Missões Jesuítas

"Uma história de pedras e de gentes, de passado e de futuro"

Parte interna da igreja – nave central e laterais (Foto Claudete Boff)
Parte interna da igreja – nave central e laterais (Foto Claudete Boff)

Neste ano de 2026 comemoram-se os 400 anos das Missões Jesuítico-Guaranis, um marco fundamental para compreender a formação histórica, cultural e territorial do sul do Brasil e da América Latina. Inseridas no contexto da expansão europeia e da ação evangelizadora da Companhia de Jesus, as Missões contribuíram para a definição de fronteiras, para o desenvolvimento de modelos econômicos coletivos e para o florescimento das artes, da música, da arquitetura e da educação. Mais do que um projeto religioso, as reduções constituíram uma experiência complexa de convivência intercultural, na qual jesuítas e guaranis estabeleceram relações de cooperação, negociação e adaptação cultural.

Para falar deste tema, a Rádio Vaticano/Vatican News conversou com a Prof. Claudete Boff*, docente do curso de Arquitetura e Urbanismo na Universidade Regional Integrada do Alto Uruguai e das Missões (URI – Santo Ângelo, RS). Detentora de um longo curriculum na área acadêmica e do Patrimônio Histórico e Cultura é, entre outros, autora do livro “Imaginária Guarani, o acervo do Museu das Missões”.

Na entrevista, a Prof. Claudete enfatiza o protagonismo dos povos guaranis, rejeitando interpretações que os tratam como meros coadjuvantes da história. Pesquisas recentes mostram sua participação ativa na construção dos povoados, na produção artística, na cartografia, na administração política e até na elaboração de documentos oficiais. A historiografia contemporânea tem revisitado as Missões a partir dessa perspectiva, reconhecendo-as como espaços de intercâmbio cultural, resistência indígena e disputas de poder, superando tanto as visões romantizadas quanto as leituras simplificadas do passado missioneiro.

A docente da URI também destaca que o legado das Missões permanece vivo na identidade regional, na cultura, no cooperativismo, na religiosidade popular e em práticas cotidianas ligadas à alimentação e ao uso da erva-mate. Neste contexto, as comemorações dos 400 anos convidam a refletir sobre diversidade cultural, direitos indígenas e interculturalidade, mostrando que a experiência missioneira continua relevante para os desafios contemporâneos. Também a universidade – como recordou a professora –  desempenha papel essencial na preservação da memória e na produção de conhecimento, por meio da pesquisa, da arqueologia, da formação acadêmica e da valorização do patrimônio histórico e cultural da região.

Neste ano em que celebramos os 400 anos das Missões Jesuítico-Guaranis, qual é a importância desse marco para a história do Brasil, da América Latina e, especialmente, da região das Missões?

O marco das comemorações dos 400 anos nos leva a pensar e revisar o que almejava a Companhia de Jesus e como era o ambiente dos séculos XVI e XVII na Europa.  O mundo ocidental estava ávido por novas conquistas territoriais, somado a isso, o espírito contrarreformista da Igreja Católica na conquista de novos fiéis. A Renascença e o Barroco que foram as grandes expressões da arte e da arquitetura naquela época. Nesse contexto, os Jesuítas se lançaram com tanta coragem e amor à conquista espiritual num mundo desconhecido. Encontraram na América uma população indígena com uma cosmovisão muito diferente do homem ocidental. O nativo, entende o mundo como criação de Ñhanderu e outros seres divinos todos ligados à natureza. O eixo central da cosmologia guarani é a busca da “Terra Sem Males”, que movia as migrações guarani a encontrar lugares melhores para plantar e viver. Este pensamento no espaço reducional se fundiu “com a busca pelo Paraiso.

Salientando porque este marco é tão relevante para o Brasil, América Latina e Região: a) questão geopolítica e território por ter influenciado na definição das fronteiras, no desenho geográfico atual; b) reconhecimento como Patrimônio da Humanidade; c) modelo socioeconômico e cultural tendo como exemplo a produção coletiva, mão de obra qualificada e especialmente no uso da madeira e mais tarde fundição e o florescimento nas artes nas suas diversas expressões: escultura, pintura, teatro, dança e música com produção de instrumentos musicais.

