Imagem de Jesus Cristo e os Apóstolos em um fundo de ouro na Basílica de São Paulo Fora dos Muros, Roma (Itália)
Imagem de Jesus Cristo e os Apóstolos em um fundo de ouro na Basílica de São Paulo Fora dos Muros, Roma (Itália)

Monsenhor Ronaldo Menezes – Vice-Presidente da Fundação Nazaré de Comunicação

Em recente conversa com alguns amigos, um deles, sorrindo, como numa provocação, me perguntou: “Acreditas que Jesus existiu realmente?” Esta é uma indagação bastante antiga. Respondi, sem titubear, que não há nenhuma razão histórica para duvidar da existência de Jesus Cristo. Nenhum historiador sério nega que Jesus é um personagem da história. A partir desta conversa fluida e agradável, pensei, então, em escrever neste espaço alguns artigos sobre a pessoa de Jesus, começando por apresentar algumas fontes históricas, além das canônicas, isto é, os escritos do Novo Testamento. As fontes extrabíblicas sobre Jesus não são abundantes, mas em nada desprezíveis. Qualquer livro introdutório à Cristologia traz uma boa e acessível bibliografia.

Começo pelas fontes extrabíblicas, sem pretender ser excessivo nas informações; elas não são necessárias para nossa fé. Vou recorrer a dois historiadores romanos: Tácito e Suetônio, e a um político de nome Plínio, o jovem, que foi governador de uma província romana na Ásia no tempo de Trajano, na Bitínia.

Tácito (56-117 d.C.) escreveu uma obra chamada “Anais”, sobre a história de Roma, abrangendo os anos 14 depois de Cristo a 68; ao falar do período de Nero, diz que este imperador foi muito perverso com os cristãos, os quais acusou de terem incendiado Roma; além de falar do massacre de cristãos em Roma, menciona Jesus Cristo e Pôncio Pilatos. O contexto é o incêndio de Roma, no ano 64; o povo culpa Nero, Nero incrimina os cristãos. O texto afirma claramente: os cristãos têm origem em Jesus Cristo, cuja atividade pública foi na Palestina; Jesus morreu executado no tempo do imperador Tibério (14-37 d.C.), quando governava a Judeia Pôncio Pilatos (26-36 d.C.); depois da morte de Jesus, os cristãos se espalham, chegando a Roma. Abaixo o relato de Tácito:

“Para se livrar dos rumores, Nero criou bodes expiatórios e realizou as mais refinadas torturas em uma classe odiada por suas abominações: os cristãos (como eles eram popularmente chamados). Cristo, de onde o nome teve origem, sofreu a penalidade máxima durante o reinado de Tibério, pelas mãos de um dos nossos procuradores, Pôncio Pilatos. Pouco após, uma perversa superstição voltou à tona e não somente na Judéia, onde teve origem, como até em Roma, onde as coisas horrendas e vergonhosas de todas as partes do mundo encontram seu centro e se tornam populares. Em seguida, foram presos aqueles que se declararam culpados, então, com as informações deles extraídas, uma imensa multidão foi condenada, não somente pelo incêndio, mas pelo seu ódio contra a humanidade. Ridicularizações de todos os tipos foram adicionadas às suas mortes. Os cristãos eram cobertos com peles de animais, rasgados por cães e deixados a apodrecer; crucificados; condenados às chamas e queimados para que servissem de iluminação noturna quando a luz do dia já tivesse se extinguido” (15,44).

O Padre da Igreja, Tertuliano, na sua obra Apologético 37,8 faz referência ao relato de Tácito, dizendo em defesa dos cristãos que foram chamados “inimigos do gênero humano” (“ódio contra a humanidade”). A seguir, o texto de Tertuliano:

“Agora, com efeito, vossos inimigos são menos numerosos que os cidadãos, por causa da multidão dos cristãos; pois, tendo os cristãos, vós tendes quase todos os cidadãos de quase todas as cidades. Mas preferistes lhes dar o nome de “inimigos do gênero humano” a, antes, o de inimigos do erro humano”.

O político ao qual me referi acima é Plínio, o jovem, governador da Bitínia, uma província romana. Plínio escreveu ao imperador Trajano, em 110 ou 111, perguntando como proceder nas denúncias contra os cristãos naquela região do império. As denúncias consistiam em pertencerem a uma religião proibida no império, terem comportamento contrário à lei e perturbar a ordem pública. Para a liturgia, este é um texto muito importante, por descrever o proceder dos cristãos que se reuniam num dia fixo, antes do amanhecer, para cantar e louvar a Cristo, e Plínio diz: “como se fosse um deus”. A resposta do imperador está refletida na informação que nos dá desse período o historiador da Igreja, Eusébio de Cesareia, em sua majestosa obra “História Eclesiástica” (4,9,1-3), de fácil acesso em nossas livrarias.

O outro historiador romano, Suetônio (69-122 d.C.), escreveu a obra “A vida dos Doze Césares”, onde confirma a perseguição de Nero contra os cristãos, ao relatar as leis editadas por Nero. Vou grifar a parte relacionada aos cristãos:

“Durante o seu reinado, muitos abusos foram severamente punidos e reprimidos, e não menos novas leis foram promulgadas: um limite foi estabelecido para as despesas; os banquetes públicos foram limitados à distribuição de alimentos; a venda de qualquer tipo de iguaria cozida nas tabernas foi proibida, com exceção de leguminosas e vegetais, enquanto antes todo tipo de iguaria era exposta à venda. Os cristãos foram punidos, uma classe de homens dada a uma superstição nova e perniciosa. Ele pôs fim às diversões dos cocheiros, que, valendo-se de uma impunidade de longa data, reivindicavam o direito de vagar livremente e se divertir enganando e roubando o povo. Os atores de pantomima e seus partidários foram banidos da cidade”.

 

Suetônio ainda fornece uma informação importante sobre a presença dos cristãos em Roma, no tempo do imperador Cláudio. No texto que conhecemos, ele afirma que Cláudio expulsou de Roma judeus, por provocarem distúrbios “por instigação de Chrestos”. Embora se discuta o termo “Chrestos”, não há dúvida de que o historiador se referia a Jesus Cristo e a seus seguidores, os cristãos. A expulsão dos cristãos de Roma é citada nos Atos dos Apóstolos 18,1-2, que diz o seguinte:

“Depois disso, Paulo afastou-se de Atenas e foi para Corinto. Lá encontrou um judeu chamado Áquila, natural do Ponto, recém-chegado da Itália com Priscila, sua mulher, em vista de Cláudio ter decretado que todos os judeus se afastassem de Roma”. Era o ano 41.

Se você estiver interessado em outras fontes, se desejar mais detalhes históricos ou outras informações, pode pesquisar sobre Luciano de Samósata (115-200) e sua obra “A passagem do Peregrino”; Mara Bar Sarapião, que escreveu uma carta ao seu filho, e Júlio Africano. São textos importantes, para quem tem a curiosidade de conhecer um pouco mais sobre nossas origens. No próximo artigo, falarei de Flávio Josefo.

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