Fórum da CEPAST-CNBB

“Minha Comunidade Eclesial Transforma o Mundo!”

Representantes de pastorais sociais, organismos e articulações regionais participam, de 5 e 7 de agosto, do ‘Fórum da Comissão Episcopal para a Ação Sociotransformadora da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CEPAST-CNBB)’. Com o tema “Minha Comunidade Eclesial Transforma o Mundo!” e o lema “Alarga o espaço de sua tenda” (Is 54,2), o encontro é realizado na Casa Dom Luciano Mendes de Almeida, em Brasília.

Participam do Fórum a Irmã Maria Rejiane da Mata Dias, coordenadora de pastoral do Regional Norte 2, e Dom José Ionilton Lisboa, bispo da Prelazia do Marajó, membro da Comissão Episcopal Pastoral para o Serviço da Caridade, da Justiça e da Paz (Comissão Sociotransformadora) e presidente Comissão Pastoral da Terra (CPT) , entre outros representantes dos regionais e das pastorais sociais do Brasil.

O encontro tem como objetivo fortalecer as redes de articulação das pastorais e ampliar a incidência dos regionais diante dos desafios atuais da sociedade. As reflexões também estão sendo realizadas à luz das ‘Novas Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora da Igreja no Brasil, para o período de 2026 a 2032’, e do caminho sinodal vivido pela Igreja.

A programação está organizada a partir de três movimentos,’ver, julgar e discernir, e agir’. A proposta é olhar com atenção para a realidade brasileira, interpretar os sinais dos tempos à luz do Evangelho e construir respostas pastorais capazes de transformar as comunidades e a sociedade.

Na manhã desta quinta-feira, os participantes viveram um momento celebrativo marcado por símbolos que expressaram a diversidade e a unidade do Brasil.

Para a coordenadora de pastoral do Regional Norte 2, a celebração ajudou os participantes a renovar a disposição para continuar caminhando juntos, especialmente diante dos desafios sociais e pastorais apresentados ao longo do Fórum.

O momento também contou com a participação de bispos da Comissão Episcopal para a Ação Sociotransformadora, que animaram os representantes a permanecerem firmes no serviço às comunidades e na defesa da vida, da justiça e dos direitos humanos.

A programação desta quinta-feira também retomou as discussões realizadas pelas articulações pastorais no dia anterior. Representantes das Pastorais do Campo, das Pastorais Urbanas, da Pastoral da Mobilidade Humana e das Pastorais do Cuidado com a Vida e a Saúde apresentaram desafios, alegrias e esperanças presentes em diferentes territórios do país.

Entre os temas abordados estiveram as violações dos direitos humanos e do direito humanitário internacional, o aumento da fome, as migrações forçadas, a expansão da mineração e a dificuldade de reduzir os impactos ambientais provocados por grandes projetos.

Também foram citados o enfraquecimento da democracia, a fragilização dos órgãos de controle social, a formação tecnicista da juventude voltada exclusivamente para o mercado de trabalho e os impactos da crise de saúde mental entre os jovens.

A preocupação com a transmissão da fé e com a recepção das novas Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora também esteve presente nas partilhas. Os participantes ressaltaram a necessidade de aproximar a ação pastoral das realidades concretas vividas pelas comunidades, especialmente por aquelas que enfrentam pobreza, violência, deslocamentos e abandono do poder público.

Na avaliação da Irmã Rejiane, as discussões reforçaram que a ecologia integral não pode ser separada da justiça social. Ela também chamou atenção para a necessidade de a Igreja renovar sua linguagem e suas formas de comunicação, especialmente no diálogo com os jovens e com as realidades urbanas. “A ecologia integral e a justiça social precisam caminhar juntas. Também precisamos melhorar a nossa comunicação e a nossa linguagem, porque muitas vezes elas já não conseguem dialogar com as juventudes e com as novas realidades urbanas. É necessário encontrar novas formas de comunicação popular e de aproximação com as pessoas”.

