Sinodalidade: participação do povo de Deus

 

Em entrevista a Andrea Tornielli, (Vatican News, 21-07-2021 – https://www.ihu.unisinos.br/categorias/611337-a-igreja-e-sinodal-porque-e-uma-comunhao-entrevista-com-mario-grech-cardeal-secretario-do-sinodo), o Secretário do Sínodo, Cardeal Mario Grech, afirmou que “a sinodalidade é a forma que possibilita a participação de todo o povo de Deus na missão” e destacou a importância que o tema “sinodalidade” tem para o Papa Francisco.

1ª pergunta: O Papa enfatizou várias vezes a importância da sinodalidade. Por quê?
Resposta: “Eu gostaria de esclarecer um mal-entendido. Muitos pensam que a sinodalidade seja uma “ideia fixa” do Papa, espero que nenhum de nós compartilhe deste pensamento! Nos vários encontros preparatórios, ficou claro que a sinodalidade era a forma e o estilo da Igreja primitiva: o documento preparatório destaca isso claramente; e destaca como o Vaticano II, com o movimento de “retorno às fontes” quis resgatar aquele modelo de Igreja, sem renunciar a nenhuma das grandes aquisições da Igreja no segundo milênio. Se quisermos ser fiéis à Tradição – e o Concílio deve ser considerado como a etapa mais recente da Tradição – devemos trilhar com coragem este caminho da Igreja sinodal. A sinodalidade é a categoria que melhor compõe todos os temas conciliares que no período pós-conciliar muitas vezes foram contrapostos entre si. Refiro-me sobretudo à categoria eclesiológica do povo de Deus, que infelizmente foi contraposta àquela de hierarquia, insistindo numa Igreja “de baixo para cima”, democrática, e instrumentalizando a participação como reivindicação, não muito longe daquela sindical.

2ª pergunta: Em sua opinião, quais são os riscos dessa interpretação?
Resposta: Esta interpretação assusta muitos. Mas não devemos olhar para as interpretações, especialmente se querem dividir: devemos olhar para o Concílio e para os ganhos que trouxe, recompondo o aspecto jurídico, hierárquico, institucional da eclesiologia com aquele mais espiritual, teológico, histórico-salvífico. O povo de Deus do Vaticano II é o povo peregrino do Reino. Essa categoria permitiu recuperar todos os batizados como sujeitos ativos na vida da Igreja! E não o fez negando a função dos pastores, ou do Papa, mas colocando estes como princípio da unidade dos batizados: o bispo na sua Igreja, o Papa na Igreja universal.A Igreja é comunhão, reafirmou o Sínodo de 1985, lançando a conhecida eclesiologia da comunhão. A Igreja é constitutivamente sinodal, somos chamados a dizer “nós”. As duas afirmações não são contraditórias, mas uma completa a outra: a Igreja-comunhão, se tem por sujeito – e não pode ter outro! – o povo de Deus, é uma Igreja sinodal. Porque a sinodalidade é a forma que realiza a participação de todo o povo de Deus e de todos no povo de Deus, cada um segundo o seu estado e a sua função, na vida e na missão da Igreja. E realiza isso através da relação entre o sensus fidei do povo de Deus – como forma de participação na função profética de Cristo assim como indicado na Lumen gentium 12 – e a função de discernimento dos pastores.

3ª pergunta: A centralidade do Povo de Deus parece às vezes ter dificuldade para ser compreendida e compartilhada na experiência concreta. Por quê?
Resposta: Talvez devamos confessar que temos clara – e talvez até cara, no sentido de que a afirmamos e defendemos com disposição – a função hierárquica e magisterial. Não da mesma forma aquela do sensus fidei. Mas, para compreender a sua importância, basta sublinhar o tema do batismo e como o sacramento do renascimento não só nos habilita a viver em Cristo, mas imediatamente nos insere na Igreja, como membros do corpo. O documento preparatório ressalta bem tudo isso. Se formos capazes de reconhecer o valor do sensus fidei e formos capazes de mover o povo de Deus a tomar consciência dessa capacidade conferida no batismo, teremos iniciado o verdadeiro caminho da sinodalidade.Porque teremos colocado, além da semente da comunhão, também a da participação. Para o batismo, todos os batizados participam da função profética, sacerdotal e régia de Cristo. Por isso, ouvindo o povo de Deus – para isso serve a consulta nas Igrejas particulares – sabemos que podemos ouvir o que o Espírito diz à Igreja. Isso não significa que seja o povo de Deus quem determina o caminho da Igreja. À função profética de todo o povo de Deus (incluindo os pastores) corresponde a tarefa do discernimento dos pastores: do que fala o povo de Deus, os pastores devem captar o que o Espírito quer dizer à Igreja. Mas é da escuta do povo de Deus que o discernimento deve começar.

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