
Quinze anos depois da última visita, a Espanha recebe um papa novamente hoje (6). As imagens de Bento XVI em CuatroVientos, sob uma chuva torrencial, durante a Jornada Mundial da Juventude de 2011, permanecem vivas na memória coletiva.
Aquela viagem não foi uma visita de Estado, pois ocorreu no âmbito da JMJ. Portanto, Bento XVI não foi recebido no Palácio Real, mas na Praça de Cibeles, onde milhares de jovens o acolheram. Depois, realizou um encontro privado no Palácio da Zarzuela com a Família Real, então chefiada pelo pai do atual Rei, Juan Carlos I.
Nesta ocasião, o contexto foi diferente. Ao desembarcar no Aeroporto Adolfo Suárez Madrid-Barajas, o papa dirigiu-se diretamente à residência oficial do rei e da rainha. Lá, foi recebido com todas as honras pelo rei Felipe VI, pela rainha Letizia e suas filhas, as princesas Leonor e Sofía.
Desde seu primeiro discurso às autoridades e ao corpo diplomático, o papa deixou claro o propósito de sua viagem: “Venho até vós para confirmar, encorajar e inspirar uma renovada fidelidade ao Evangelho de parte dos fiéis, bem como uma reconciliação e uma cooperação mais profundas entre as diferentes forças desta nação”.
Sem Ideologias pré-fabricadas
Uma mensagem de paz que, segundo ele, “nestes tempos, infelizmente, ressoa para alguns como ingênua e para outros como provocadora”, mas “encontra acolhimento em quem não se fecha em ideologias pré-fabricadas, mas se abre à verdade”.
“A verdade é sempre maior do que nós e, por isso, surpreende-nos e atrai-nos para caminhos de purificação e reconciliação, nos quais o diálogo com os outros – e com “o Outro”, com maiúscula – torna-se fundamental”, acrescentou.
No discurso, o papa citou dois grandes místicos espanhóis do século XVI, são João da Cruz e santa Teresa de Ávila, unidos — como recordou — por sua “paixão pelo Mistério divino”. Apresentou-os como exemplos de uma “mística de olhos abertos”, ou seja, “não alheia à história, conduzindo, pelo contrário, à raiz das questões, ao coração da realidade”.
O papa também aludiu aos temores contemporâneos provocados pela “escuridão da razão e a violência das emoções” e propôs como antídoto a necessidade de homens e mulheres “que intuam na escuridão a luz”
Para ilustrar essa ideia, evocou a imagem do “castelo interior” desenvolvida por santa Teresa de Ávila.
Longe de propor uma espiritualidade escapista, o papa disse que “não se trata de uma fuga intimista, mas de uma radical abertura ao totusAlius et semperNovus”, expressão teológica que se refere à transcendência de Deus e que “se realiza quando voltamos a nós mesmos”.
Proteger a liberdade religiosa e de consciência
“Esta dimensão do ser humano é o motivo pelo qual é preciso proteger a liberdade religiosa e de consciência”, disse.
Ele também citou santo Inácio de Loyola, que “preferiu a paz às armas e os santos aos poderosos”, e lembrou o trabalho da Escola de Tradutores de Afonso X, o Sábio, onde especialistas das três religiões colaboraram na transmissão do conhecimento clássico e medieval. Mencionou pensadores como Averróis (1126-1198) e Maimônides (1138-1204) como exemplos da possibilidade de cooperação entre as tradições religiosas para o bem comum.
“A nossa época, que aparentemente se vê abalada por terríveis desequilíbrios e conflitos, no seu íntimo clama por paz, por um novo conhecimento da pessoa humana e da sua dignidade inviolável, pela civilização do amor”, disse, citando a sua encíclica Magnifica humanitas, publicada em 25 de maio.
O papa falou de uma das características mais marcantes do atual contexto político na Espanha: a polarização.
“Hoje, a tentação de ganhar popularidade atiçando o fogo das polarizações parece crescer, em vez de diminuir; a dignidade humana continua a ser violada.”, lamentou. Por essa razão, ele pediu uma “educação livre e de qualidade” que ensine os jovens sobre a transcendência.
Ciente da tensão social e política, o papa exortou a “abandonarem as narrativas divisórias e polarizadoras da vossa realidade social e da vossa história, a fim de que se passe das simplificações estéreis a uma apreciação fecunda da complexidade”.
Ele fez esse apelo no contexto da vocação europeia da Espanha, a qual definiu como “protagonista original e fundamental”. Ele exortou a valorizar a complexidade como uma riqueza “aprendendo a vivê-la como uma bênção – ao invés de negá-la – e fugindo das abordagens identitárias que parecem esclarecer tudo, mas que povoam o mundo de fantasmas e inimigos”.
Uma visita com dimensão internacional
A visita de Leão XIV à Espanha — a nona de um papa a este país — transcende a esfera nacional, constituindo um passo significativo no diálogo do papa com o mundo ocidental contemporâneo, no qual a Igreja Católica desempenha um papel fundamental.
O rei Felipe VI, como anfitrião, também destacou isso, falando antes do papa e enfatizando a voz do papa como um farol moral universal, não apenas para os católicos: “Hoje ele é uma fonte de inspiração para mais de 1,4 bilhão de fiéis; mas o seu conteúdo ético ressoa muito além disso, em todas as consciências”.
“A Igreja Católica está ao serviço desta sede do coração humano. Não de forma impositiva, mas com o testemunho do Evangelho, apoiado por uma multidão de mártires e santos, e hoje está pronta para se colocar ao serviço do futuro de um povo que busca a reconciliação e a paz”, disse. “A fé católica está enraizada em nosso país e sem ela – como bem sabem – nossa história e nossa cultura seriam incompreensíveis”, declarou Felipe VI.
O papa também manifestou seu apreço pelo papel internacional da Espanha: destacou “sua fidelidade ao direito internacional e ao multilateralismo”, bem como seu “compromisso com a paz e a solidariedade entre os povos”. Ele encorajou o fortalecimento do diálogo interno, a atenção aos mais vulneráveis e a “harmonizar as exigências de autonomia e de unidade”.
Este não foi o primeiro encontro entre os reis e o papa, que se repetirá em Barcelona durante a inauguração da Torre de Jesus na Basílica da Sagrada Família.
No dia 20 de março, Felipe VI e Letizia viajaram a Roma, onde o monarca foi investido como protocônego da Basílica de Santa Maria Maior, numa cerimônia que destacou os laços históricos entre a monarquia espanhola e esta igreja.
Também assistiram à missa de inauguração do pontificado de Leão XIV, a 18 de maio do ano passado.
Fonte: ACI Digital / Por Victoria Cardiel



