
Cânticos e danças, música de ritmo contagiante, aplausos estrondosos para expressar a alegria pela chegada do Papa a esta região do noroeste de Camarões, marcada por tensões e violência.
A solenidade na África não consiste em rituais litúrgicos pomposos, paramentos preciosos, incenso e ministros no altar. A solenidade na África são as senhoras de sorrisos largos, vestindo os grandbouboue ou túnicas com desenhos tribais e o rosto do Papa, que cantam “HolyFather” ou sopram as vuvuzelas (lembrança indelével da Copa do Mundo de 2010). São os homens que batem sem parar no balafon — uma espécie de xilofone de madeira — para marcar o ritmo para os companheiros que esboçam passos de dança. São as flores de cores variadas, são as faixas um tanto desgastadas nas escadarias e colunas, são as imagens gigantescas do rosto de Jesus e do Papa, são os cartazes que invocam uma paz duradoura para esta terra deixada um pouco à margem e, certamente, ignorada pela imprensa internacional. E assim, nesse sentido, foi solene o Encontro pela Paz que Leão XIV presidiu na manhã de quinta-feira (16/04) na Catedral de São José, na zona de Big Mankon, em Bamenda, rebatizada pelo Papa como “thecityupon a hill”, “a cidade sobre o monte, esplêndida aos olhos de todos”.
“Mensageiro de paz”
O Pontífice – que partiu pela manhã de avião de Yaoundé (voo de cerca de 50 minutos) – quis incluir no rico programa da sua viagem à África também uma parada na capital desta região do noroeste de Camarões, principal centro urbano e cultural da área anglófona, marcada por sangue e violência. A chamada “Guerra da Ambazonia”, uma história extremamente complexa que tem suas raízes no colonialismo e envolve também questões de separatismo e federalismo.
Ao ver essas pessoas cantando e dançando, sorrindo e pulando, parece, no entanto, que os únicos problemas na vida sejam o calor insuportável, a terra vermelha que entra nos olhos e nas narinas, os mosquitos tão robustos que reproduzem o mesmo ruído dos drones. Em vez disso, a guerra existe, assim como a precariedade, a aridez, a pobreza visível nas lojas e nas casas, muitas das quais nada mais são do que esqueletos de tijolos vermelhos. Hoje, porém, está aqui também o Papa, “mensageiro da paz”, como dizem os cartazes espalhados pelas avenidas empoeiradas da cidade. As pessoas estão convencidas de que ele pode realmente dar impulso a esse processo. A trégua de três dias anunciada pelos grupos separatistas já pareceu para alguns um sinal de Deus, apesar de a cidade permanecer sob vigilância máxima.
O legado do Papa
Um estrondo saudou a entrada do Papa na catedral, dominada por um vitral com os rostos de São Paulo VI e São João Paulo II. De modo geral, todo o evento foi marcado por uma certa “agitação”, entre o eco dos gritos e aplausos das pessoas que permaneceram do lado de fora acompanhando o encontro nos telões e as reações animadas dessa plateia colorida, dividida em grupos, reconhecíveis pelo que usavam na cabeça: um lenço, um zulu bordado, um tagelmust ou um chapéu com penas ou até mesmo fios secos extraídos de um elefante, como no caso dos Fon, os “reis” das aldeias de Bamenda. Aplausos estrondosos marcaram os diversos depoimentos antes do discurso do Papa, manifestações de emoção e até algumas risadas, como na piada sobre a poligamia feita pelo chefe tradicional supremo de Mankon, FonAngwafor III.
Em silêncio, todos ouviram o Papa ler o discurso em inglês, durante o qual, várias vezes, o Pontífice elevou o tom de voz para enfatizar a palavra “paz” e as advertências contra “aqueles que distorcem as religiões e o próprio nome de Deus para seus objetivos militares, econômicos e políticos, arrastando o que é santo para o que há de mais sujo e tenebroso”. Gritos de admiração acompanharam, por outro lado, o voo de uma pomba branca que o Papa, em frente à Catedral de São José, lançou para o céu. Um gesto simbólico para invocar a paz que se espera que se torne uma ação concreta.
Fonte: Vatican News /Salvatore Cernuzio – enviado a Bamenda, Camarões