De que forma as Missões Jesuítico-Guaranis podem ser compreendidas hoje: mais como um projeto religioso, político, cultural ou como uma experiência singular de convivência intercultural?

Inicialmente foi um grande projeto religioso. Primeiramente com a criação dos colégios para dar formação religiosa, em seguida a conquista das aldeias levando pinturas da Virgem Maria e dos Arcanjos, acompanhados de cantos e música. Pode-se considerar nesse momento também a proteção dada pelo jesuíta para evitar a escravidão colonial.

Na questão política formaram povoados autossuficientes, com administração própria tendo os caciques como líderes junto às famílias para atuarem no bom andamento da vida social e religiosa. Souberam se impor na questão do Tratado de Madrid, assim como também lutaram do lado espanhol na defesa da Colônia do Sacramennto.

Na convivência intercultural, os jesuítas foram muito hábeis na condução dos costumes e das crenças, substituindo algumas e adaptando outras.     

Qual foi o papel dos povos guaranis na construção das Missões e como podemos evitar uma leitura que os coloque apenas como coadjuvantes da história?

Existem vários relatos que comprovam que os Guarani não foram meros coadjuvantes da história no espaço reducional e nem no desenvolvimento da América Colonial.  Podemos citar aqui o relato das Cartas Ânuas escrita pelos jesuítas e correspondências privadas entre os padres dos povoados missioneiros ou ainda com o Bispo de Buenos Aires em 1677 como afirma Susterstic (2000, p. 4) em seu livro “Templos Jesuítico”.

Os pesquisadores Eduardo Neumann e Artur Barcelos (2022) nos trazem dados de guaranis “exercendo ofícios em obras públicas em diversas cidades colônias”. Percebe-se que foram ativos participantes, mesmo fazendo parte da redução eles se deslocavam para as atividades servindo às solicitações da cidade colonial. “ Não foram passivos frente à liderança inconteste dos jesuítas” Neumann e Barcelos (2022).  A sua contribuição na cartografia é outro exemplo. Nesse espaço de tempo de cinco gerações nas reduções, uma elite de intelectuais guaranis foi muito bem preparada. Escreviam em latim e espanhol tinham conhecimento e facilidade do desenho do território, marcando rios, lagos e os demais acidentes geográficos. Não foi difícil de registrar  essa topografia, pois tinham  especial interesse em estabelecer o seu espaço frente o avanço da colonização.

Então, de vários modos podemos afirmar sua participação como protagonista, contribuindo nas artes, música, escultura, na arquitetura. Eram exímios obreiros construindo tetos de madeira das grandes igrejas. Tinham facilidade para este tipo de talha, pois talhavam os troncos de madeira para a feitura de seus barcos, construíam suas choças, antes da chegada do jesuíta e espanhóis.

Observando hoje os remanescentes da arquitetura, da arte, pode-se afirmar que o guarani foi ativo e criativo não só na construção dos povoados missioneiros, como também nas cidades coloniais espanholas.

Muitas vezes as Missões são romantizadas ou, ao contrário, criticadas de forma simplificada. Como a pesquisa histórica contemporânea tem revisitado esse período?

A pesquisa histórica contemporânea tem revisitado as Missões, especialmente o Sistema de Reduções. Percebe-se que as pesquisas do final do século XX e atualmente no XXI, mostram a contemporaneidade dessa cultura tendo o indígena como protagonista. O julgamento simples e único das Missões em narrativas mais lineares está superada, tanto pelas pesquisas realizadas por historiadores, arqueólogos, antropólogos, arquitetos e teólogos que tem apontado a participação dos indígenas em trabalhos de cartografia, prestação de serviços às cidades coloniais com mão de obra especializada no uso da madeira, na arte e na fabricação de instrumentos musicais, tudo isso mostra o quanto o Guarani foi protagonista. Nesse sentido, a historiografia recente entende as Missões como sistema político, simbólico, religioso, e também com espaços de negociação.

