O Pastor que não abandona

Dom Paulo Andreolli, SX – Bispo auxiliar de Belém

Caros leitores, neste4º Domingo da Páscoa, conhecido como o “Domingo do Bom Pastor”, vamos refletir sobre a imagem de Jesus como o Bom Pastor,Aqueleque nãoabandona seu rebanho. Somos ainda convidados a rezar pelas vocações, neste 63º Dia Mundial de Oração pelas Vocações. Em sua mensagem para esta ocasião, o Papa Leão nos afirma que “a vocação é a descoberta do dom gratuito de Deus que floresce no mais profundo do coração de cada um de nós”. E para esta partilha, conto com a colaboração do missionário Xaveriano, padre René Casillas Barba, SX.

Inicialmente, cabe destacar que existe um tipo de liderança amplamente reconhecível na experiência humana: aquela que se manifesta apenas em contextos favoráveis, mas se ausenta quando surgem desafios reais. Trata-se de uma liderança sustentada por discursos elaborados e promessas grandiosas, porém, incapaz de assumir responsabilidade quando a realidade exige presença. A Escritura denomina essa postura de mercenária, pois se orienta mais pela autopreservação do que pelo cuidado autêntico.

Em contraste, Jesus se apresenta no Evangelho deste domingo como o Bom Pastor. Ele afirma: “O bom pastor dá a sua vida pelas ovelhas. O mercenário, que não é pastor e a quem as ovelhas não pertencem, vê o lobo chegar, abandona as ovelhas e foge” (Jo 10,11-12). A distinção fundamental não reside na eloquência, mas na capacidade de permanecer quando o custo é elevado. A autenticidade da liderança se revela precisamente na crise, quando a responsabilidade exige sacrifício.

No campo da filosofia contemporânea, Byung-ChulHan observa que a sociedade atual produz sujeitos exaustos, moldados pela lógica do desempenho e incapazes de vínculos profundos. Para ele, a cultura neoliberal converte relações em transações e reduz o outro a instrumento. Essa crítica ilumina a proposta de Jesus: liderar não é maximizar resultados, mas cultivar presença, escuta e responsabilidade. “Eu conheço as minhas ovelhas e elas me conhecem” (Jo 10,14) expressa uma antropologia relacional que contrasta com a eficiência impessoal dominante.

A compreensão de que Cristo Ressuscitado habita em cada pessoa, que é templo do Espírito Santo, transforma radicalmente a ética do cuidado. Essa convicção não conduz ao fechamento, mas ao envio. Como afirma Raschietti, a missão ad gentes nasce do movimento de Deus que se aproxima do outro, especialmente daquele que ainda não ouviu a voz do Pastor. A ação missionária consiste em ir ao encontro com a mesma ternura e firmeza de Jesus, atravessando fronteiras culturais, sociais e espirituais para oferecer presença, escuta e esperança.

Essa perspectiva suscita questionamentos essenciais: quantos pais conhecem, verdadeiramente, o coração dos filhos? Quantos líderes comunitários compreendem a história das pessoas que acompanham? Quantos agentes públicos conhecem a realidade concreta daqueles que afirmam representar? A liderança inspirada pelo Bom Pastor exige presença efetiva, escuta qualificada e compromisso contínuo.

Uma liderança iluminada por Cristo não se fundamenta na busca de poder, mas na lógica do serviço. Não oprime, porque não teme perder espaço. Não manipula, porque não busca vantagem. Não abandona, porque é movida por um amor que supera riscos e incertezas.

Essa dinâmica se aplica às diversas formas de cuidado: à educação dos filhos, à formação catequética, ao serviço público, à coordenação pastoral e a toda responsabilidade que envolve acompanhar pessoas. Em cada contexto, somos chamados a discernir se agimos como pastores ou como mercenários, se permanecemos ou recuamos, se servimos ou nos servimos.

Cristo ressuscitado continua a conduzir seu rebanho por meio de nossas palavras, gestos e escolhas. Quando exercemos o cuidado com autenticidade e generosidade, tornamo-nos sinal visível de sua presença no mundo.

Para concluir, recordamos que este Domingo, marcado pela celebração do Dia Mundial de Oração pelas Vocações, nos lembra a importância de rezar por aqueles que são chamados ao serviço na Igreja, através da Vida Matrimonial e Consagrada, dos Ministérios Leigos e Ordenados.

Que Maria, a vocacionada do Pai, interceda por nossas comunidades, para que, animadas pelo Espírito Santo, sejam fonte de santas vocações para a missão, no serviço ao povo de Deus.

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