O Sermão da Montanha – III

 Os mansos, com efeito, não desejam esta terra onde os homens brigam e se matam, mas a terra dos sonhos de Deus.
 Os mansos, com efeito, não desejam esta terra onde os homens brigam e se matam, mas a terra dos sonhos de Deus.

Monsenhor Ronaldo Menezes – Vice-Presidente da Fundação Nazaré de Comunicação

Não pretendo aqui explicar as bem-aventuranças. Há especialistas para isso, bons comentadores, cursos bíblicos nas paróquias, textos de divulgação publicados por nossas editoras católicas. Apresento apenas um panorama do ensinamento de Jesus. Aliás, é como Jesus começa, no relato de São Mateus, que inicia o texto dizendo que o Senhor “pôs-se a falar e os ensinava”. Este detalhe é de suma importância. O fato de Jesus dispor-se a “ensinar”, ou seja, de apresentar-se como Mestre, é tornar algo conhecido, para ser vivido, aplicado na vida; não é uma exposição teórica, mas uma prática, um exercício para a vida cotidiana; não é uma informação que podemos usar ou não, como uma opção, mas uma condição de vida. Ainda assim, não é uma imposição, mas uma disposição da alma, que se aceita e adere. Duas últimas observações: Jesus fala, diretamente, aos seus discípulos, mas toda a multidão escuta, isto é, o Senhor fala para todos, abre as portas do seu redil para todos os povos, aos quais não se nega o tesouro do Reino dos Céus. A segunda se refere a esta expressão “Reino dos Céus”, comumente usada por São Mateus, como sinal de respeito ao nome de Deus; o equivalente é “Reino de Deus”. Os judeus, contudo, não pronunciavam o Nome de Deus. Mas Mateus usa também a expressão “Reino de Deus”. Ao dizer “Reino dos Céus”, parece indicar a universalidade desse Reino, ao qual estão destinados todos os povos, aberto a todas as gentes. Entretanto, alguns estudiosos preferem traduzir o termo “Reino” (no original: Basileia) como “Reinado”, para melhor fazer entender que se trata da dignidade real de Jesus, que detém o direito de governar todos os povos. A solenidade de Cristo, Rei do universo, no final do ano litúrgico, tem esse significado. Este conceito se opõe ao de “reino”, que seria um domínio sobre um território. Mas este detalhe pode melhor ser explicado pelos especialistas e biblistas, que temos entre nós.

Como a intenção não é explicar todas as Bem-Aventuranças, detenho-me apenas nas duas primeiras. A primeira bem-aventurança proclamada por Jesus é esta, segundo a tradução da Bíblia de Jerusalém: “Felizes os pobres no espírito, porque deles é o Reino dos Céus”. Os “pobres” aqui não são uma categoria social, mas aqueles que elegem a pobreza como estado de relação com Deus, Senhor e Doador de todas as coisas, reconhecem sua dependência e não se constrangem em servi-lo com tudo o que possuem. Mas também é verdade que as pessoas desafortunadas do ponto de vista econômico e social não podem ser excluídas desta bem-aventurança, porque sua vida de privação está diante de Deus. Os “pobres no espírito” reconhecem que precisam sempre de Deus e podem dizer a Jesus: “Tu és o meu Rei e desejo participar do teu Reinado”, ou seja, do teu modo de governar as coisas, e com o salmista: “Quanto a mim, sou pobre e indigente, mas o Senhor cuida de mim. Tu és meu auxílio e proteção; Deus meu, não demores!” (Sl 40,18). O pobre no espírito espera confiante na ajuda de Deus e sabe que ele não falhará. O Reinado de Deus, prometido por Jesus, pertence a essas pessoas, que decidem por esse estado de pobreza no espírito, em razão de um bem maior. A melhor explicação para a primeira bem-aventurança é dada pelo próprio Jesus, que assim nos diz: “Não ajunteis para vós tesouros na terra, onde a traça e o caruncho os corroem e onde os ladrões arrombam e roubam, mas ajuntai para vós tesouros no céu, onde nem a traça, nem o caruncho corroem e onde os ladrões não arrombam nem roubam; pois onde está teu tesouro, aí também estará teu coração” (Mt 6,19-21). De outro modo o Senhor Jesus nos está dizendo que a nossa real e verdadeira segurança está nele, nas suas promessas, e este é o comportamento dos pobres em espírito. Agora esta é uma opção pessoal, uma decisão que tomamos diante de Deus, para entrar e participar do seu Reino ou Reinado. A outra opção é querer ficar fora e excluir-se da eternidade feliz.

A segunda bem-aventurança é esta: “Felizes os mansos, porque herdarão a terra”. Em tempos de guerra, de violências extremadas, rivalidades e de revoltas de todos os tipos, esta bem-aventurança nos põe em xeque. O salmo 37 (36) diz no versículo 11: “os pobres possuirão a terra, e se deleitarão com paz abundante”. Não é bem o que parece. Então o que Jesus nos propõe? Para a longa tradição bíblica, pobres, humildes e mansos estão no mesmo grupo, para os quais os olhos de Deus estão voltados especialmente; essas pessoas têm pouco e porque têm Deus ao seu lado, têm tudo. Não é algo fácil de entender e, às vezes, de aceitar, pelo que vemos de acintes à dignidade humana em muitos lugares. Então, o ser manso pode ser mal interpretado. Entre nós, o termo “manso” se aplica mais a animais e só por extensão aos humanos. Quando dizemos que um animal é manso significa que ele foi domesticado, amansado, que se tornou dócil. Talvez se diga igualmente que nós, humanos, orientados pela Palavra de Deus, podemos ser “amansados”, tornados suaves e serenos. É neste sentido que se diz que o manso não pratica o mal, não o provoca nem se deixa provocar por ele, prefere sofrer uma ofensa que ofender alguém. Mas o adjetivo “manso” pode ser substituído por outro, de pouco uso, mas também importante para compreendermos as palavras de Jesus: “sereno”, um pouco diferente, mas de profundo significado. Digo isto pensando agora no livro que escreveu EvágrioPôntico contra os maus pensamentos, um meio de adquirir a serenidade de espírito. Melhor seria dizer, então, que os serenos herdarão a terra, no sentido de tranquilidade e de paz, porque não precisam lutar, brigar para possui-la, literalmente. Porque escolheram a serenidade, não precisam oprimir ninguém, nem explorar, ou impor qualquer tipo de violência contra alguém; não maltratam, não enganam, não roubam, não usurpam, não mentem no preço nem na qualidade do produto. As pessoas serenas não ofendem ninguém; confiam em Deus e sabem que um dia ele julgará os pobres com justiça, os considerados “fracos” neste mundo (Is 11,4) e “pronunciará sentença em favor dos pobres da terra”. Os serenos ou mansos neste sentido não se preocupam com as coisas do mundo; usam-nas com sabedoria, porque sua segurança e esperança estão em Deus. Jesus diz que os mansos herdarão a terra, mas de qual terra ele fala? A terra da promessa de Deus, que não deve ser um território do Oriente Médio, mas o que ele significa, isto é, um espaço sem profanação do sagrado, sem idolatria, no qual Deus é honrado devidamente, não com cânticos vazios que saem em forma de engodo, mas com atos, gestos e atitudes que brotam do coração. Os mansos, com efeito, não desejam esta terra onde os homens brigam e se matam, mas a terra dos sonhos de Deus.

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