A visão romantizada do indígena, no espaço reducional, era erroneamente interpretada como de obediência e harmonia, quando, na realidade, não era assim que a vida acontecia. E essa visão romantizada perdurou até a primeira metade do século XX, quando esta visão foi sendo modificada. As Cartas Ânuas, documentos protocolares enviadas para o Geral da Ordem, com relatos detalhados dos acontecimentos das Reduções, como fonte de pesquisa também colaboraram para se ter essa percepção atual de que a visão romantizada, de passividade dos guaranis, não era correta. E a evidência de que os guaranis tinham atividade participativa nas Reduções, ao contrário da visão romantizada, está na participação nas grandes comemorações dos Santos, o teatro e as procissões, festas que se realizavam na grande praça, festas estas que faziam parte do gosto e da cultura Guarani.

Quais legados das Missões Jesuítico-Guaranis ainda estão presentes na cultura, na identidade e na organização social da região missioneira hoje?

O legado dos Guaranis Missioneiros ultrapassa a cronologia histórica para se tornar o alicerce de um modo de ser, sentir e falar que define o povo da região. É uma herança que flui entre o sagrado e o cotidiano, unindo a bravura da resistência à sabedoria da terra.

A identidade missioneira é forjada no verbo. Expressões que ecoam em galpões, festivais de música, na poesia e na literatura regional, como o brado imortal de Sepé Tiarajú: “Esta terra tem dono”. Não são meros chichês linguísticos. Representam a gênese de um patriotismo espiritual. O termo “sangue missioneiro”, que ouvimos com frequência ao se referir a uma pessoa brava, carrega em si a mística da valentia e da liberdade, herança direta dos índios que, na Guerra Guaranítica, preferiram o enfrentamento ao desterro.

Esse sentimento de pertencimento está profundamente ligado à crença de que este território foi uma concessão divina entregue por Deus a São Miguel para o florescimento dos Sete Povos. É essa conexão que alimenta a figura do “índio valente”, cujo espírito de luta se manifesta hoje na resiliência do povo missioneiro perante as adversidades, mantendo viva a chama de uma autonomia cultural singular.

A base material dessa civilização ainda sustenta o nosso dia a dia. O legado botânico e alimentar do povo Guarani é o pilar da culinária e da economia regional. A erva-mate: o “ouro verde” que se transformou no símbolo da hospitalidade sulina, do encontro da paz e da tranquilidade. Ninguém briga ou discute tomando mate, dito popular. 

Na alimentação, podem-se destacar a mandioca e o milho: Cultivos fundamentais que garantiram a subsistência das reduções e permanecem como elementos centrais da dieta e da agricultura familiar.

Talvez a herança mais sofisticada e atual dos povoados missioneiros seja a sua organização social. Muito antes das teorias econômicas modernas, as reduções já operavam sob um sistema de trabalho coletivo e divisão equitativa de bens, modelo sob o qual o esforço individual servia ao bem comum.

O “abambaé” (propriedade do homem) e o “tupambaé” (propriedade de Deus/comunidade) foram os precursores diretos das diversas modalidades de cooperativismo que hoje sustentam o desenvolvimento da região. Essa semente da cooperação, plantada há séculos, floresceu em um modelo de gestão que prioriza a solidariedade em vez da competição desenfreada. O cooperativismo missioneiro contemporâneo não é apenas uma estratégia de mercado, mas a atualização de um princípio ancestral de ajuda mútua. Assim se expressa em seu livro o professor VergilioPerius em seu livro A Origem Do Cooperativismo (2020).

Reconhecer o legado missioneiro é compreender que a força que vem da terra é, antes de tudo, uma força coletiva. Entre o chimarrão e a poesia, entre o cooperativismo e a devoção, o espírito guarani permanece vivo. Ele nos ensina que a identidade é um território que se defende com memória, trabalho e, acima de tudo, com a consciência de que nossa história é feita de pedras que falam e de um sangue que nunca deixa de lutar

Como a universidade, especialmente a URI, contribui para a preservação da memória, da pesquisa e da valorização desse patrimônio histórico e cultural hoje?

A URI consolida-se como um pilar fundamental na preservação da identidade cultural missioneira. Através de sua Biblioteca Setorial, a instituição oferece um acervo diferenciado e especializado sobre as Missões Jesuíticas Guaranis, servindo como um centro de referência para alunos, pesquisadores e a comunidade em geral.

