Equilíbrio em tempos desafiadores

 

Basta acessar a internet para encontrar verdadeira enxurrada de mensagens comerciais antecipando eventuais notícias ou assuntos de interesse pessoal. As redes sociais são utilizadas para todo tipo de pressões sobre as pessoas, desde futilidades, passando pelo desrespeito a figuras quem sabe até hilárias, para alcançar a avalanche de propagandas que nos serão enviadas nos próximos meses. E olhando além dos magníficos aparelhos postos à nossa disposição nos tempos que correm, somos convidados ou provocados a abrir portas e janelas. Há muita coisa boa, mas ficamos estarrecidos com a violência, a desigualdade social, banalização da vida humana, injustiças e abusos gritantes. Dá vontade de fechar de novo portas e janelas, inclusive do coração! E não estamos vacinados contra a mentalidade corrente, pelo que a maldade tem sua linha divisória não entre nós e os outros. Ela passa por dentro de nosso coração e de nossa mente. De repente, nós nos descobrimos torcendo pela maldade, como um espectador de um filme, daqueles muitos à nossa disposição, em que se vê pessoas desejando sangue, morte e destruição. Bebemos a água de nosso tempo, e muitas vezes está contaminada! E com nossa cumplicidade!

Como proceder e encontrar o equilíbrio diante de tudo isso? Podemos começar a reflexão com a preciosidade do Evangelho proclamado pela Igreja no vigésimo segundo Domingo do Tempo Comum (Lc 14,1.7-14). Jesus está presente numa refeição, em casa de gente importante. Os convidados buscam os primeiros lugares, em concorrência para serem notados e valorizados. O Senhor propõe uma desafiadora parábola, sugerindo a busca dos últimos lugares, até para que as pessoas depois se descubram valorizadas. E indica o caminho da gratuidade no serviço ao próximo. No coração do texto do Evangelho, a lição: “Quem se eleva, será humilhado e quem se humilha, será elevado” (Lc 14,11). O caminho da humildade, palavra parecida com húmus, indicando fecundidade, é muito exigente.
“Filho, realiza teus trabalhos com mansidão e serás amado mais do que alguém que dá presentes. Na medida em que fores grande, humilha-te em tudo e assim encontrarás graça diante de Deus. Muitos são altaneiros e ilustres, mas é aos humildes que ele revela seus mistérios. Pois grande é o poder só de Deus, e pelos humildes ele é honrado. Não procures o que é mais alto do que tu nem investigues o que é mais forte; pensa sempre no que Deus te ordenou e não sejas curioso acerca de suas muitas obras, pois não precisas ver com teus olhos o que está escondido. Não te desdobres em perscrutar coisas supérfluas, pois já te foram mostradas muitas coisas que excedem a compreensão humana. A opinião própria já extraviou a muitos, e a falsa aparência enganou seus pensamentos. Sem a pupila, falta-te a luz; sem o conhecimento, faltará a Sabedoria. O coração obstinado findará na desgraça; quem ama o perigo, nele perecerá. O coração que anda por dois caminhos não será bem-sucedido; quem é depravado tropeçará neles. O coração malvado será oprimido de dores; o pecador acrescenta pecados a pecados. Para as chagas dos soberbos não há cura, pois a planta do pecado se enraíza neles e nem é percebida. O coração do sábio captará as palavras dos sábios e o ouvido atento desejará a Sabedoria” (Eclo 3,19-31).

Com a luz da Palavra, podemos identificar alguns passos a serem dados. Começamos com as metas a serem atingidas. Verificar o que nós pretendemos pessoalmente, os objetivos sinceros procurados no correr da vida. Optamos por viver bem, edificar efetivamente o bem viver aberto a todos, ou restringimos nossas escolhas a interesses egoístas e carreiristas? E vale a pena olhar ao nosso redor, identificando vidas absolutamente coerentes, tantas vezes marcadas pela simplicidade e a fundamental virtude da humildade. Averiguemos com seriedade as eventuais parcerias e compromissos a serem assumidos, como, por exemplo, no enfrentamento dos problemas sociais existentes. Há gente boa no processo, mas existe muita trapaça rodando pelo mundo.
Quando nos apresentamos como candidatos a um emprego, pedem nosso currículo, com as experiências tidas e os resultados. Discernimento não faz mal a ninguém. Diante dos desafios sociais podemos fazer o mesmo exame, identificando as parcerias com pessoas coerentes com seus próprios ideais. É claro que, para nós cristãos, são os critérios do Evangelho os pontos de referência. A Doutrina Social da Igreja tem seus princípios básicos e estes podem balizar nosso posicionamento pessoal. O valor da vida humana, da concepção ao seu ocaso natural, o bem comum, a liberdade religiosa, a prática da subsidiariedade, o envolvimento de todos, especialmente os mais fragilizados.

Vale também estabelecer, especialmente em nossas famílias, edificando o bem e a verdade, quando se trata de qualquer meio de comunicação. Na família, vem ainda à tona a prática religiosa, aprendida desde o berço. Vi como atual e edificante a atitude de uma mãe, cuja filha, num áudio, desejou mostrar-me o Pai-Nosso rezado com palavras e emoção impressionantes. E não é de antigamente, mas de sempre, a prática da educação da fé a ser vivida na família. É de São João Bosco a recomendação da prevenção, antecipando as eventuais influências advindas de outras fontes diferentes da vida de fé numa família. Por falar em família, as sementes do bem lançadas um dia vão florescer e frutificar!

A chave para enfrentar os desafios está na capacidade de acreditar num caminho baseado na virtude, cujos resultados podem ser mais demorados, mas serão certamente mais consistentes. A humildade, pérola redescoberta neste fim de semana, conduzirá a iniciativas de escuta, disponibilidade, busca de caminhos de comunhão, alegria de viver.

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