Na manhã de domingo, 7 de junho, as águas do Rio Capim pareceram desaguar em festa na Catedral Santa Maria Mãe de Deus. Em uma celebração que uniu o rigor do rito canônico à espontaneidade da alma amazônica, Dom Manoel de Oliveira Filho tomou posse como o segundo bispo da história da Diocese de Castanhal (PA). O “filho da terra” retorna às suas origens para suceder a Dom Carlos Verzeletti, o mestre de obras da fé que, após 21 anos de pastoreio incansável, entrega o cajado sob o lema de que “Só o Amor Constrói”.
A catedral, majestosa em sua arquitetura moderna, tornou-se pequena para as mais de duas mil pessoas que lotaram cada espaço. O clima era de uma fraternidade palpável. Entre o clero, religiosas, autoridades e o povo simples, sentia-se que não era apenas uma mudança de governo, mas uma renovação de votos de uma Igreja que caminha junta.
A celebração começou com um dos momentos mais emocionantes da manhã, a saudação de Dom Carlos Verzeletti. Com a autoridade de quem plantou as sementes desta diocese, Dom Carlos falou não como alguém que se despede, mas como um pai que prepara a casa para o filho. “O Senhor não procurou fora e longe daqui quem levaria adiante o pastoreio desta amada Igreja. Buscou a ti, nas águas do Rio Capim, que desde a alma deste povo fala a sua língua, entende suas nuances e sabe colher o friso das palavras”, declarou Dom Carlos. Ao lembrar da partida de Manoel para o Alagoas anos atrás, ele destacou o coração missionário que agora volta maduro, “tua chegada marca um novo tempo. O primeiro abraço e a primeira obediência serão meus”.
O rito seguiu com a leitura da Bula Pontifícia, enviada pelo Papa Leão XIV. Através das palavras do Santo Padre, Dom Manoel foi desligado de seus vínculos com Palmeira dos Índios (AL) para assumir o compromisso com Castanhal. A carta exortou o novo bispo a dedicar suas forças à pregação e à oração, confiando que o clero e o povo oferecerão a ele “sinais de amor filial e obediência”.
Quando Dom Manoel subiu ao ambão para sua primeira homilia como bispo diocesano, a catedral silenciou para ouvir o homem por trás da mitra. Com uma honestidade desconcertante, ele confessou,”Sinto o famoso frio na barriga, nas entranhas, que nos ataca em momentos como este”.
Inspirado pelo chamado de Mateus no Evangelho, Dom Manoel traçou um paralelo com sua própria vida. “Ele me viu e me chamou enquanto eu lavrava a terra junto com os meus pais”, disse, apontando para sua mãe na assembleia, em um dos momentos de maior comoção. O novo bispo enfatizou que sua missão será pautada pelo “olhar de Jesus”, um olhar que não rotula, mas que acolhe e enxerga potencial onde o mundo vê pecado.
Dom Manoel foi enfático ao dizer que traz na bagagem uma “alma com marcas nordestinas”, fruto de seus sete anos em Alagoas, mas que chega com a humildade de quem precisa reaprender sua terra. Ele emocionou a todos ao citar o pedido de duas crianças, João Pedro e Maria Helena, que pediram um “coração que não negue ninguém, especialmente os pequeninos”. Essa, garantiu o bispo, será sua bússola, uma Igreja de acolhida e escuta.
A sinodalidade da Igreja se fez presente nos discursos dos bispos irmãos. Dom Irineu Roman, presidente do Regional Norte 2, definiu o momento como o retorno de um filho ao “colo da sua gente”. Ele rendeu graças ao legado de dignidade deixado por Dom Carlos, o bispo com “cheiro de ovelha”, e deu as boas-vindas ao sucessor que “conhece o sotaque e as dores da sua ovelha”.
A profundidade teológica veio com Dom JulioAkamine, Arcebispo de Belém, que usou a “porta estreita” da catedral como metáfora da vida cristã, lembrando que a cruz, sob o pastoreio de Dom Manoel, deve ser o “bastão e o cajado” que sustenta o povo.
Do Nordeste, Dom Carlos Alberto Breis, Arcebispo de Maceió, trouxe o testemunho do rastro de afeto que Dom Manoel deixou no sertão alagoano, enquanto Dom Raimundo Possidônio. Bispo da Diocese de Bragança quebrou a formalidade com o humor regional. Entre brincadeiras sobre o “cajado para as cobras grandes” da Amazônia, Dom Cid entregou o presente mais simbólico da vizinhança, a imagem de São Benedito e a famosa farinha de Bragança, selando a colegialidade entre as dioceses.
A importância de Dom Manoel para o cenário paraense foi ratificada pela presença de autoridades como o Senador Beto Faro, representando o Governo do Estado, além de prefeitos e deputados. O reconhecimento do papel social da Igreja foi visível até na saudação especial do bispo aos apenados das penitenciárias da região, reforçando seu compromisso com os excluídos.
O encerramento da celebração trouxe o alento final aos fiéis que temiam a partida de seu antigo pastor. Dom Manoel confirmou “Dom Carlos Verzeletti permanecerá em Castanhal”. O bispo emérito continuará residindo na diocese, colaborando de forma discreta e fraterna.
Essa união entre o novo e o antigo garante que o caminho trilhado por Dom Carlos agora ganha novos passos com Dom Manoel. A posse não foi apenas um evento administrativo; foi um encontro de vozes, presentes e orações que clamam por uma Igreja vibrante. Castanhal agora caminha sob o olhar de um “Filho do Capim” que, com a vida nas mãos, prometeu, “não tenho ouro nem prata, tenho apenas a minha vida para caminhar com vocês”.
Que o ministério de Dom Manoel seja, como ele mesmo desejou, uma festa na casa de Mateus, onde todos têm lugar à mesa e ninguém fica fora do coração do pastor.
Dentre os convidados, religiosos, clero e a comunidade local, estiveram presentes por Dom Irineu Roman – presidente do Regional Norte 2 e arcebispo de Santarém, Dom José Maria Chaves dos Reis – vice-presidente do Regional Norte 2 e bispo da Diocese de Abaetetuba, Dom Antônio de Assis – secretário do Regional Norte 2 e bispo da Diocese de Macapá, Dom JulioEndiAkamine – arcebispo de Belém, Dom Paulo Andreolli – bispo auxiliar da Arquidiocese de Belém, Dom Alberto Taveira – arcebispo emérito de Belém, Dom João Muniz – bispo da Diocese de Xingu Altamira, Dom Ivanildo Oliveira de Almeida – bispo da Diocese de Cametá , Dom Raimundo Possidônio – bispo da Diocese de Bragança, Dom Jesus Maria CizaurreBerdonces – bispo emérito da Diocese de Bragança, Dom JesúsMaría López Mauleón – bispo da Prelazia do Alto Xingu Tucumã , Dom Jose Ionilton Lisboa – bispo da Prelazia do Marajó, e Dom Carlos Alberto Breis Pereira, arcebispo metropolitano de Maceió, do Regional Nordeste 2.
Fonte: Regional Norte 2 | Por VívianMarler
Fotos: Gildo Neto | TV Mãe Deus – Pascom Castanhal





