Ainda a viagem de Jesus para a Galileia – Caná e Cafarnaum

Monsenhor Ronaldo Menezes – Vice-Presidente da Fundação Nazaré de Comunicação

Desde que deixou a Judeia, Jesus se dirige para a Galileia, fazendo algumas “paradas”: esteve na Samaria; foi a Nazaré, onde ensinou na sinagoga e depois foi expulso, quase sendo jogado do cimo de uma colina e depois volta a Caná, lugar do seu primeiro milagre. Quem nos conta que Jesus voltou a Caná uma segunda vez é São João. O relato de São João é sobre um milagre que Jesus realizou em favor de um funcionário do rei, que estava com um filho doente em Cafarnaum. Jesus estava em Caná. O homem procurou Jesus e pediu “que descesse e curasse seu filho, que estava à morte”. A resposta de Jesus àquele homem não parece muito animadora: “Se não virdes sinais e prodígios, não crereis”. O homem insiste: “Senhor, desce, antes que meu filho morra”. Jesus lhe responde com segurança: “Vai, teu filho vive”. O homem acreditou na palavra de Jesus, partiu e encontrou seu filho com saúde. São João conclui o relato com esta informação: “creu ele e todos os da sua casa” (Jo 4,46-50). Descer de Caná a Cafarnaum significava percorrer um pouco mais de 30 km a pé, pois Cafarnaum está no nível do mar da Galileia. O sentido da frase “Creu ele e todos os da sua casa” é este: todas as pessoas com vínculo de sangue e todos os empregados da família aderiram à fé em Jesus.

Quem era este funcionário da corte de Herodes? Não sabemos. Porém, São Lucas nos diz que uma das mulheres que seguiam a Jesus como discípulas e o ajudavam era “Joana, mulher de Cuza, o procurador de Herodes” (Lc 8,3). Talvez seja a mesma pessoa.

Em seguida, Jesus se estabelece em Cafarnaum, onde Pedro residia com sua família. Esta mudança de domicílio é em cumprimento à profecia de Isaías, que diz: “Terra de Zabulon, terra de Neftali, caminho do mar, região além do Jordão, Galileia das nações! O povo que jazia nas trevas viu uma grande luz: aos que jaziam na região sombria da morte, surgiu uma luz” (Mt 4,12-16; cf. Js 19,10-16; 32-39). O interessante nesta nota de São Mateus é mencionar explicitamente Cafarnaum como uma cidade agraciada por ter sido escolhida por Jesus para ser sua nova residência, e ainda assim perder a oportunidade de se converter, recaindo sobre ela um pesado juízo do Senhor (Mt 11,23s), considerando para ela uma sorte pior que aquela sofrida por Sodoma.

Cafarnaum é chamada hoje de “A cidade de Jesus”, como leem à entrada do sítio arqueológico os peregrinos, para conhecer o lugar onde Jesus se estabeleceu depois de deixar Nazaré – e se encontram com a antiga sinagoga, a igreja em forma octogonal sobre a primitiva casa do Apóstolo Pedro e com a memória do discurso do Senhor na sinagoga mandada construir por um centurião romano que morava no lugar (Lc 7,1-5). A sinagoga branca é do século II ou III, mas a casa de Pedro domina o local. Com um bom guia, dá para ver os grafites e pinturas em honra do Senhor Jesus e de Pedro, deixados por peregrinos na antiga igreja judeu-cristã do século I. Diante da casa que foi de Simão Pedro, com o Evangelho de São Marcos na mão, pode-se ler este texto: “E logo ao sair da sinagoga, foi à casa de Simão e de André, com Tiago e João. A sogra de Simão estava de cama com febre, e eles imediatamente o mencionaram a Jesus. Aproximando-se, ele a tomou pela mão e a fez levantar-se. A febre a deixou e ela se pôs a servi-los. Ao entardecer, quando o sol se pôs, trouxeram-lhe todos os que estavam enfermos e endemoninhados. E a cidade inteira aglomerou-se à porta. E ele curou muitos doentes de diversas enfermidades e expulsou muitos demônios. Não consentia, porém, que os demônios falassem, pois eles sabiam quem ele era” (Mc 1,29-34). E logo esta cena vem à mente (cf. Mc 2,1-12; 3,20). Tudo isso se passou em Cafarnaum.

São Marcos e São Lucas contam um caso de exorcismo em Cafarnaum, não muito tempo, parece, da chegada de Jesus à cidade. Aos sábados, Jesus tinha o costume de ir à sinagoga, aproveitando a oportunidade para ensinar. Depois do seu embate com Satanás no deserto, esta é a primeira vez que ele enfrentará novamente o filho das trevas. Na sinagoga, estava um homem possuído por um espírito impuro, que se põe a inquirir o Senhor, afirmando saber quem ele era: “o Santo de Deus”. Jesus mandou que ele se calasse e saísse daquele homem. O demônio saiu. Todos os presentes ficaram admirados e perguntavam-se: “Que é isto? Um novo ensinamento com autoridade! Até aos espíritos impuros dá ordem, e eles lhe obedecem!” (Mc 1,21-28; Lc 4,31-37). A atividade exorcista de Jesus ficará para um artigo posterior; por isso, não me deterei aqui em aludir a outros casos em que Jesus expulsou demônios e libertou pessoas das amarras de Satã.

A sequência da atividade de Jesus, nos relatos de São Marcos e São Lucas, é a cura da sogra de Pedro. O relato é, ao mesmo tempo, simples e belo (Mc 1,29-31; Lc 4,38-39). São Mateus põe um pouco mais adiante (Mt 8,14-15). Por aqui, temos conhecimento da família de Pedro, além do seu irmão André, ou seja, que era casado, tinha uma sogra e uma esposa, certamente. Ao anoitecer desse mesmo dia de trabalho, após o repouso sabático, Jesus fez diversas curas, exorcismos, isto é, atendeu a todos. No dia seguinte, Jesus saiu bem de madrugada para rezar sozinho; deixou secretamente Cafarnaum e se dirigiu a outros lugares para pregar. É interessante, e acredito mesmo necessário, ler todo o capítulo 1 de São Marcos, para compreender melhor a atividade de Jesus ou para conhecer um dos seus dias de trabalho em Cafarnaum.

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