As Pastorais Urbanas, por sua vez, refletiram sobre a crise climática, a precarização do trabalho, a perda dos vínculos comunitários e o individualismo provocado pelo isolamento e pelo uso excessivo das tecnologias.

Também foi apontada a necessidade de renovar a comunicação da Igreja, especialmente no diálogo com as juventudes e com as realidades urbanas. Para os participantes, a linguagem pastoral precisa ser atualizada para que consiga estabelecer pontes com as novas gerações.

A ecologia integral foi apresentada como uma dimensão inseparável da justiça social. Cuidar da Casa Comum significa também defender as pessoas, os territórios, os povos tradicionais e as comunidades ameaçadas por projetos econômicos que desrespeitam a vida.

As discussões também abordaram as diversas formas de violência que atingem a população brasileira, especialmente mulheres, crianças, adolescentes, pessoas encarceradas, idosos e comunidades tradicionais. O aumento do feminicídio, o machismo, o abuso de poder, o encarceramento em massa e a cultura punitiva foram apresentados como sinais de uma sociedade que precisa rever suas práticas e fortalecer políticas de prevenção, cuidado e justiça.

A Pastoral Carcerária destacou a importância da formação de seus agentes e da defesa da justiça restaurativa. Também foi manifestada preocupação com propostas legislativas que podem ampliar a criminalização de ações pastorais e sociais desenvolvidas junto às pessoas privadas de liberdade.

Os participantes ressaltaram ainda a necessidade de ampliar a incidência política da Igreja, fortalecer os conselhos de direitos e acompanhar a elaboração e a execução das políticas públicas.

A articulação do Cuidado com a Vida e a Saúde apresentou situações que exigem maior atenção da Igreja e da sociedade. Entre elas estão o preconceito contra as pessoas idosas, os golpes digitais aplicados contra essa população e as dificuldades enfrentadas por pessoas surdas para acessar os sacramentos, especialmente a confissão. Também foram abordados o uso de drogas por crianças e adolescentes, os transtornos relacionados aos jogos eletrônicos, o sofrimento psíquico e os casos de suicídio.

A Pastoral da AIDS destacou os desafios provocados pela precarização do Sistema Único de Saúde e pela rotatividade dos profissionais responsáveis pelo atendimento às pessoas que vivem com HIV. Para a Irmã Rejiane, essas realidades mostram que a presença da Igreja precisa ser qualificada, organizada e capaz de oferecer escuta, encaminhamento, formação, defesa de direitos e acompanhamento.

A equipe nacional da CEPAST reforçou a necessidade de fortalecer a formação e a qualificação política dos agentes pastorais. Também foram apontadas como prioridades a educação popular, a justiça econômica, a soberania, o acompanhamento legislativo e o controle social.

A proposta é que as pastorais não se afastem da realidade, mas estejam presentes nos territórios, ouvindo as comunidades e ajudando a construir respostas coletivas. Nesse sentido, foram discutidas estratégias de financiamento por território, alianças público-populares e formas de ampliar a participação da sociedade nas decisões que afetam a vida das comunidades.

A defesa da titulação das terras quilombolas e indígenas, o direito à terra, a proteção das comunidades pesqueiras e tradicionais e a sustentabilidade das pastorais sociais também estiveram entre os temas tratados.

Os participantes refletiram ainda sobre a necessidade de recuperar a dimensão profética da Igreja, denunciando as injustiças e anunciando caminhos de esperança. A missão evangelizadora, segundo as reflexões do Fórum, não pode ser separada do compromisso com a dignidade humana.

No período da tarde, o padre Leandro Megeto, subsecretário-geral da CNBB, apresentou as ‘Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora da Igreja no Brasil 2026-2032’. A Irmã Rejiane explicou que a apresentação das Diretrizes foi realizada em uma perspectiva de oração, escuta e abertura do coração. O padre Leandro Megeto relacionou o documento ao Concílio Vaticano II, ao legado do Papa Francisco e ao caminho de renovação proposto pelo Papa Leão XIV, “as Diretrizes são fruto de um caminho sinodal e exigem de nós profundas transformações. Precisamos recebê-las com escuta, oração e participação. É necessário ter uma abertura de coração para acolher o que o Espírito está nos dizendo e para não deixar de nos converter diante delas”.