Em 1984 foi criado o Centro de Cultura Missioneira/URI. Em seguida foi acrescido de um Núcleo de Arqueologia, Sala de Exposições Temporária e um Auditório proporcionando à comunidade acadêmica e à comunidade em geral atividades culturais com ênfase às Missões. Foram vários seminários e  publicações pelo CCM, entre as publicações destacamos: O Guarani: uma bibliografia etnológica coordenada pelo antropólogo BartomeuMelià com coautoria dos professores Marcos V. A. Saul e Valmir F. Muraro (1987 ) e ainda: Guaraíes y jesuítas em tempo de lasMisiones. Una bibliografia didáctica, coautora Liane M. Nagel. (1995).

Mais do que conservar documentos, a universidade atua diretamente no território. Um marco histórico dessa dedicação ocorreu em 2006, quando a URI, em parceria com a Prefeitura Municipal, liderou as escavações arqueológicas no entorno da Praça Pinheiro Machado e da Catedral, revelando fragmentos essenciais do nosso passado.

Esse compromisso se estende à produção científica, com a publicação de obras densas sobre a cultura guarani e o período jesuítico, e à formação humana: o curso de História da URI foi o berço de professores e pesquisadores que hoje lideram estudos em Patrimônio e Antropologia. Como um espaço permanentemente aberto ao novo, a URI reafirma seu papel de catalisadora de estudos que garantam a imortalidade da história missioneira.

Na sua avaliação, qual a relação entre as Missões Jesuítico-Guaranis e os debates atuais sobre diversidade cultural, direitos indígenas e interculturalidade?

A relação entre as Missões Jesuítico-Guaranis e os debates contemporâneos não é apenas histórica, mas profundamente sociológica e política. O que ocorreu no século XVII e XVIII serve como um “laboratório” para entendermos as tensões e os diálogos que ainda enfrentamos hoje.

Aqui estão os pontos fundamentais dessa relação:

  1. Diversidade Cultural: Entre a Assimilação e a Resistência

Historicamente, as Missões foram vistas ora como um projeto de “civilização” (assimilação), ora como um espaço de proteção. No debate atual, elas nos fazem questionar: o que significa preservar a cultura?

O Hibridismo: O “Barroco Missioneiro” é a prova física de que a cultura não é estática. A fusão da estética europeia com a cosmovisão Guarani gerou algo único. Isso reforça a ideia atual de que a diversidade não é a separação total, mas o resultado de trocas, desde que haja agência –  a concordância – por parte dos povos envolvidos. Direitos Indígenas e a Luta pelo Território

A experiência missioneira é central para discutir o direito à terra e à autodeterminação.

O Direito à Identidade: As Missões mostram que, apesar das tentativas de controle colonial, os Guaranis mantiveram sua língua e aspectos de sua organização social. Hoje, isso alimenta o debate sobre o direito dos povos indígenas de viverem de acordo com seus costumes dentro do Estado moderno.

Interculturalidade: Diálogo ou Imposição?

Diferente do “multiculturalismo” (que apenas aceita a existência do outro), a interculturalidade propõe um diálogo crítico e equitativo.

O Modelo Reducional: As Missões são estudadas hoje como uma das primeiras grandes experiências de contato intercultural sistêmico na América Latina, considerando os 159 anos dos povoados missioneiros sob a tutela dos jesuítas. Foram cinco gerações que viveram neste sistema.  

Debate Atual: O estudo desse período ajuda a entender que a interculturalidade real exige o reconhecimento da assimetria de poder. Nas Missões, havia diálogo, mas sob uma estrutura hierárquica religiosa. O debate hoje busca como ter esse mesmo nível de cooperação e troca sem a imposição de uma cultura sobre a outra.

Por que a URI é chave nesse debate?

Como mencionei no texto anterior, o papel da universidade, especialmente através da pesquisa antropológica e do acervo da Biblioteca Setorial, é descolonizar esse olhar.

Ao pesquisar as Missões, a URI não olha apenas para ruínas de pedra, mas para:

A sobrevivência da língua e dos costumes dos povos Mbyá-Guarani contemporâneos.

