No coração do mês vocacional está a figura da Virgem Maria. Chamada por Deus ainda em sua adolescência, dada em casamento a José, num relacionamento todo original, discípula de seu próprio filho, entregue aos cuidados de João, em cuja pessoa abraçou com zelo de Mãe toda a humanidade, de pé, aos pés da Cruz e na desolação, presente na Igreja nascente, em oração, com toda certeza participante da Eucaristia com as primeiras Comunidades cristãs, Mãe que chegou na nossa frente e acompanha a Igreja em sua peregrinação da fé até o final dos tempos. Em Maria, a vocação da criança, adolescente ou jovem, a entrega virginal, a vocação para a família, a maternidade, o zelo pela educação da prole, a coragem nos sofrimentos, a mãe viúva! Personalidade completa, realização de tudo o que a humanidade possa sonhar!

Quais são os caminhos percorridos por Deus, na ação do Espírito Santo, para o processo vocacional? Começamos com a certeza de que existe um olhar pessoal específico e único da parte de Deus para cada pessoa humana. Nenhuma pessoa é um acaso, menos ainda peça descartável ou alguém simplesmente jogado no mundo, devendo edificar a vida apenas com seus próprios meios. Misteriosa e verdadeiramente, nosso nome foi por Deus pronunciado e nossa plena realização só acontecerá, desde agora, respondendo ao seu chamado para enfim repousar na plena comunhão com a Santíssima Trindade, os Anjos e os Santos, no Paraíso, na força e na graça que recebemos no Batismo.

Com toda certeza, a Virgem Maria foi educada na fé por seus pais Joaquim e Ana. No conhecimento das Escrituras e na oração dos salmos, terá aprendido a fazer silêncio e acolher a voz misteriosa de Deus, quem sabe, parecida como jovem Samuel, para dizer “Fala, Senhor, que o teu servo escuta”! Maria é uma pessoa realizada, porque ouviu a Palavra de Deus e a pôs em prática (Cf. Lc 11,27-28). Com ela aprendemos que o caminho do discernimento vocacional passa pelo silêncio e a oração, com a pergunta sincera a Deus sobre o que ele pensa, em seu amor, capaz de preferir a cada um de nós, sem desprezar os outros. Dentro do coração e da mente, bem lá dentro, vêm à tona as capacidades, os sonhos, a atração por um estado e um estilo de vida.

Nasça então um segundo passo, a descoberta de que qualquer vocação é serviço a ser assumido, disponibilidade e prontidão para dar a vida. Quem for chamado ao matrimônio, se é sincera a sua resposta, buscará descobrir a quem deve dar a vida, e nunca tentar “adquirir” alguém para o próprio serviço, em todos os sentidos. Sua vocação é encontrar em quem “perder” a própria vida e gerar vida, contribuindo com a criação de Deus, e assim ser feliz! Se uma jovem ou um jovem descobre como própria estrada a consagração na virgindade, no celibato, na castidade, pobreza e obediência, à vida religiosa ou novas formas de dedicação a Deus, terá encontrado seu modo próprio de dar tudo, apostando toda a sua existência na Providência de Deus. O menino, adolescente ou jovem que identificou o sacerdócio como sua vocação pessoal, terá descoberto o caminho do serviço na Palavra, nos Sacramento e no Pastoreio, perdendo tudo para dizer “já não sou eu que vivo, mas Cristo que vive em mim. Minha vida atual na carne, eu a vivo na fé, crendo no Filho de Deus, que me amou e se entregou por mim” (Gl 2,20), e passará a vida toda agindo na pessoa de Cristo, sendo nada e tudo, por ele! Por sua parte, uma vocação que cresce por todos os lados, aquela do Diaconato Permanente, com a dupla sacramentalidade do Matrimônio e da Ordem, põe justamente em relevo o serviço. E a vocação laical, daquela pessoa que se sente chamada a ser sal, luz e fermento no meio do mundo? Também ela, pela força do Batismo e da dignidade recebida no Sacramento, descobrirá o caminho do serviço à verdade e à dignidade das pessoas, será presença qualificada na sociedade. Na Comunidade cristã, quantas são as pessoas que descobrem a vocação aos diversos ministérios ou serviços, como a Catequese! Para todas as pessoas vale dizer de novo e com simplicidade que vocação é descobrir o caminho do amor e do serviço, como o Senhor! De fato, “quem quiser ser o maior entre vós seja aquele que vos serve, e quem quiser ser o primeiro entre vós, seja vosso escravo. Pois o Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a vida em resgate por muitos” (Mt 20,27-28).

Terceiro passo! O terreno privilegiado para o cultivo das diversas vocações eclesiais é a Comunidade cristã. Faz-se necessário cultivar nas diversas Comunidades, Áreas Missionárias e Paróquias uma cultura vocacional. As vocações existem em todo lugar e é dever de todos, começando pelos ministros ordenados, passando pelos pais e mães de família e por todo o corpo eclesial a responsabilidade por acompanhá-las. Uma Comunidade viva, que ouve a Palavra e a vive, que reza, celebra bem a Liturgia e cultiva a caridade e o relacionamento fraterno, faz desabrocharem as vocações. E permitimo-nos acrescentar, ela será também sementeira daquela que corresponde à primeira bênção, vinda das origens, a vocação matrimonial e à vida de família. Uma Pastoral Vocacional para o Matrimônio se faz necessária e urgente!

Sem pretender esgotar o tema do acompanhamento das vocações, temos que acrescentar, como quarta etapa, o apoio recíproco a todas elas. Cabe a todos nós, sem exceção, ao identificar sinais de qualquer uma das vocações aqui elencadas ou que Deus suscita em nosso tempo, precisam da compreensão e o estímulo! Ajudemo-nos mutuamente a valorizar o fato de que Deus não fica repousando placidamente nas alturas eternais, mas tem a ver conosco, entra em nosso mundo, provoca-nos positivamente, sem violentar a nossa liberdade!

Enfim, é necessário voltar ao modelo de todas as vocações, a Virgem Maria, na Solenidade de sua Assunção aos Céus. Temos uma Mãe no Céu, que passa na nossa frente e cobre com seu manto materno todas as realidades humanas e eclesiais. Nossa Senhora, Mãe das vocações, Rainha dos Apóstolos, Rainha das Virgens, Rainha das Famílias, Mãe da Igreja que caminha neste terra rumo à eternidade, rogue por nós!

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