Uma história humana de Jesus

Monsenhor Ronaldo Menezes – Vice-Presidente da Fundação Nazaré de Comunicação

 Quero continuar estes breves artigos sobre Jesus Cristo, pontuando algumas informações que, acredito, sejam necessárias para um maior conhecimento da sua pessoa e da sua mensagem, o que, para nós, seus discípulos, é de suma importância, pois, como ontem, muitas pessoas só têm contato com ele através da vida dos seus seguidores. Assim, começo com brevíssimas anotações sobre a genealogia de São Mateus; a apresentada por São Lucas é pouco diferente e tem outro propósito.

São Mateus inicia o seu Evangelho com a genealogia de Jesus. Em São Lucas também há uma genealogia do Senhor, à parte da história da infância, um pouco antes do início do ministério público de Jesus. Nos dois relatos, o propósito desta genealogia é mostrar a ascendência davídica de Jesus, ou seja, que ele é descendente do rei Davi, ao qual foi feita a promessa de que de sua raiz nasceria o Messias. São Mateus inicia sua história da ascendência humana de Jesus com “Abraão”; São Lucas diz que Jesus, ao iniciar o seu ministério, “tinha mais ou menos trinta anos e era, como se supunha, filho de José”. São Mateus divide o seu relato em três grandes blocos, sempre com catorze gerações cada um deles. A divisão feita por São Lucas também é distinta. Esta não coincidência, todavia, não significa senão que o nascimento de Jesus não é fruto do acaso, um acontecimento casual entre todos os grandes eventos históricos; antes, é o cumprimento de um desígnio de Deus, em vista da nossa salvação, o qual estava previsto nas Escrituras Sagradas, o Antigo Testamento, e ordenado em toda a divina revelação. Ou seja, a simples história dos homens não pode explicar. De outro modo, podemos dizer que São Mateus, no seu relato, quer provar que em Jesus se cumprem todas as promessas feitas por Deus aos pais, a Abraão e a Davi, especialmente. Se você ler o relato de São Lucas, notará que a genealogia de Jesus chega a Adão; o motivo é este: Jesus salvará não apenas os filhos de Abraão, isto é, os judeus, mas todos os povos vindos de Adão, ou seja, Jesus veio para salvar toda a humanidade, a posteridade de Adão, o primeiro homem. Em Cristo Jesus, os tempos obscuros e mesmo escuros encontram luz e sentido, e todos somos envolvidos pelo abraço misterioso de Deus.

Um dado interessante na genealogia de Jesus é que nem tudo foi bonito, belo e puríssimo na longa história dos ascendentes de Jesus. O mais intrigante é o fato de os evangelistas, nem São Mateus nem São Lucas, apagarem ou limparem ou ocultarem esses elementos menos nobres da estirpe do Salvador. Se você der uma simples olhada na extensa relação de nomes, encontrará, por exemplo, Farés e Salomão. Farés nasceu de uma relação incestuosa de Judá e Salomão é filho adulterino de Davi. Jesus descende de ambos.

Outra coisa não comum nas genealogias dos judeus: o nome de mulheres. Na de Jesus, aparecem quatro mulheres; três delas são estrangeiras: uma cananeia, uma moabita e a outra, hitita. Para os hebreus, constituía infidelidade a Deus casar-se com estrangeiros. Para completar, essas três mulheres não tinham uma vida ilibada. Apenas Rute é elogiada por sua vida virtuosa. Tamar gerou dois filhos de seu sogro, Judá: Farés e Zara. Raab vivia da prostituição em Jericó, e gerou Booz. São Mateus diz que “Booz gerou Jobed, de Rute, Jobed gerou Jessé, Jessé gerou o rei Davi”. O evangelista não esconde as falhas humanas dos ascendentes de Jesus, em nenhum caso; de Davi, por exemplo, diz, claramente, que o rei “gerou Salomão, daquela que foi mulher de Urias”, declarando, portanto, o pecado de Davi.

Pode ser uma verdade cruel que Cristo tenha tido entre os de sua estirpe pessoas com pecados nem sempre leves. Mas penso numa máxima da teologia que aprendemos sobre o Senhor: Jesus não salvou o que ele não assumiu, isto é, o Filho de Deus entrou na raça humana como é, cheia de virtudes e de defeitos. Somente no último estágio da história, aparece alguém que não tem nenhum tipo de pecado, que é pura e imaculada, a Virgem Maria.

Agora, peço que você leia a genealogia de Jesus, no relato de São Mateus; veja os nomes que aparecem; destaque as mulheres, leia as histórias delas; reserve um tempo maior para dedicar-se à leitura do livro de Rute. Você irá ler esses textos com nova luz e renovado sabor.

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