Insegurança alimentar – imperativo ético

Por Pe. Helio Fronczak

Em pleno ano de 2026, a humanidade enfrenta um paradoxo que desafia a nossa consciência moral e a nossa inteligência técnica. Vivemos em uma era de abundância produtiva sem precedentes, onde a tecnologia e a biotecnologia permitem colheitas recordes. No entanto, a fome e a insegurança alimentar continuam a fustigar milhões de irmãos ao redor do globo. Este cenário não é apenas uma falha de logística ou de mercado; é, fundamentalmente, uma crise de solidariedadee um pecado estrutural que a Doutrina Social da Igreja (DSI) nos convoca a combater com urgência e determinação.

A fome não é um fenômeno natural inevitável, mas o resultado de escolhas humanas e sistemas econômicos que priorizam o lucro sobre a dignidade da pessoa. A DSI fundamenta sua ação em dois pilares essenciais para esta questão: o Destino Universal dos Bens e a Opção Preferencial pelos Pobres. O primeiro nos recorda que, embora a propriedade privada seja um direito, ela carrega uma hipoteca social. A terra e seus frutos foram dados por Deus a todos os homens, e não apenas a uma parcela privilegiada. Quando o alimento é tratado meramente como uma commodity especulativa, negamos o direito primário de cada ser humano à subsistência.

A insegurança alimentar hoje manifesta-se de forma insidiosa. Não é apenas a ausência total de comida, mas a incerteza sobre a próxima refeição e a má qualidade nutricional que compromete o desenvolvimento de crianças e a saúde de adultos. As causas são estruturais: a concentração de terras, o desperdício obsceno de um terço de tudo o que é produzido e a indiferença global diante de conflitos que destroem sistemas agrícolas locais. O Papa Francisco foi uma importante voz profética ao denunciar a “cultura do descarte”, onde o alimento que se joga fora é, na verdade, roubado da mesa dos pobres.

A responsabilidade nesta questão é de todos. Não cabe apenas aos governos ou às grandes organizações internacionais a tarefa de erradicar a fome. Na verdade, cada cidadão, cada paróquia e cada comunidade local possui um papel vital. A Igreja Católica, através de seus organismos como a Cáritas e as diversas pastorais sociais, demonstra que a caridade deve ser acompanhada pela justiça. Iniciativas de agricultura familiar, bancos de alimentos e programas de educação nutricional são exemplos de como a DSI se traduz em ação concreta. A partilha não é um ato de “dar o que sobra”, mas de reconhecer no outro um irmão que possui o mesmo direito ao banquete da vida.

Promover sistemas alimentares justos exige uma mudança de mentalidade. Precisamos passar de uma economia da exclusão para uma economia do cuidado. Esta mudança de mentalidade e passagem envolve apoiar produtores locais, combater o desperdício doméstico e pressionar por políticas públicas que garantam o acesso universal à alimentação básica. A segurança alimentar é a base para a paz social; onde há fome, a dignidade é ferida e a esperança é sufocada.Portanto, combater a fome é um imperativo ético que define a qualidade da nossa civilização. Como cristãos e cidadãos, somos chamados a ser guardiões de nossos irmãos. Que o nosso compromisso não se limite a palavras, mas se transforme em gestos de partilha e em lutas por estruturas mais justas. Somente assim poderemos rezar, com verdade e coerência, o “Pai Nosso” ensinado por Jesus Cristo, onde Ele nos ensina a pedir o “pão nosso de cada dia” que deve ser, de fato, para todas as pessoas de nosso planeta.

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