Todos já ouvimos muitas vezes que a comunhão é elemento constitutivo da Igreja. Ao afirmar isto – é elemento constitutivo – entendemos que é uma qualidade que está presente desde a sua fundação, desde seus inícios, e que precisa sempre estar presente para que a Igreja, efetivamente, seja ela mesma. Por outro lado, também é verdade que nos últimos tempos esta realidade da “comunhão eclesial” está sendo abordada de muitas formas, com nova compreensão e profundidade. Estamos todos imersos nos últimos tempos num processo de busca “por uma Igreja sinodal”, isto é, por uma igreja que “caminha junto”.

No início do século XXI, em uma Carta apostólica intitulada “No início do Novo Milênio”, o Papa São João Paulo II afirmou com toda clareza que “fazer da igreja a casa e a escola da comunhão é o grande desafio que nos espera” (NMI, 45).

Olhando a história da Igreja se nota que, na verdade, a Igreja sempre foi “comunhão”. Era assim que Jesus a queria quando deu como lei do Povo de Deus o Mandamento Novo; ou quando Ele a descreveu naquele extraordinário painel, que é a sua oração pela unidade (Jo 17), onde Ele afirma que o relacionamento dos fiéis com Deus e entre eles deve refletir o mesmo relacionamento da Santíssima Trindade. Que a Igreja é “comunhão”, foi declarado várias vezes por São Paulo, quando falou da Igreja como um corpo compacto, cujos membros estão ligados pelo amor. Os primeiros cristãos sabiam que era assim, pois eram um só coração e uma só alma, ao ponto de obterem a plena comunhão espiritual e material (cf. At 2).

Os santos padres exigiam esta “comunhão”. Cipriano afirmava: “Cristo… prescreveu que devemos ter um só coração e uma só alma, recomendou que conservássemos íntegros e inviolados os vínculos do amor e da caridade… quem não possui a caridade, não possui Deus”. Santo Agostinho dizia: “Tal como os grãos recolhidos e, por assim dizer, misturados na farinha, se faz o pão, também mediante a harmonia do amor, forma-se o corpo de Cristo”.
Igualmente os documentos do Magistério da Igreja muitas vezes convidam a esta comunhão e, de modo especial, depois do Concílio Vaticano II. “A eclesiologia de comunhão – diz a Christifideleslaici (n. 19) – é a idéia central e fundamental nos documentos do Concílio”. E na encíclica Ut unumsint, de timbre ecumênico, São João Paulo II ensina: “Acreditar em Cristo significa querer a unidade; querer a unidade significa querer a Igreja, querer a Igreja significa querer a comunhão” (n. 9).
Teólogos contemporâneos também estão convencidos disso. O então Cardeal Ratzinger escreveu: “Ser católicos significa… estar unidos aos outros; significa ajudar-se, reciprocamente, nos momentos de necessidade; significa aprender com aquilo que os outros possuem de bom e dar ,generosamente, o que temos de bom; significa procurar conhecer-se, reciprocamente, compreender-se e estimar-se” (Il nuovopopolodi Dio, Brescia, 1992, p. 234-237).

A Igreja sempre foi vista como “comunhão”, mas em nossos dias esta sua nota constitutiva é colocada mais em relevo porque se sente, mais que antes, a necessidade de um aprofundamento de sua compreensão, visto que a missão da Igreja outra não é senão espelhar e viver em si mesma a vida da Santíssima Trindade. Ser cristãos significa viver em comunhão com Deus e com os irmãos. E como podemos viver esta “comunhão” trinitária? Como podemos “caminhar juntos” na missão à qual a Igreja é chamada a viver? Assunto este para a próxima semana.

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