Jesus começou ministério do anúncio do Reino de Deus de forma dedicada e apaixonada. As multidões acorreram e o Senhor identificou as respostas dadas diante de sua presença, suas palavras e seus milagres, formando discípulos, aqueles que aderiam à mensagem do Reinado de Deus, inaugurado justamente em sua pessoa. Muitas pregações de Jesus são dirigidas às multidões, outras aos chamados discípulos, e tantas palavras vão diretamente a adversários ferrenhos que se confrontaram com o Senhor.

O Evangelho de São Mateus é articulado em torno de discursos ou sermões pronunciados por Jesus, entre os quais se inserem viagens, encontros com pessoas e grupos, além de muitos milagres. É que Jesus fala e faz! Neste final de semana, uma parte de seu primeiro sermão, chamado Sermão da Montanha, pois pronunciado sobre um monte, como um novo Moisés, aquele que teve experiências com Deus na montanha, nos é oferecida de presente pela Igreja (Mt 5,1-12). Trata-se do tesouro precioso das Bem-aventuranças, pronunciado justamente por aquele que é o bem-aventurado por excelência, o próprio Jesus.

Podemos entrever algumas condições para a escuta e os frutos a serem colhidos depois de acolher as bem-aventuranças. Primeiro, é necessário ter coração e alma de discípulo. “Deu-me o Senhor Deus uma língua habilidosa para que aos desanimados eu saiba ajudar com uma palavra. Toda manhã ele desperta meus ouvidos para que, como bom discípulo, eu preste atenção. O Senhor Deus abriu-me os ouvidos, e eu não fiquei revoltado, para trás não andei” (Is 50,4-5). Discípulo é muito mais do que aluno, pois se dispõe a seguir passo a passo seu mestre, aprende com suas palavras e com sua vida, pronto a conformar seus pensamentos e atitudes com aquele que foi descoberto e por quem foi chamado. É um relacionamento profundo, que toca toda a vida. E somos também nós chamados a tal aventura! Para tanto, faz-se necessário ter coração aberto! Se muita coisa vai entrar em nossa cabeça, passando pelo filtro de nossa inteligência, é bom saber que o discipulado começa mais no coração. Trata-se de uma sintonia profunda e gratuita que se estabelece com o Senhor! Sua fonte é a graça, pois o chamado é feito por ele, nas moções que o Espírito lança, quais dardos de amor, em nossa direção. E o discípulo, mais coração do que cabeça, depois entenderá as razões de sua esperança e será capaz de explicá-las (Cf. 1Pd 3, 15). Discípulo é primeiro aquele que sabe ouvir, ouve de verdade, presta atenção, guarda no coração.

Outra condição é a coragem para subir à montanha. Estamos muito acostumados com a mesmice e a rotina, que muitas vezes conduzem ao acomodamento, levando-nos à aceitação passiva dos acontecimentos e indispostos à novidade e aos novos passos, certamente exigentes, pois subir ao monte pode deixar-nos ofegantes! E bendito seja tal cansaço!

Tendo aceitado o risco do cansaço, os ventos do Espírito ou a luminosidade daquele que é a Luz do mundo, podemos confrontar a vida com a proposta de uma boa aventura, muito maior do que o pouco que podemos imaginar como felicidade.

Jesus começa desmontando três ídolos que se insinuam na vida de todos: “Bem-aventurados os pobres no espírito, porque deles é o Reino dos Céus. Bem-aventurados os que choram, porque serão consolados. Bem-aventurados os mansos, porque receberão a terra em herança” (Mt 5,3-5). Ilude-se quem confunde a vida com a riqueza, fortunas construídas a custo da corrupção, os prazeres descontrolados, vícios e drogas, vidas feitas de baladas de todo tipo, a luxúria, a força, a violência e o poder como caminho de realização. É preciso coragem para destruir tais ídolos, e sabemos, pelas notícias que nos chegam do mundo inteiro, como vidas assim desmoronam, mais cedo ou mais tarde.

Justamente porque os bens, as alegrias e o poder, tudo isso, quando não equilibrado, leva a uma desastrosa aventura. Aqui está a proposta para mudar para melhor, subindo para o andar de cima, superando a lama na qual, infelizmente, podemos muitas vezes pisar.

Fome e sede de justiça, perseguições devido à justiça, calúnias e injúrias lançadas sobre quem se faz discípulo! (Mt 5, 7.10-11) Parece o oposto do que humanamente sonhamos! E só quem tiver escolhido o seguimento de Jesus como caminho de realização, felicidade e bem-aventurança poderá entender e suportar as consequências! Certamente, quem nos acompanha nesta reflexão e já se decidiu a seguir estritamente o Senhor já pagou algum preço, com sangue, suor ou lágrimas. E poderá alegrar-se e exultar (Cf. Mt 5,12).

Misericórdia, coração entregue apaixonado a sanar as misérias humanas de qualquer natureza é caminho para a vida realizada! (Mt 5,6) Quem quiser ser bem-aventurado há de olhar ao seu redor, não fugir das necessidades materiais, emocionais, afetivas ou espirituais dos outros, inclinar-se como o Bom Samaritano, fazer o que estiver ao seu alcance. A sua será uma vida realizada, porque o amor de caridade não passa, e será levado conosco à eternidade! (Cf. 1 Cor 13,5.8)

Outra Bem-aventurança: “Bem-aventurados os puros no coração, porque verão a Deus” (Mt 5,8). Com toda certeza existe em nosso coração o desejo da visão de Deus, a ser alcançada nos montes da eternidade, parecendo muito distante! Entretanto, podemos experimentar, mesmo se nos limites de nossa humanidade, a visão de Deus nesta terra. Muitas vezes cantamos, inspirados pelo Salmo 14: “Senhor, quem entrará no santuário para te louvar? Quem tem as mãos limpas e o coração puro, quem não é vaidoso e sabe amar”. Mãos limpas e coração puro! Consequência, a visão de Deus!

Enfim, será bem-aventurado quem promove a paz, porque chamado filho de Deus (Mt 5,9). A realização pessoal, consequência da escolha de quem aceitou subir ao Monte das Bem-aventuranças, trará paz a este nosso mundo, tão machucado, dividido, fragmentado, que suplica, mesmo sem saber, a presença dos discípulos de Jesus. Afirmemos corajosamente com São Paulo, que “os sofrimentos do tempo presente não têm proporção com a glória que há de ser revelada em nós. De fato, toda a criação espera ansiosamente a revelação dos filhos de Deus; pois a criação foi sujeita ao que é vão e ilusório, não por seu querer, mas por dependência daquele que a sujeitou. Também a própria criação espera ser libertada da escravidão da corrupção, em vista da liberdade que é a glória dos filhos de Deus” (Rm 8,18-21).

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