“Naqueles dias, em Gabaon o Senhor apareceu a Salomão, em sonho, durante a noite, e lhe disse: “Pede o que desejas, e eu te darei”. E Salomão disse: “Senhor, meu Deus, tu fizeste reinar o teu servo em lugar de Davi, meu pai. Mas eu não passo de um adolescente, que não sabe ainda como governar. Além disso, teu servo está no meio do teu povo eleito, povo tão numeroso que não se pode contar ou calcular. Dá, pois, ao teu servo, um coração compreensivo, capaz de governar o teu povo e de discernir entre o bem e o mal. Do contrário, quem poderá governar este teu povo tão numeroso?” (Cf. 1 Rs 3.5.7-12) A Liturgia da Igreja oferece a experiência de Salomão em oração diante do Senhor, introduzindo-nos na compreensão do Evangelho proclamado neste último domingo de julho, quando tantas pessoas já se preparam para retomar o ritmo de luta pela vida. Somos assim ajudados a buscar os bens que não passam!

O imaginário popular, desde a nossa infância, é povoado por aventuras fabulosas, nas quais os olhos brilham e bate ansioso o coração ao se identificarem os leitores ou espectadores com os personagens nelas retratados. Os mapas de tesouros, os piratas que os buscam, a alegria do encontro daquele baú cheio de joias ou moedas de ouro, tudo isso, em algum momento da vida, já passou pela nossa cabecinha de crianças em idade ou crianças crescidas. Mesmo no dia a dia de pessoas adultas, o sonho de ganhar um grande prêmio nas inúmeras loterias e sorteios existentes continua a alimentar o desejo de algo de muito grande, desproporcional às despesas feitas. E, mais ainda, o desejo de parar de trabalhar, para apenas gozar a vida! E se acrescenta ainda, não depender mais de ninguém! Grande e ilusória vantagem, já que fomos feitos para compartilhar e não para acumular!

Nossa vida comporta escolhas que determinam o rumo da existência. É muito forte e exigente a palavra de Jesus no Sermão da Montanha: “Não ajunteis tesouros aqui na terra, onde a traça e a ferrugem destroem e os ladrões assaltam e roubam. Ao contrário, ajuntai para vós tesouros no céu, onde a traça e a ferrugem não destroem, nem os ladrões assaltam e roubam. Pois onde estiver o teu tesouro, aí estará também o teu coração” (Mt 6,19-21). Escolher um tesouro significa estabelecer objetivos claros na vida. Quem sabe onde quer chegar corre em direção à meta, mesmo com as múltiplas dificuldades que possa encontrar. Buscar valores efêmeros e passageiros fatalmente leva à frustração. Não é que Deus fique lá do alto a programar surpresas pelas estradas da vida. Nós mesmos é que cavamos os buracos em que muitas vezes podemos cair, o que exige uma corajosa revisão dos rumos a serem tomados.

O encontro com Jesus Cristo é o maior tesouro que pode existir. “O Reino dos Céus é como um tesouro escondido num campo. Alguém o encontra, deixa-o lá bem escondido e, cheio de alegria, vai vender todos os seus bens e compra aquele campo” (Mt 13,44). Por ele, vale perder o resto, que se torna mesmo um resto! Encontrar! E procurar! Procurar a verdadeira pérola preciosa que valha a pena é fundamental. E aqui entram as pessoas positivamente inquietas, aquelas que têm perguntas para as quais só Deus tem a resposta, gente que não vive apenas para comer, dormir, trabalhar ou correr de um lado para outro. São aquelas que apontam para o Céu, têm gosto de eternidade em suas buscas! “O Reino dos Céus é como um negociante que procura pérolas preciosas. Ao encontrar uma de grande valor, ele vai, vende todos os bens e compra aquela pérola!” (Mt 13,45-46). Quem procura acha! Viver a fé deve ser, para todos nós, uma maravilhosa aventura. Nunca pode agradar-nos uma concepção da vida cristã como limitação das potencialidades humanas. Deus não bloqueia quem quer que seja, mas faz-nos alcançar as alturas: “O que Deus preparou para os que o amam é algo que os olhos jamais viram, nem os ouvidos ouviram, nem coração algum jamais pressentiu” (1 Cor 2,9).

De fato, existe uma doença grave, presente na humanidade, e seu vírus arrisca de contagiar-nos. Estamos doentes pelo fato de nos termos acomodado, pelo individualismo que construímos, a incapacidade de olhar ao nosso redor. A cura está à nossa disposição, e vem do Evangelho! Podem cair casas, empregos, ideais, países, pode vir a guerra ou a carestia, só Deus escolhido como ideal da vida, como o grande tesouro, não passa! Escolhidos objetivos consistentes, mãos à obra, sem perder tempo, começar a praticar o bem, sair de nós mesmos, ir ao encontro dos outros. Não desperdiçar qualquer oportunidade para deixar no tempo que vivemos a marca digital de nossa presença construtiva, fruto da fé que professamos. Ninguém passe em vão ao nosso lado!

Não é difícil perceber que a atual situação do mundo faz caírem muitos ideais e projetos. Um emprego sonhado foi pelos ares, ou quem sabe uma viagem, ou o projeto de um empreendimento. De repente, a humanidade não sabe o que fazer com as casas pequenas ou grandes que edificou! Garantidamente, por parentesco, amizade ou proximidade, todos nós fomos tocados, direta ou indiretamente pelo tempo que vivemos, com as crises sociais e políticas que marcam o mundo e nosso país, em nossas guerras externas ou externas. Mas é hora de empreender as batalhas diárias com toda disposição, coragem e ousadia, pois “sabemos que tudo contribui para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles que são chamados para a salvação, conforme o projeto de Deus” (Rm 8,28)
Olhando ao nosso redor, encontraremos outras pessoas que descobriram ideais também consistentes. É hora de conhecê-las e valorizá-las, compartilhando mutuamente o bem que pode ser feito. As boas experiência podem e devem contribuir para o crescimento dos outros. Vejamos: “Rafael chamou ambos à parte, e disse: ‘Bendizei a Deus e celebrai-o diante de todos os viventes, por todos os benefícios que ele vos fez, para que bendigais e canteis ao seu Nome. Publicai as obras de Deus com a honra que merecem, e não demoreis em celebrá-lo! É bom manter escondido o segredo do rei, mas é honroso revelar e celebrar as obras de Deus. Fazei o bem, e o mal não vos atingirá. É boa a oração com o jejum, e a esmola com a justiça. É melhor pouco com justiça, do que muito com iniquidade. Mais vale dar esmola do que acumular tesouros de ouro. A esmola liberta da morte e purifica de todo pecado. Os que praticam esmola terão longa vida; os que cometem pecado e iniquidade, são inimigos de si mesmos’” (Tb 12,6-10). Tempo de procurar e encontrar, tempo de escolhas consistentes, de acordo com o plano de Deus!

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