Quaresma, Penitência, Oração e Fraternidade

“Eis o tempo de conversão, eis o dia da salvação! Ao Pai voltemos, juntos andemos, eis o tempo de conversão! Os caminhos do Senhor são verdade, são amor, dirigi os passos meus, em vós espero, ó Senhor! Ele guia ao bom caminho quem errou e quer voltar, ele é bom, fiel e justo, ele busca e vem salvar! Viverei com o Senhor, ele é o meu sustento, eu confio, mesmo quando minha dor não mais aguento. Tem valor aos olhos seus meu sofrer e meu morrer, libertai o vosso servo e fazei-o reviver!” Começa na Igreja um tempo forte, com os olhos dos corações voltados para a Páscoa, Mistério de Morte e Ressurreição de Nosso Senhor Jesus Cristo. Trata-se de um período de grande riqueza na proclamação da Palavra de Deus e na Vida Sacramental, especialmente a Confissão e a Celebração Eucarística. Ressoa por toda a terra o convite à conversão, mudança de rumos na existência pessoal de cada cristão e convite a fermentar a sociedade com os valores do Evangelho, mormente amor ao próximo, o amor recíproco e a fraternidade. Chegue a todos os cristãos o apelo a não desperdiçarmos as graças especiais concedidas por Deus neste período.

[Abrimos os dias intensos da Quaresma na Quarta-feira de Cinzas, com os olhos voltados para a Páscoa. A Igreja nos propõe reconhecer diante de Deus que sem ele não somos nada! Uma palavra forte não pode ser esquecida: “Tu és pó e ao pó hás de voltar” (Gn 3,19). E as cinzas são colocadas sobre nossa cabeça! Entretanto, a outra palavra que acompanha este Rito o eleva ao novo nascimento, para superar todo negativismo que pode vir, como verdadeira tentação: “Convertei-vos e crede no Evangelho!” “Completou-se o tempo, e o Reino de Deus está próximo.” (Cf. Mc 1,12-15). Assim, ao sair da Santa Missa com as marcas da penitência, já seremos anunciadores da vida nova, pois o Senhor nos resgata e eleva continuamente!

Como Jesus passou quarenta dias no deserto, desejamos programar nossa quarentena, para chegar purificados à Páscoa. Afinal de contas, sabemos que quem fica parado já está regredindo, e o apelo de São Paulo pode ser um caminho para este tempo: “É assim que eu conheço Cristo, a força da sua Ressurreição e a comunhão com os seus sofrimentos, tornando-me semelhante a ele na sua morte, para ver se chego até a Ressurreição dentre os mortos. Não que eu já tenha recebido tudo isso, ou já me tenha tornado perfeito. Mas continuo correndo para alcançá-lo, visto que eu mesmo fui alcançado por Cristo Jesus. Irmãos, eu não julgo já tê-lo alcançado. Uma coisa, porém, faço: esquecendo o que fica para trás, lanço-me para o que está à frente. Lanço-me em direção à meta, para conquistar o prêmio que, do alto, Deus me chama a receber, no Cristo Jesus” (Fp 3,110-14).

Durante a Quaresma, no caminho da conversão sempre necessária, somos convidados a escutar com maior frequência e intensidade a Palavra de Deus, inclusive usando o caminho da Leitura Orante – “Lectio Divina” – com os textos oferecidos na Liturgia Diária. Nós nos dedicaremos à oração, valorizando em primeiro lugar a Missa Dominical, como direito de todo cristão a tornar presente o Mistério Pascal de Cristo, antes mesmo de ser um dever ou obrigação! Em nossa casa, procuraremos incentivar a oração em família e as orações pessoais, de forma especial com a Via-Sacra e o Rosário.

