As mulheres da genealogia de Jesus

Raab escondeu os espiões enviados por Josué na tomada de Jericó, além de professar a fé em Deus
Raab escondeu os espiões enviados por Josué na tomada de Jericó, além de professar a fé em Deus

Monsenhor Ronaldo Menezes – Vice-Presidente da Fundação Nazaré de Comunicação

O título acima não corresponde a todo o conteúdo do artigo, pois meu desejo é lhe proporcionar uma visão bem geral da genealogia de Jesus, a partir de alguns elementos que, geralmente, passam despercebidos. Por exemplo, São Mateus equipara a encarnação e o nascimento de Jesus à segunda criação, e esta é definitiva. Basta olhar o início do seu relato: “Livro da origem de Jesus Cristo” e comparar com o Gênesis no relato da criação: “Eis o livro da descendência de Adão…” (Gn 5,1). De fato, com Cristo Jesus, Deus começa uma nova criação, e Cristo dá origem a uma nova humanidade.

Outro detalhe na leitura da genealogia está na relação das pessoas em cada bloco. O destaque no início é a realeza de Davi, o grande rei de Israel. Porém, em seguida, a deportação ou o desterro para a Babilônia, a partir do versículo 12, as pessoas que aparecem citadas não possuem nenhuma nota de realeza. Uma leitura muito sensível desta diferença é o fato de que Cristo Jesus cria uma nova casa de Davi e, portanto, um novo tipo de realeza. O reino do Filho de Deus é diferente do reino de Davi, que teve fim. O reino de Jesus, o Filho de Deus, não terá fim, e está além de toda compreensão humana.

Agora sim, apresento as mulheres. Na linha genealógica de Jesus aparecem quatro mulheres: Tamar, Raab, Rute e Betsabé, a que foi “mulher de Urias”, um general do rei Davi. Observe que elas estão ligadas aos seus respectivos maridos, mas a figura delas não é sem importância. Quem são estas mulheres? Alguns continuam insistindo que são pecadoras, à exceção de Rute, modelo de virtude e de lealdade. Com base nas Sagradas Escrituras, creio excessivo alguém continuar dizendo que eram pecadoras. Tamar, por exemplo, foi reconhecida pelo próprio sogro, que a tratou mal, como justa; ele disse, referindo-se a ela: “Ela é mais justa do que eu” (Gn 38,26). Raab, ainda que pagã, foi celebrada como heroína, bastando recordar seus feitos (recomendo que você leia os relatos da conquista de Jericó por Josué). Quanto a Betsabé, Davi a raptou (cf. 2Sm 11,4; 12,1-14), não que ela não pudesse repudiar ao rei, mas a força prevaleceu. Assim, não podemos imputar toda a culpa nessas mulheres, ou considerá-las pecadoras. Deus quis que elas estivessem na linha mais nobre de toda a humanidade.

As quatro mulheres da genealogia de Jesus parecem ter algo em comum: são estrangeiras. Tamar e Raab, de fato, eram de Canaã. Rute era moabita. Betsabé era esposa de um homem hitita, Urias, e, possivelmente, fosse ela também estrangeira; nada se diz a respeito. Em todo o caso, nelas subsiste a ideia de que o Senhor Jesus veio para salvar a todos, também os povos considerados pagãos. Mas há algo mais nessas quatro mulheres, que as distingue: todas tiveram uma ação determinante para o destino do povo eleito. Tamar, por sua astúcia, impediu que se extinguisse a raça de Judá, ao qual foi feita a promessa, pela boca de Jacó, do Redentor, o Messias; leia Gênesis 38 e 49,10. Raab escondeu os espiões enviados por Josué na tomada de Jericó, além de professar a fé em Deus (leia Josué 2), sendo considerada na Carta aos Hebreus como modelo de fé (Hb 11,31). Rute, depois que seu marido morreu, seguiu sua sogra, Noemi; casou-se com Booz, gerou um filho, Obede, que foi avô do rei Davi. Betsabé intercedeu a Davi para que seu filho, Salomão, e não Adonias, ascendesse ao trono de Israel (cf. 1Rs 1,11-40), fazendo cumprir a profecia de Natan (2Sm 7,8-16; 12,24-25). Parece-me interessante observar que nas quatro gestações dessas quatro mulheres – Tamar, Raab, Rute e Betsabé, o modo não foi tão regular, embora não se possa afirmar que foi pecaminoso. Com isso, foram determinantes para o cumprimento da vontade soberana de Deus a respeito do seu desígnio de salvação. Certamente, existem outras interpretações, outras opiniões acerca da presença das quatro mulheres na genealogia de Jesus, mas é inegável o fato de que elas não estão aí por acaso.

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