O Plano Arquidiocesano de Pastoral de nossa Igreja de Belém abriu vários horizontes para nossa ação evangelizadora, e um deles é a nossa realidade amazônica (Cf. Apresentação do Plano Arquidiocesano de Pastoral). Num encontro da Igreja na Amazônia, apareceu com clareza o propósito de assumir o dinamismo do discipulado missionário, como “Igreja em saída”, como insiste tantas vezes o Papa Francisco. É nosso desejo deixar em evidência o modo de entender a fé como um processo e a evangelização como uma grande missão, na certeza de que há muito por fazer se quisermos ser fiéis ao Senhor que nos enviou para evangelizar a todos. Entendemos a missionariedade como fundamento do ser da Igreja. No Sínodo para a Amazônia, a Igreja em saída missionária apresentou-se como samaritana, misericordiosa e solidária, que serve e acompanha os povos amazônicos e se constitui uma Igreja com rosto desses mesmos povos. Trata-se, portanto, da vida das nossas Igrejas, que vai se moldando em caminhos de inculturação da espiritualidade, da liturgia, do ministério e da vida comunitária (Cf. Querida Amazônia, 66-103).

Desejamos caminhar, olhando para o alto – “Se ressuscitastes com Cristo, buscai as coisas do alto, onde Cristo está entronizado à direita de Deus; cuidai das coisas do alto, não do que é da terra. Pois morrestes, e a vossa vida está escondida com Cristo em Deus” (Cl 3,1-3) – e para frente – “Não que eu já tenha recebido tudo isso, ou já me tenha tornado perfeito. Mas continuo correndo para alcançá-lo, visto que eu mesmo fui alcançado por Cristo Jesus.

Irmãos, eu não julgo já tê-lo alcançado. Uma coisa, porém, faço: esquecendo o que fica para trás, lanço-me para o que está à frente. Lanço-me em direção à meta, para conquistar o prêmio que, do alto, Deus me chama a receber, no Cristo Jesus (Fl 3,12-14). Não temos o direito de esmorecer no negativismo e no pessimismo tentador. Afinal de contas, somos discípulos de Jesus, aquele que sempre se apresenta com força e ao mesmo tempo com ternura, em todos épocas e circunstâncias, provocando as mesmas reações acontecidas nas Sinagoga de Cafarnaum (Cf. Mc 1,21-28): “Todos ficaram admirados e perguntavam uns aos outros: ‘Que é isto? Um ensinamento novo, e com autoridade: ele dá ordens até aos espíritos impuros, e eles lhe obedecem!’ E sua fama se espalhou rapidamente por toda a região da Galileia”. Se lhe formos fiéis, sempre será novo o seu ensinamento e a força para banir a presença do poder do mal vai manifestar-se continuamente.

Queremos ser Igreja servidora, profética e defensora da vida. A Igreja, discípula do Espírito de Deus, se torna parecida com Jesus Cristo em sua vida, palavra e ação. Assume a misericórdia e a compaixão do Cristo, em relação a todo ser vivo e à vida ameaçada. A Igreja se faz carne e arma sua tenda na Amazônia. A luta pelo direito dos mais pobres, dos povos nativos, dos últimos (Cf. Querida Amazônia, 7), torna-se um imperativo para a Igreja que não pode estar menos comprometida, chamada a escutar os clamores do povo e exercer com transparência seu papel profético (Cf. Querida Amazônia, 19).

A fecundidade e o engajamento profético da Igreja na Amazônia fazem dela uma Igreja obediente até a morte, e morte de cruz. A referência aos santos, beatos e mártires é, ao mesmo tempo, um louvor orante e uma denúncia aos níveis de violência a que chegam os enfrentamentos nos territórios amazônicos. Quanto mais irmãos e irmãs tombam por causa do Reino, mais a Igreja tem a consciência de estar sendo fiel à missão recebida e vivenciando com radicalidade seu processo de encarnação na realidade e evangelização libertadora, com o compromisso de todos, sem desvalorizar desde os maiores até os pequenos e heroicos sacrifícios de tantas pessoas que se dedicam à Igreja e ao próximo, muitas vezes escondidas e anônimas, mas somente aos olhos humanos, porque bem conhecidas por Deus.

Há poucos dias realizamos um grande encontro sobre a Campanha da Fraternidade de 2024, com o Tema “Fraternidade e amizade social” e o lema “Vós sois todos irmãos e irmãs” (Mt 23,8). Este tema nos abre para iniciativas em vista da superação de preconceitos e barreiras entre as pessoas, buscando criar laços baseados nas Sementes do Verbo de Deus, as sementes do bem, que o Espírito Santo planta nos corações de todas as pessoas. Provoca-nos também a testemunhar o diálogo com todos os segmentos da sociedade, começando pelas pessoas que têm uma fé religiosa, mesmo que a professem de modo diferente de nós. Aqui, o desafio está de modo especial nas mãos dos leigos e leigas, presentes nos diversos campos da atividade social, chamados a tomar iniciativas corajosas, sempre em comunhão e nunca num propósito de confronto. Identidade e diálogo não são conceitos que se opõem ou se excluem, antes, se exigem.

Há um desafio novo e antigo, aquele do cuidado com a criação, que vai tocar de perto nossa consciência e nossas ações, pois a cidade de Belém vai sediar, em novembro de 2025, a Trigésima Conferência das Partes da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre a mudança do clima (COP-30). Para nossa Igreja, é um privilégio viver a missão nessa região repleta de belezas, onde a aliança do Criador com o universo aparece tão fortemente, seja na tradição bíblica, seja nas culturas indígenas. Ao mesmo tempo, nos desafia a devastação e a exploração desenfreada que desumaniza e destrói o equilíbrio da própria natureza. O Sínodo para a Amazônia, cujo primeiro apelo ao Papa nasceu num encontro da Amazônia Legal realizado em Belém, apresentou esta compreensão na exigência de uma conversão ecológica. Grande é nossa responsabilidade e a exigência de participação e envolvimento, cujos passos já estão sendo dados, em comunhão com a CNBB. Consequência prática será o empenho de comunhão com o Regional Norte II e toda a Amazônia. Em nosso caso, o desafio da Pastoral Urbana pode ser a grande contribuição, ao lado dos grandes temas ambientais que serão tratados.

No início do novo ano pastoral, quando as Regiões Episcopais, Paróquias, Comunidades, Pastorais, Movimentos Eclesiais, Vida Religiosa, Comunidades de Vida e Aliança, todos começam a colocar mãos à obra na tarefa evangelizadora, é hora de coragem apostólica, criatividade e disponibilidade, a fim de encontrarmos o caminho adequado para levar a todos a Boa Nova, olhando para frente e para o alto, conduzidos pela força do Espírito Santo, Alma da Igreja.

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