Em vista da educação de nossos instintos e estímulos, optamos pelo jejum, a mortificação e a abstinência. Durante a Quaresma, nasça a frequência de uma verdadeira academia de exercícios espirituais. Um dia de jejum se transforme em donativo aos pobres daquilo que gastaríamos. Um chamado a qualquer serviço na Comunidade ou Paróquia terá em cada pessoa que escolhe viver bem a preparação para a Páscoa a iniciativa e a prontidão. Pode nascer uma experiência numa Área Missionária, e a penitência será dar o primeiro passo. A visita aos enfermos e aos presos, além de ser expressão de caridade, será também educativa, para superarmos a rejeição diante de quem quer que seja.

E a Quaresma se realiza também com a caridade e a fraternidade. No Brasil, este é o sexagésimo ano da Campanha da Fraternidade. Internamente, viveremos na Igreja a Liturgia Quaresmal, preparando a Renovação dos Compromissos Batismais na Vigília Pascal. Para a sociedade e o mundo diversificado em que vivemos, desejamos fazer uma “campanha publicitária” diferente, pois o produto a ser oferecido é justamente a fraternidade, ajudando a compreender que é possível um mundo mais justo e fraterno!

Neste ano, escolhemos um tema nascido da Encíclica “Fratelli tutti”, do Papa Francisco: “Fraternidade e amizade social”. O lema vem do Evangelho de São Mateus 23,8: “Vós sois todos irmãos e irmãs”. A exemplo de Nosso Senhor, que amou a todos, queremos despertar o valor e a beleza da Fraternidade Humana, promovendo e fortalecendo a amizade social. Desejamos superar a cultura da indiferença, da cegueira e do descaso com os outros. Para isso, nós vamos identificar as causas dos conflitos, da hostilidade e da agressividade, assumindo iniciativas de comunhão, reconciliação e fraternidade, reconstruindo laços entre pessoas e grupos e fomentando a cultura do diálogo e do encontro.

Não é segredo para nós que a sociedade se fragmentou nos últimos anos, por motivos políticos, pela violência, o indiferentismo e as guerras declaradas ou quotidianas, como aquelas que se manifestam na violência urbana. Propomos primeiro começar em casa. É hora de verificar as inimizades existentes nas famílias. É tempo de voltar a conversar com aqueles parentes que têm visões políticas, sociais ou religiosas diferentes, construindo pontes e destruindo muros e barreiras. Depois, olhemos ao nosso redor, pois há áreas, bairros, quadras e quarteirões famosos pelas ameaças e pelos crimes. Plantar as flores da atenção, da solidariedade e do amor poderá transformar em jardim lugares que se tornaram verdadeiras praças de guerra. Ouso propor que alguns lugares de nossos bairros voltem a ser frequentados à noite, pois há gente que não tem coragem nem de ir para a igreja! Mais ainda! Neste ano de eleições municipais, quem sabe possamos entender que o adversário que pertence a outro partido não é inimigo? E a amizade social poderá se espalhar se a ideia do bem comum, um dos alicerces da Doutrina Social da Igreja, for propagada e experimentada por nós cristãos, para depois contagiar positivamente outras pessoas! Somos chamados a alargar a tenda do nosso coração! (Cf. Is 54,2).

Rezemos: Deus Pai, vós criastes todos os seres humanos com a mesma dignidade. Vós os resgatastes pela vida, morte e ressurreição do vosso filho Jesus Cristo e os tornastes filhos e filhas santificados no Espírito! Ajudai-nos, nesta Quaresma, a compreender o valor da amizade social e a viver a beleza da fraternidade humana aberta a todos, para além dos nossos gostos, afetos e preferências num caminho de verdadeira penitência e conversão. Inspirai-nos um renovado compromisso batismal com a construção de um mundo novo, de diálogo, justiça, igualdade e paz, conforme a Boa-Nova do Evangelho! Ensinai-nos a construir uma sociedade solidária sem exclusão, indiferença, violência e guerras! E que Maria, vossa serva e nossa mãe, nos eduque para fazermos vossa santa vontade! Amém.

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