Luis Fernando Zandoná: “o Papa falou o que a gente precisava ouvir”.
Tem documentos que chegam na hora certa. Não por acaso — mas porque alguém prestou atenção ao que estava acontecendo no mundo e teve a coragem de dizer em voz alta.
A encíclica Magnifica humanitas, assinada pelo Papa Leão XIV em 15 de maio de 2026, é um desses documentos. Publicada no 135º aniversário da RerumNovarum — aquela que inaugurou a Doutrina Social da Igreja lá em 1891 —, ela chega num momento em que o debate sobre inteligência artificial domina empresas, redações, salas de reunião, universidades e, cada vez mais, as conversas de mesa de jantar.
E o Papa entrou nesse debate de frente.
Não é um documento técnico. É um documento humano
A primeira coisa que surpreende em Magnifica humanitas é o tom. Leão XIV não escreve como quem quer regular a tecnologia. Ele escreve como quem está preocupado com as pessoas. Com os trabalhadores que veem seus empregos ameaçados por algoritmos. Com os adolescentes que crescem reféns de plataformas projetadas para explorar suas vulnerabilidades. Com os países pobres que se tornam reservatórios de dados — as novas “terras raras” do poder digital.
Essa preocupação não é nova na Igreja. Mas a encíclica a articula com uma clareza que faz falta no debate público atual, dominado ora pelo entusiasmo acrítico com a IA, ora pelo pânico apocalíptico.
O Papa propõe algo diferente: discernimento.
Babel ou Jerusalém?
Para organizar seu raciocínio, Leão XIV recorre a duas imagens bíblicas que qualquer pessoa — católica ou não — consegue entender.
A Torre de Babel: o projeto grandioso, construído sem referência a Deus, movido pelo orgulho e pela ilusão de autossuficiência. Que termina em dispersão e incompreensão.
E a reconstrução de Jerusalém por Neemias: um trabalho coletivo, feito por partes, onde cada família recebe um trecho da muralha para cuidar. Sem heróis solitários. Com corresponsabilidade.
A pergunta que o documento faz — e que todo gestor, todo desenvolvedor, todo jornalista deveria se fazer — é simples: o que estamos construindo? Uma nova Babel ou uma nova Jerusalém?
O que o Papa diz sobre IA que ninguém mais está dizendo
Há um parágrafo na encíclica que me parou. O Papa afirma que as inteligências artificiais modernas são mais “cultivadas” do que “construídas”: os programadores não projetam todos os detalhes, eles criam uma arquitetura sobre a qual a IA “cresce”. E, por isso, aspectos fundamentais do seu funcionamento permanecem desconhecidos até para quem as criou.
Isso não é discurso de papa. É o que os próprios pesquisadores do campo chamam de “caixa-preta”. E o documento usa isso para um argumento poderoso: se não sabemos como esses sistemas funcionam por dentro, como podemos confiar a eles decisões sobre crédito, emprego, saúde, liberdade?
A encíclica não pede que paremos a tecnologia. Pede que não abdiquemos da responsabilidade humana sobre ela.
Um texto que fala da vida real
Trabalho numa instituição de saúde filantrópica e católica. Sou pai. Tenho 36 anos. E leio esse documento com os dois olhos abertos para o cotidiano.
Quando o Papa fala sobre a precariedade laboral dos jovens, não é abstrato para mim — é o filho do vizinho que não consegue se estabilizar. Quando ele fala sobre o impacto das redes sociais na saúde mental de adolescentes, é uma conversa que terei com meu filho mais cedo do que gostaria. Quando ele fala sobre o trabalho invisível de pessoas que treinam modelos de IA por salários mínimos, estou pensando em dignidade humana — que é, afinal, o que minha instituição defende todos os dias.
Magnifica Humanitas não é uma encíclica para teólogos. É uma encíclica para quem vive o mundo como ele é.
O que fica
No final, o Papa cita Tolkien — sim, J.R.R. Tolkien — para falar de responsabilidade: “Não nos compete dominar todas as marés do mundo, mas sim fazer o que nos for possível para ajudar os anos em que estamos inseridos.”
É uma frase que cabe no bolso. E que resume bem o espírito do documento: não é sobre salvar o mundo com um gesto grandioso. É sobre fazer a sua parte, no seu trecho da muralha, com honestidade e cuidado.
Numa época em que o debate público sobre IA oscila entre o messianismo tecnológico e o catastrofismo, a Igreja oferece algo mais raro: serenidade com responsabilidade. Um convite a construir, não a destruir. A permanecer humanos — magnificamente humanos — mesmo quando as máquinas ficam cada vez mais sofisticadas.
Vale a leitura. Vale a conversa. Vale levar para a sua equipe, para a sua família, para a sua mesa de reunião.
Luis Fernando ZandonáSalom – jornalista (pós-graduado em Gestão Estratégica e Gestão Hospitalar. Gestor de Comunicação e Marketing da Irmandade da Santa Casa de Misericórdia de Curitiba — instituição com mais de 170 anos de história e administradora do hospital em funcionamento mais antigo do Paraná)

