Santíssima Trindade: Deus é comunhão e a Igreja é casa de todos

Dom Paulo Andreolli, SX – Bispo Auxiliar de Belém

Caros leitores, neste nosso encontro semanal vamos refletir sobre a Solenidade da Santíssima Trindade, uma das celebrações mais profundas da fé cristã. Depois de vivermos o tempo da Páscoa e celebrarmos Pentecostes, a Igreja nos convida a contemplar o mistério central da nossa fé: Deus é Pai, Filho e Espírito Santo. Um só Deus em três Pessoas. Não são três deuses, mas um único Deus que é comunhão perfeita de amor. Para esta reflexão conto com a colaboração de Ir. Maria Rejiane da Mata Dias, Filha da Caridade.

As leituras desta Solenidade ajudam a compreender que a Trindade não é uma ideia complicada reservada aos estudiosos. É a revelação de que Deus é amor que se doa, que se comunica e que quer reunir toda a humanidade como uma grande família. Por isso, celebrar a Santíssima Trindade é também reafirmar que a Igreja deve ser casa de todos.

Na 1ªLeitura (Ex 34,4b-6.8-9), Moisés sobe ao monte para encontrar-se com o Senhor. Deus se revela como “Deus misericordioso e clemente, paciente, rico em bondade e fidelidade”. Essa é uma das descrições mais belas de Deus no Antigo Testamento. Antes mesmo de falar de leis ou exigências, a Palavra destaca o coração de Deus: Ele é misericórdia e fidelidade.

Moisés, diante dessa revelação, inclina-se e adora. Reconhece que o povo é frágil, mas pede que o Senhor caminhe no meio Dele. Esse pedido continua atual. Também hoje a Igreja reconhece suas limitações humanas, mas confia que Deus permanece no meio do seu povo, guiando e sustentando cada passo.

O cântico do livro de Daniel (Dn 3,52-56) é um grande hino de louvor. “Bendito sejais, Senhor, Deus de nossos pais”. A cada verso, a criação inteira é convidada a louvar a Deus. Céus, anjos, águas, sol, lua, estrelas: tudo é chamado a reconhecer a grandeza do Senhor. A Trindade é fonte da vida e da harmonia do universo. Quando a Igreja louva, ela se une a essa sinfonia de gratidão.

Na 2ª Leitura (2Cor 13,11-13), São Paulo encerra sua carta com uma saudação presente na Missa: “A graça do Senhor Jesus Cristo, o amor do Pai e a comunhão do Espírito Santo estejam com todos vós”. Essa afirmativa resume o mistério da Trindade. O Pai ama, o Filho oferece sua graça salvadora, o Espírito cria comunhão.

É importante perceber que Paulo fala de comunhão. O Espírito Santo não divide, não exclui, não separa. Ele une. Por isso, a Igreja, que vive da ação do Espírito, deve ser espaço de unidade, reconciliação e acolhimento.

O Evangelho de João (Jo 3,16-18) apresenta uma das frases mais conhecidas da Bíblia: “Deus amou tanto o mundo que entregou o seu Filho único, para que todo o que Nele crer não pereça, mas tenha a vida eterna”. Essa afirmação revela o coração da Trindade. O Pai envia o Filho por amor. O Filho não vem para condenar, mas para salvar. O Espírito Santo continua essa obra no coração dos que creem.

O texto deixa claro que a iniciativa é de Deus. Ele toma a decisão de amar primeiro. Não espera que a humanidade seja perfeita. Ele envia seu Filho como sinal de misericórdia e esperança. Esse amor não exclui ninguém. É oferecido a todos.

A família é uma imagem que nos ajuda a compreender esse mistério. Na família, cada pessoa é diferente, mas todos formam uma unidade. Assim também na Trindade: o Pai não é o Filho, o Filho não é o Espírito, mas os três são um só Deus. Essa diversidade na unidade inspira a vida da Igreja. Somos diferentes em idade, cultura, dons e opiniões, mas unidos pela mesma fé.

A comunidade cristã se torna casa de todos quando valoriza os dons de cada um. Uns servem na liturgia, outros na catequese, outros na caridade, outros na administração. Todos têm seu lugar. Ninguém é descartável. A Trindade nos ensina que a comunhão se constrói.

A Igreja é casa de todos porque Deus é Pai de todos. É casa de todos porque o Filho morreu e ressuscitou por todos. É casa de todos porque o Espírito Santo é derramado sobre todos.

Celebrar a Santíssima Trindade é celebrar o Deus que caminha conosco, que nos salva e que nos reúne. É renovar a certeza de que não estamos sozinhos. Vivemos mergulhados no amor do Pai, na graça do Filho e na comunhão do Espírito Santo. E é desse amor que nasce a missão de fazer da Igreja, cada vez mais, casa de todos.

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