O bispo auxiliar de Brasília (DF) e secretário-geral da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), dom Ricardo Hoepers, proferiu na manhã da sexta-feira, 31 de julho, a conferência sobre como a Doutrina Social da Igreja Católica se tornou um critério de discernimento da Igreja para o mundo e a história. A conferência se insere no XXVII Congresso Mundial de Médicos Católicos (FIAMC World Congress), que aconteceu em Brasília, na Casa dom Luciano, de 30/07 a 1º de agosto.
O Congresso está aprofundando o tema: “Médicos católicos entre as revoluções industrial e digital”, inspirado no magistério do Papa Leão XIV, que busca enfrentar os desafios da Revolução Digital, inspirado pelo predecessor Leão XIII, que guiou a Igreja durante a Revolução Industrial.
O encontro reúne 370 médicos representantes dos cinco continentes para discutir o impacto das revoluções industrial e digital na prática médica em três dias de formação, espiritualidade e de troca de experiências sobre os desafios da medicina contemporânea.
Doutrina Social: resposta da Igreja à história
A fala do secretário-geral da CNBB se inseriu na Sessão I – “Doutrina Social da Igreja Católica: da Rerum Novarum à Magnifica Humanitas”. Dom Ricardo propôs, em sua apresentação, uma chave interpretativa para compreender o desenvolvimento da Doutrina Social da Igreja, desde a Rerum Novarum (1891) até a primeira encíclica do Papa Leão XIV, a Magnifica Humanitas.
De acordo o bispo, o surgimento da inteligência artificial, da biotecnologia e de outras tecnologias disruptivas transformou profundamente a sociedade contemporânea. “Esses avanços não apenas introduzem novos desafios éticos mas levantam uma questão mais fundamental sobre a própria compreensão da pessoa humana”, pontuou.
Para dom Ricardo, a atual questão antropológica não substitui a tradicional questão social abordada pela Doutrina Social da Igreja, mas sim revela o seu fundamento mais profundo. “Toda crise social acaba se tornando uma crise antropológica sempre que a verdade sobre a pessoa humana é obscurecida”, afirmou.
Em vez de encarar as encíclicas sociais como respostas isoladas a acontecimentos históricos, o secretário-geral da CNBB as apontou como expressões sucessivas da missão permanente da Igreja no mundo de discernir os sinais dos tempos à luz do Evangelho, segundo o horizonte metodológico estabelecido pelo Concílio Vaticano II.
O bispo auxiliar de Brasília apontou que a “Magnifica Humanitas” não representa nem uma ruptura nem um novo começo, mas um desenvolvimento coerente da tradição social da Igreja. “Enquanto Leão XIII respondeu às consequências sociais da Revolução Industrial reafirmando a dignidade do trabalhador, Leão XIV aborda as implicações antropológicas da Revolução Digital reafirmando a dignidade inviolável de toda pessoa humana”, disse.
Missa e abertura do Congresso
Na quinta-feira (30), o arcebispo de Brasília, cardeal dom Paulo Cezar Costa, presidiu a missa de abertura do evento e convidou os participantes a exercerem sua vocação profissional baseados na fé.
“Que a palavra de Deus nos ajude a sermos homens e mulheres que percebem que a opção por Jesus Cristo, por um caminho de fé, liberta a vida, liberta a existência. Essa existência que, junto com o nosso olhar e a nossa fé, nos faz ver a vida, o amor de Deus e a perceber que o nosso papel é salvar vidas. Não é dominar a vida humana, é colaborar com o criador na dignidade humana, na promoção da vida. O nosso papel é sempre ser um instrumento nas mãos de Deus”, enfatizou o cardeal.
Avanços tecnológicos e defesa da vida
Durante a solenidade de abertura do evento, o presidente da Associação Brasileira de Médicos Católicos (ABMC), Franco Scariot, ressaltou que a humanidade está diante de um momento de mudanças e que a discussão do tema se faz necessária entre os médicos católicos
“Estamos entrando em uma nova era. O que já sabemos é que será um tempo caracterizado pela desproporção entre o elevado poder humano e a sabedoria adequada para usá-la. É nesse momento que descobrimos como é bom ser católico, como é bom termos a certeza de que a nossa Igreja não vai sucumbir e que Cristo estará conosco todos os dias”, ressaltou o presidente da Associação.
A mensagem foi reforçada por John Lane, vice-presidente da Federação Internacional de Associações Médicas Católicas. “Os médicos católicos e os trabalhadores de saúde são convidados a ser testemunhas corajosos de uma medicina que serve a vida e a dignidade humana. Esta conferência oferece a oportunidade de ensinar o diálogo entre a fé e a ciência, a doutrina e a prática, a caridade e a justiça”, apontou.
Para a segunda vice-presidente do Conselho Federal de Medicina, Rosylane Rocha, o Congresso Mundial de Médicos é um momento especial para renovar as forças, além de estar tecnicamente mais preparados e espiritualmente fortalecidos. “Esse é o grande remédio para a desesperança, para a frustração, para o adoecimento, para o burnout e para o suicídio. Fortalecidos com o coração inflamado pelo nosso desejo de servir e de ser útil”, apontou.
Quem também está participando do encontro, junto a outros representantes da Igreja Católica, é o bispo auxiliar de Curitiba (PR) e presidente da Comissão Especial de Biotécia da CNBB, dom Reginei José Modolo.
Fonte: CNBB / Por Willian Bonfim com informações de André Luiz da Comissão para a Vida e a Família


