O Escrúpulo e a Consciência Moral

Dom Julio Endi Akamine – Arcebispo Metropolitano de Belém

Em alguns casos, os penitentes podem sofrer com os escrúpulos. Escrúpulossão temores ou dúvidas infundadas que levam a pessoa a julgar pecado o que, objetivamente, não é pecado, ou a duvidar continuamente de ter pecado apesar de não haver fundamento suficiente. Quando esses temores se tornam habituais, fala-se em consciência escrupulosa.

É importante distinguir a consciência escrupulosa de umaconsciência delicada. A consciência delicada reconhece o pecado verdadeiro; o escrúpulo, ao contrário, exagera, vê pecado em quase tudo e permanece insatisfeito mesmo depois de uma confissão válida.

Na prática espiritual, recomenda-se:

  • não reexaminar indefinidamente pecados já confessados;
  • não procurar repetidamente vários confessores para obter novas respostas;
  • escolher um confessor prudente e seguir fielmente sua orientação;
  • rejeitar o medo infundado e agir com liberdade, quando há certeza moral de não cometer pecado.

Um escrúpulo, por si só,não constitui pecado. Para haver pecado mortal, é necessária matéria grave, plena consciência e consentimento deliberado. O escrúpulo é um medo confuso ou uma tentação involuntária, por isso o escrúpulo não constitui pecado, mas uma turbação espiritual.

Se os escrúpulos forem intensos, persistentes ou causarem sofrimento significativo, é prudente buscar simultaneamente orientação de um confessor estável e auxílio psicológico ou psiquiátrico competente.

Qual é a diferença entre consciência delicada e escrúpulo?

A diferença principal é esta: a consciência delicada percebe com prudência o pecado verdadeiro e deseja sinceramente evitar toda ofensa a Deus. Examina os fatos de modo razoável e, depois de formar um juízo, consegue agir com paz.

O escrúpulo, por sua vez, nasce de um medo sem fundamento suficiente. A pessoa suspeita de pecado onde provavelmente não há pecado, permanece em dúvida e continua insatisfeita mesmo após uma confissão ou orientação segura.

Em termos simples, a consciência delicada é cuidadosa; a consciência escrupulosa é angustiada e desproporcional. A consciência delicada conduz à conversão e à liberdade; a escrupulosa pode levar à repetição de confissões, à consulta constante de diversos confessores e à incapacidade de aceitar um juízo prudente.

Contudo, nem todo temor é escrúpulo: alguém que está abandonando uma vida de pecado pode legitimamente se tornar mais atento à própria conduta. O critério é se a preocupação tem fundamento objetivo e se consegue ser pacificada por uma orientação prudente.

Como superar o escrúpulo?

Para superar o escrúpulo, é precisonão alimentar a dúvida, mas aprender a agir com confiança e prudência. Algumas orientações práticas:

Escolha um confessor estável e prudente.Exponha-lhe claramente os escrúpulos e siga sua orientação, sem procurar continuamente outras opiniões. A tradição espiritual recomenda não repetir indefinidamente as mesmas dúvidas nem as confissões passadas.

Não trate toda dúvida como pecado.Quando não há certeza moral nem fundamento objetivo, não é necessário continuar investigando. Depois de receber uma orientação segura, aja conforme ela, mesmo que permaneça certa ansiedade interior.

Não repita confissões válidas.Confesse os pecados que você reconhece com suficiente clareza; não confesse faltas apenas por medo de tê-las cometido.

Evite verificações excessivas.Não reexamine continuamente suas intenções, pensamentos, orações ou ações. O escrúpulo costuma ser fortalecido pela repetição da análise e pela busca incessante de certeza.

Mantenha uma vida equilibrada.Ociosidade, leituras excessivamente rigoristas e isolamento podem favorecer pensamentos ansiosos; ocupações sadias e moderadas podem ajudar.

Confie na misericórdia de Deus.Uma tentação, medo involuntário ou pensamento intrusivo não é, por si só, pecado. O pecado mortal exige plenoconhecimento e consentimento deliberado; a ansiedade escrupulosa frequentemente diminui ou exclui esse consentimento.

A obediência ao confessor não é absoluta: nunca se deve seguir uma orientação que sejamanifestamente contrária a Deus ou ao bem. Fora desse caso, seguir uma orientação prudente, sem exigir novas explicações a cada dúvida, é um meio tradicional de recuperar a paz.

Se os escrúpulos forem persistentes, incapacitantes ou acompanhados de pensamentos obsessivos, procure também um psicólogo ou psiquiatra competente; isso não substitui a direção espiritual, mas pode ser necessário para tratar a dimensão psicológica.

O escrúpulo não deve governar a consciência, e a pessoa deve abandonar-se confiantemente a Deus.

São João da Cruz e São Padre Pio

São João da Cruz trata os escrúpulos como “temores vãos” que tornam o espírito covarde. Recomenda não ficar dependente de constantes confirmações humanas, mas buscar Cristo, “espelho sem mancha” do Pai, e fechar a entrada da alma aos medos infundados.

Sua orientação é:

  • não procurar consolações, sinais ou certezas extraordinárias;
  • seguir simplesmente os mandamentos de Deus e da Igreja;
  • confessar-se quando houver matéria clara, sem insistir em dúvidas interiores indistintas;
  • viver pela fé, mesmo na aridez e na obscuridade;
  • permanecer em paz e continuar normalmente a vida sacramental.

Para S. João da Cruz, a superação do escrúpulo passa por se desapegar da necessidade de sentir segurança. A pessoa não precisa resolver interiormente toda dúvida; precisa confiar em Deus e não obedecer ao medo.

São Padre Pio recomenda se abandonar ao Coração de Jesus “como uma criança nos braços da mãe” e não deixar o coração ser dominado pela perturbação.

Aplicada aos escrúpulos, essa perspectiva enfatiza:

  • a confiança na misericórdia de Cristo;
  • a entrega da própria miséria, sem desespero;
  • a oração simples e perseverante;
  • a paz do coração, mais do que a análise interminável da própria consciência.

Ambos rejeitam a tentativa de alcançar paz por meio de análises intermináveis. A pessoa escrupulosa deve:

  • reconhecer a dúvida sem tratá-la automaticamente como pecado;
  • seguir uma orientação prudente e estável;
  • não repetir indefinidamente confissões ou verificações;
  • confiar em Deus apesar da ausência de consolação sensível.

São, portanto, duas ações fundamentais: não dar crédito ao medo infundado e entreguar esse medo ao Coração de Jesus. Essas ações se completam: uma purifica o entendimento e a vontade; a outra fortalece a confiança e o abandono.

Sugestão de oração (adaptada de S. João da Cruz)

Senhor Jesus Cristo,

conduze-me a Ti, espelho sem mancha do Pai.

Fecha minha alma aos temores vãos

e dá-me confiança para viver pela fé,

seguir o caminho seguro dos mandamentos

e permanecer em paz.

Amém.

Compartilhe essa Notícia

Leia também