor de Deus. Onde se fazem presentes, estes dons se manifestam nos frutos do Espírito Santo, amor, alegria, paz, paciência, amabilidade, bondade, lealdade, mansidão, domínio próprio (cf. Gl 5,22-23). E para servir ao crescimento da Igreja e do Reino de Deus, surgem os diversos ministérios e serviços, decorrentes da misteriosa e eficaz ação do Espírito Santo, como ensina São Paulo: “A cada um é dada a manifestação do Espírito, em vista do bem de todos. A um é dada pelo Espírito uma palavra de sabedoria; a outro, uma palavra de conhecimento segundo o mesmo Espírito. A outro é dada a fé, pelo mesmo Espírito. A outro são dados dons de cura, pelo mesmo Espírito. A outro, o poder de fazer milagres. A outro, a profecia. A outro, o discernimento dos espíritos. A outro, diversidade de línguas. A outro, o dom de as interpretar.

Todas essas coisas as realiza um e o mesmo Espírito, que distribui a cada um conforme quer” (1 Cor 12,7-11). E o coroamento das convicções de Paulo sobre os ministérios, serviços e dons é o dom do amor- caridade: “Se eu falasse as línguas dos homens e as dos anjos, mas não tivesse amor, eu seria como um bronze que soa ou um címbalo que retine. Se eu tivesse o dom da profecia, se conhecesse todos os mistérios e toda a ciência, se tivesse toda a fé, a ponto de remover montanhas, mas não tivesse amor, eu nada seria” (1 Cor 13,1-2). Diante de tal riqueza espiritual e com os frutos dela decorrentes, desejamos buscar um pequeno roteiro, a fim de que caminhemos seguros em direção à meta da vida no Espírito, que é vocação de todos os cristãos.

Pedimos a ajuda do dom do Conselho, com o qual podemos tornar-nos capazes do discernimento, para se adequarem à vontade de Deus nossos pensamentos, julgamentos e ações, certos de que este é o caminho de realização e felicidade nesta terra e para a eternidade! Os dons do Espírito Santo nos fazem participar de modo divino da vida de Cristo. Aqui, homens e mulheres agem por inspiração divina e os cristãos vão tornando habitual e predominante o exercício de tais dons.

Para que o dom do Conselho, fonte de discernimento, possa atuar em nossa vida, em primeiro lugar, ouvir a Escritura, olhando para ela a partir de seu centro, que é Jesus Cristo. Ler, meditar e rezar com a Palavra de Deus, estabelecer intimidade com a Bíblia. Primeiro, a Palavra proclamada na Liturgia ocupe prioridade em nosso dia a dia. Nos diversos Lecionários da Igreja e nos textos da Liturgia das Horas, em torno de noventa por cento da Bíblia são postos à nossa disposição a cada três anos! Não é pouca coisa! Depois a leitura da Bíblia em Comunidade, especialmente com o método da Leitura Orante (Lectio Divina).
Outro passo é olhar para dentro do coração, onde Deus, pela virtude do Espírito Santo, habita em nós. Treinar o silêncio, a capacidade de entrar no quarto interior de nossa intimidade (cf. Mt 6,6). Profundidade e serenidade, palavras pensadas e bem pesadas, superando os afogadilhos, estes serão os frutos colhidos!

Como cristãos, somos convidados a procurar pessoas inspiradas por Deus, que podem ter palavras de verdadeira sabedoria, a serem acolhidas com muita abertura. Pode ser um diretor espiritual, certamente será o Pároco da Paróquia frequentada, ou outras pessoas amadurecidas na fé! Procurar pessoas inspiradas por Deus, o irmão acolhido, amado, ouvido. As outras pessoas são instrumentos de Deus para nós! Um conselho vindo do outro pode até coincidir com uma palavra que nós mesmos dissemos a alguém, mas se trata aqui da verdadeira sacralidade do irmão ou irmã!

Se Cristo na Escritura encontra Cristo em você, e o mesmo Cristo nas pessoas que são “conselheiras”, emerge a presença de Deus, de forma nova e intensa. É a lei trinitária: em todo encontro, buscar o irmão Jesus Cristo. Buscar a Trindade em cada criatura e confrontar com o que o Espírito Santo diz no íntimo de cada pessoa que ouve. Este é um caminho de discernimento, à nossa disposição, dependendo apenas de nossas escolhas, para não viver atabalhoados diante das decisões e passos a serem dados.

Não é difícil perceber que as propostas que aqui fazemos hão de ser circundadas e fecundadas com o espírito de oração: a oração de coração para coração com a presença de Deus a que nos referimos, mas as outras formas disponíveis para rezar: as orações vocais, como aquelas que aprendemos no recesso de nosso lar e que brotam espontâneas em todas as etapas de nossa vida. Depois, a oração feita em grupos de oração ou em comunidades, e são tantas as modalidades que o Espírito Santo inspira, sabendo que “o Espírito vem em socorro de nossa fraqueza. Pois não sabemos o que pedir nem como pedir; é o próprio Espírito que intercede em nosso favor, com gemidos inefáveis. E aquele que examina os corações sabe qual é a intenção do Espírito, pois é de acordo com Deus que ele intercede em favor dos santos” (Rm 8,26-27).

E nunca poderá faltar a oração “de Eucaristia”, a Santa Missa e as outras orações litúrgicas, pois “com razão se considera a Liturgia como o exercício da função sacerdotal de Cristo. Nela, os sinais sensíveis significam e, cada um à sua maneira, realizam a santificação dos homens; nela, o Corpo Místico de Jesus Cristo – cabeça e membros – presta a Deus o culto público integral. Portanto, qualquer celebração litúrgica é, por ser obra de Cristo sacerdote e do seu Corpo que é a Igreja, ação sagrada por excelência, cuja eficácia, com o mesmo título e no mesmo grau, não é igualada por nenhuma outra ação da Igreja” (Sacrosanctum Concilium 7).

Enfim, sem excluir toda a riqueza que a vida no Espírito Santo tem a revelar abundantemente, um outro passo será olhar em redor, sem que ninguém se julgue proprietário do Espírito Santo, mas identifique, respeite e valorize as inspirações, iniciativas e obras por ele suscitadas, todas confluindo para que tenhamos a unidade da fé, pois “todo aquele que vai crescendo desde a infância até alcançar o estado de homem perfeito, chega àquela maturidade espiritual que somente a inteligência, iluminada pela fé, pode compreender. Então será capaz de receber a glória do Espírito Santo, através de uma vida pura, livre de toda mancha” (cf. Homilias de São Gregório de Nissa sobre o Cântico dos Cânticos – Hom. 15 – Século IV)

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