A imagem da ‘Igreja como tenda do encontro’ aparece como uma das chaves de leitura do documento. As estacas da tenda simbolizam a fé, a esperança e a caridade, enquanto sua abertura expressa uma Igreja chamada à comunhão, à participação e à missão.

A tenda é também apresentada como espaço de acolhida para as fragilidades humanas e como lugar de encontro com Cristo. Nesse horizonte, a Igreja é chamada a anunciar Jesus Cristo também às pessoas afastadas e àquelas que ainda não fazem parte da comunidade cristã.

O segundo capítulo das Diretrizes, conforme apresentado no Fórum, trata da necessidade de reconhecer os sinais dos tempos. Entre os sinais de esperança foram destacados a Eucaristia, a Palavra de Deus, a iniciação à vida cristã, o protagonismo dos leigos, a piedade popular e a ação das pastorais.

Também foram reconhecidos sinais de preocupação, como o individualismo, as polarizações, a crise do compromisso comunitário, a perda do sentido de pertença e o enfraquecimento da fé transmitida entre as gerações. O documento propõe que a Igreja faça um discernimento comunitário sobre essas realidades e busque respostas pastorais que unam espiritualidade e compromisso social.

No terceiro capítulo, voltado ao discernimento para uma Igreja sinodal, foi ressaltada a importância de caminhar juntos, respeitar as diferenças e zelar pela comunhão. A pastoral deve ser decididamente missionária, mas sem transformar a missão em excesso de atividades. A reflexão retomou o ensinamento do Papa Francisco de que não são necessariamente as muitas atividades que geram cansaço e desânimo, mas a dificuldade de viver bem aquilo que se realiza.

A realidade da juventude brasileira também recebeu atenção durante o Fórum. Os participantes refletiram sobre o adoecimento psíquico, a dependência digital, a solidão, o racismo, a fragilidade dos vínculos familiares e a dificuldade de transmitir a fé às novas gerações.

Foi reforçada a necessidade de estabelecer uma relação mais próxima com os jovens, oferecendo espaços de escuta, participação e protagonismo. A juventude não deve ser vista apenas como destinatária das ações pastorais, mas como sujeito da missão da Igreja.

A Irmã Rejiane destacou que é preciso perguntar quanto tempo as pastorais estão realmente dedicando às juventudes e se a Igreja tem criado oportunidades concretas para que os jovens participem das decisões e da vida comunitária. O planejamento participativo, a aproximação com escolas e comunidades e o fortalecimento dos conselhos foram apresentados como caminhos para uma presença mais efetiva junto aos jovens.

Ao longo do dia, os participantes também trabalharam em grupos para identificar iniciativas sociais transformadoras desenvolvidas pelas pastorais e pelos regionais. As experiências foram reunidas em um mapa de contribuições, que deverá ajudar a visualizar a diversidade de ações existentes no país.

O Fórum da CEPAST-CNBB segue até a próxima sexta-feira, 7 de agosto, na Casa Dom Luciano Mendes de Almeida, em Brasília. A programação será concluída com apresentação e reflexão sobre o Dia dos Excluídos.

Para a Irmã Rejiane, o dia foi marcado por uma consciência renovada de que a missão sociotransformadora exige presença, escuta e corresponsabilidade. “Entre desafios e esperanças, o encontro reafirma que a Igreja precisa estar próxima das pessoas, dos territórios e das situações que clamam por justiça. Uma Igreja que alarga sua tenda, fortalece suas comunidades e transforma o mundo não apenas por suas palavras, mas pela capacidade de caminhar com o povo e defender a vida em todas as suas dimensões”, disse.

A noite desta quinta-feira foi concluída com uma confraternização, após momento orante e uma vigília, reunindo os participantes em atitude de oração, comunhão e renovação da missão.

Fonte: Regional Norte 2 / Por VívianMarler

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