Doutrina Social da Igreja e Catequese: Não há Justiça sem Caridade (Parte 11)

Introdução
Continuemos nossa reflexão sobre a inseparabilidade entre Caridade e Justiça. Se por um lado a Caridade demanda Justiça, esta por sua vez, perde a sua identidade sem a Caridade. Estamos acostumados ao conceito de justiça vinculado à lei, mas os horizontes da autêntica justiça, não se restringem à dimensão legal. Isso se demonstra, por exemplo, quando encontramos nas sociedades leis injustas, ou seja, que ferem os direitos naturais da pessoa humana.

Outra questão que merece atenção crítica em nossa sociedade é, lamentavelmente, a concepção fragmentada sobre valores e virtudes. Isso significa um modo de pensar e vê-los de modo isolados entre si, sem interação, sem interdependência, vínculos e correlação. Isso é algo gravíssimo do ponto de vista ético. Na verdade, os valores e as virtudes são intercomunicantes; por isso São Paulo afirma: o amor não pratica o mal contra o próximo (cf.Rm 13,10), nada faz de inconveniente e nem se alegra com a injustiça (cf. 1Cor 13,5.6).

1 – A dimensão afetiva da justiça
A justiça sem a caridade se transforma em dureza. A justiça cristã, por ser fruto da Caridade, é manifestação do amor, por isso tem uma dimensão afetiva. De fato, a justiça bíblica não é apenas distributiva, que consiste em dar a cada um o que é seu (cf. Ex 23,6-8; Dt 25,15) ou cumprir os deveres cívicos, mas inclui também a promoção da dignidade humana. Isso significa que para a Doutrina Social da Igreja não basta a pura execução da lei, muitas vezes com a punição dos culpados, mas é necessário a promoção da dignidade da pessoa do infrator.

A justiça não é ausência da maldade (cf. Sl 15,2ss), mas é agir de acordo com a vontade de Deus (cf. Gn 6,9; Ez 14,20; 18,5), respeitar o direito dos fracos e dos pobres (cf. Is 28,6; Am 1,3–2,8;5,7); praticar a justiça é amar ao próximo (cf. Mt 25,37.46; 1Jo 3,10).
Na sociedade em geral, quando se reivindica justiça, significa pedido de punição para um culpado. Esse reducionismo acaba por empobrecer a grandeza da justiça. Aquele que ama um culpado (porque cometeu um delito), além da punição por sua falta, deseja-lhe mesmo que ele mude de vida. Onde há amor, a justiça nunca se reduz à punição de um infrator. “Não sinto nenhum prazer com a morte do injusto. O que eu quero, é que ele mude de comportamento e viva. Convertam-se, convertam-se do seu mau comportamento” (Ez 33,11).

A injustiça no mundo aumenta se não for combatida com a Caridade, com a paciência, a serenidade, com o diálogo. Trata-se de uma exigência de caráter metodológico da vivência e busca da justiça. A caridade não é violenta. Desta forma quem é movido pelo senso de justiça, que se identifica com a verdade (cf. Sl 85,11) deixa-se orientar pelo princípio da não-violência. A justiça não pode ser violenta e nunca a violência pode ser aceita em nome da justiça. Eis aqui o grande exemplo de Mahatma Ghandi. Quem reivindica a justiça com meios violentos, está em contradição. Isso promove as guerras. Para o cristão não basta o querer resolver os problemas sociais, é necessário usar de métodos coerentes com a Caridade.

2 – Justiça a serviço da vida
A justiça autêntica é sempre motivada pela Caridade porque tem como objetivo o reto direcionamento rumo à plenitude da realização do outro, promovendo-lhe a vida integralmente. A justiça desprovida da Caridade se torna cega chegando a atitudes absurdas como a legitimação da tortura, pena de morte, eutanásia e tantas outras intransigentes medidas contrárias à vida e a preservação da integridade da pessoa.
Podemos incluir neste critério tantas formas de exigências de «disciplina» e de controle social de caráter político, religioso, cultural, promotores da cultura da violência. A justiça só é justa se promover a vida, preservando a dignidade da pessoa humana; eis a grande contradição da pena de morte: não é justiça, é vingança do Estado.

A Igreja permanece fiel ao princípio supremo da inseparabilidade entre caridade e justiça e por isso defende a dignidade da pessoa humana e promove a vida integral em todas as fases e situações existenciais. A pessoa humana nunca perde a sua dignidade seja qual for a sua situação.

Em nível social, há outras concepções de justiça, as quais devemos ser críticos, por exemplo: a justiça legalista que segue somente o que diz a lei, mesmo se injusta; a justiça corporativista que segue os interesses de um grupo, sendo a voz da maioria, muitas vezes, justificada como apelo à democracia; mas nem tudo o que é democrático é justo); a justiça judicialista que é aquela que brota do ativismo dos juízes, muitas vezes com decisões injustas sobre temas éticos e religiosos que não lhes compete. Todas essas concepções de justiça são reducionistas e estão submissas à interesses dos seus promotores. Nenhuma dela entra em sintonia com o dinamismo do Amor que prima pela promoção incondicional da dignidade humana.

3 – A superioridade da Caridade
O Salmo 103 (cf. também Sl 144,8-9) nos descrevem o proceder divino em relação ao nosso agir humano. Deus não é orientado pelo critério da justiça como a entendemos. Diz o salmista que Deus não nos trata segundo as nossas faltas, mas é rico em Misericórdia para conosco!
Em toda a Sagrada Escritura é nítida a superioridade da Caridade em relação a justiça legal. Diz Javé em Jeremias: «Amei-te com um Amor eterno e te conservo a misericórdia» (Jr 31,3). Jesus Cristo alerta seus discípulos: «Se a Justiça de vocês não for além daquela dos escribas e fariseus vocês não entrarão no Reino dos Céus…»(Mt 5,20). S. Paulo no seu hino da Caridade, conclui: «Agora permanecem fé, esperança e caridade. A maior delas, porém é a Caridade» (1Cor 13,13). A superioridade da Caridade se funda na sua grandeza de conteúdo: é uma virtude globalizante; é assim que São Paulo no-la descreve:

«A Caridade é paciente, a Caridade é benigna, não é invejosa; a Caridade não é orgulhosa, não se ensoberbece; nada faz de inconveniente, não é interesseira, não se irrita, não guarda rancor; não se alegra com a injustiça mas se compraz com a verdade; a Caridade tudo desculpa, tudo crê, tudo espera, tudo tolera» (1Cor 13,5-8). Continuando na mesma ideia S. Paulo escreve aos Romanos: «Não devam nada a ninguém, a não ser a Caridade com que vocês devem amar uns aos outros. Porque quem ama o próximo, cumpriu a Lei» (Rm 13,1-3).

PARA A REFLEXÃO PESSOAL:
1  – Qual é a diferença entre justiça e punição?
2  – Quais podem ser as consequências da separação entre Amor e Justiça?
3  – O que você tem a dizer sobre a justiça legalista, a justiça corporativista e a justiça judicialista? Porque são inaceitáveis?

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