O batismo de Jesus e as tentações

Obra‘O Batismode Cristo’ – Pintura de Pietro Perugino – Capela Sistina (Vaticano)
Obra‘O Batismode Cristo’ – Pintura de Pietro Perugino – Capela Sistina (Vaticano)

Monsenhor Ronaldo Menezes – Vice-Presidente da Fundação Nazaré de Comunicação

Os fiéis de nossas paróquias nem sempre conhecem a pessoa de Jesus Cristo, por não terem, certamente, trilhado esse caminho de estudo bíblico específico. Penso que a catequese fundamental não ajuda muito, por encaminhar-se mais pelos aspectos doutrinários em prejuízo dos elementos bíblicos. Por isso, ainda sobre Jesus Cristo me estendo, partindo, logicamente, dos Santos Evangelhos, e me encaminhando por alguns aspectos de sua vida e do seu ministério. No último artigo, fiz como que uma resenha de sua vida até sua subida para Jerusalém, a cidade do seu destino. Sigo os Evangelhos, começando pelo Batismo e as tentações.

Depois que voltou com sua família do Egito, para fugir da perseguição de Herodes, Jesus viveu em Nazaré, na Galileia, até a idade de 30 anos (Lc 3,21-23). João Batista começa a pregar e a batizar no rio Jordão. Diz-nos São Mateus: “Nesse tempo, Jesus veio da Galileia ao Jordão até João, a fim de ser batizado por ele”. Leia os textos completos (Mt 3,13-17; Mc 1,9-11; Lc 3,21-22). A data do Batismo de Jesus, não sabemos. O ano, dizem, seria o 27 ou 28. O lugar não é com certeza o que os turistas visitam, normalmente, um balneário todo equipado para recebê-los, com vendas de túnicas brancas, entrada na água limpa, alguns se submetendo a um ritual de “batismo” nas águas. Não foi aí! A indicação confiável, e hoje aceita, pacificamente, é “Bethabara, do outro lado do Jordão, onde João batizava” (Jo 1,28; cf. 10,40), próximo a Jericó. Há alguns anos, esta parte do Jordão foi aberta à visitação e, atualmente, uma boa estrutura foi construída para dar amparo aos peregrinos. “Do outro lado do Jordão”, que fica em território da atual Jordânia, quem está do lado de cá não tem acesso; precisaria atravessar o rio Jordão a nado. A água é barrenta, mas ainda assim, alguns se arriscam a entrar nela e se banhar. Os Papas João Paulo II, Bento 16 e Francisco estiveram no local do Batismo de Jesus. Em 2015, a UNESCO inseriu esse lugar como patrimônio mundial, conhecido com o nome “Al-Maghtas”.

Para nós, o importante é lembrar que foi no rio Jordão que aconteceu algo maravilhoso, a primeira grande teofania da vida de Jesus, descrita pelos Evangelhos com imagens vigorosas, o céu se abrindo e descendo sobre ele o Espírito Santo em forma corpórea, a voz do Pai celestial ouvida por todos, sem reserva nem rodeios: “Este é meu Filho amado, em quem me comprazo”.

Esta teofania ou manifestação de Deus é muito significativa. Primeiro, porque Deus Pai faz saber que aquele que é batizado por João nas águas do Jordão é o seu único Filho. Depois, porque este Filho é amadíssimo. Outras vezes iremos ver esta palavra “amado” nos Evangelhos, sempre referidas a Jesus. Por exemplo, além desta, no Batismo, também no evento da Transfiguração no monte Tabor.

Após o Batismo, São Lucas apresenta a genealogia de Jesus, de um modo bem diferente da genealogia de São Mateus. Alguns detalhes deste texto de São Lucas: o evangelista diz que Jesus, ao iniciar o seu ministério, “tinha mais ou menos trinta anos de idade”; afirma, novamente, a concepção e o nascimento virginal, dizendo que Jesus “era, conforme se supunha, filho de José”; José era pai legal, adotivo, de Jesus. A linhagem de Jesus vai de José até Adão, o primeiro homem. São Mateus começa a genealogia de Jesus com Abraão e sua linhagem passa por Salomão. Em São Lucas, a linhagem de Jesus passa por Natã, “filho de Davi” (Lc 3,31). Em seguida a esta genealogia, São Lucas relata as tentações como para mostrar que o Filho de Deus tem sucesso sobre Satanás, ao contrário do primeiro homem, Adão, que sucumbiu à tentação.

Depois do Batismo no rio Jordão, Jesus é levado pelo Espírito ao deserto da Judeia, onde permaneceu durante quarenta dias, e foi tentado por Satanás. Os três Evangelhos Sinóticos narram este evento (Mt 4,1-11; Mc 1,12-13; Lc 4,1-13). Como se vê, o relato de São Marcos é o mais curto, relatando o essencial: a condução do Espírito, a duração das tentações de 40 dias e a presença de animais selvagens. São Mateus e São Lucas oferecem mais detalhes, embora não na mesma sequência. Em São Mateus, o Diabo manda Jesus transformar “pedras em pães”, subir ao pináculo do templo, atirar-se para baixo, prostrar diante dele e o adorar como se fosse um deus. Não resistindo e confrontado pela autêntica palavra de Deus, o Diabo deixou Jesus. Todas as tentações põem à prova a fidelidade de Jesus, que reafirma, entretanto, que a obediência a Deus é mais importante que tudo, até mesmo que a comida, como lemos em Deuteronômio 8,3 (“Ele te humilhou, fez com que sentisses fome e te alimentou com o maná que nem tu nem teus pais conheciam, para te mostrar que o homem não vive apenas de pão, mas que o homem vive de tudo aquilo que procede da boca do Senhor”). Testar a Deus é o mesmo que duvidar dele, como adorar o Diabo é renegar a Deus como fonte única de todas as coisas. O Diabo fracassa com Jesus, deixa-o e vai-se embora. Mas sua perseguição continua no mundo, buscando atrair os filhos de Deus.

Os peregrinos na Terra Santa passam por Jericó em direção a Jerusalém. Nessa cidade, são levados a um lugar privilegiado para ver o monte das tentações. Uma recordação não apenas das tentações sofridas por Nosso Senhor, mas das sofridas pela Igreja e por todos os membros do Corpo de Cristo nos dias atuais.

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