A valorização do patrimônio imaterial, como o saber fazer e a espiritualidade, que vai muito além dos museus.

A formação de educadores capazes de levar para as escolas uma visão de história que não apague o protagonismo indígena. As Missões são o espelho do passado onde refletimos os nossos dilemas atuais: como viver juntos (interculturalidade) respeitando as nossas diferenças (diversidade) e garantindo a justiça histórica (direitos).

Diversidade e Interculturalidade: o aprendizado do convívio

Quando falamos de diversidade cultural, as Missões nos ensinam que o encontro entre mundos diferentes — o europeu e o guarani — criou algo inteiramente novo. Não foi apenas um lado ou outro, foi o nascimento de uma identidade missioneira. Hoje, o debate sobre interculturalidade busca exatamente isso: como podemos viver em sociedade respeitando quem é diferente de nós, sem apagar a essência de ninguém?

O Passado que Emerge

Muitas vezes caminhamos pelo centro de Santo Ângelo sem nos dar conta de que, sob nossos pés, pulsa uma história de séculos. Em 2006, a URI, em uma parceria histórica com a Prefeitura, decidiu que era hora de deixar essa história emergir. As escavações arqueológicas realizadas no entorno da Praça Pinheiro Machado e da nossa Catedral não foram apenas trabalhos técnicos; foram um reencontro da nossa cidade com as suas raízes mais profundas.

Um exemplo disso foram os contatos diretos com a comunidade, pois as pessoas que passavam pela praça e viam os alunos do curso de história juntamente com a arqueóloga escavando, ficavam impressionadas com o que existia no subsolo. Muitas pessoas motivadas pelo que observavam, mencionavam objetos antigos que tinham em suas casas e muitas delas retornaram à praça trazendo esses objetos. Esse fato motivou uma campanha de doação de objetos históricos para o museu municipal Dr. Olavo Machado.

O Papel da URI: Ciência e Descoberta

Aquelas escavações trouxeram à luz fragmentos do cotidiano das Missões Jesuítico-Guaranis. E é aqui que entra o papel vital da nossa Universidade. A URI não apenas coordenou esse resgate, mas transformou esses achados em conhecimento científico. Através do nosso curso de História, formamos pesquisadores que hoje olham para esse patrimônio não como meras relíquias, mas como chaves para entender a antropologia e os direitos dos povos que aqui viveram.

A Conexão com o Presente (Diversidade e Direitos)

Quando retiramos a terra de um artefato guarani, estamos também ‘desenterrando’ debates urgentes sobre a interculturalidade. Aquelas pedras e cerâmicas nos forçam a refletir: como estamos respeitando a diversidade cultural hoje? Como os direitos indígenas, tão presentes na gênese desse território, estão sendo tratados agora? A URI se orgulha de ser o espaço onde essas perguntas são feitas e estudadas, seja através de nossas publicações acadêmicas ou do acervo diferenciado da nossa Biblioteca Setorial, que guarda a memória detalhada de tudo o que foi descoberto.

Conclusão: Um Convite à Continuidade

As escavações de 2006 abriram janelas para o passado, mas a URI mantém essas janelas abertas para o futuro. Somos uma instituição aberta a novos estudos e a todos os cidadãos que desejam valorizar esse patrimônio. Afinal, uma universidade que pesquisa seu chão é uma universidade que ajuda sua comunidade a saber para onde vai.

Que personagens, episódios ou aspectos das Missões você considera pouco conhecidos, mas fundamentais para uma compreensão mais completa desse período?

As Missões Jesuíticas Guarani costumam ser lembradas por sua arquitetura, pela organização urbana e pelo caráter religioso. No entanto, alguns aspectos menos valorizados ajudam a compreender com mais profundidade a complexidade dessa experiência histórica.

Um deles é o protagonismo indígena. Frequentemente se atribui aos jesuítas quase toda a organização das reduções, mas os povos guarani tiveram papel decisivo na construção material e simbólica desses espaços. Eles não apenas executavam tarefas, mas reinterpretavam práticas religiosas, musicais e artísticas a partir de sua própria cosmologia. Esse diálogo — nem sempre harmonioso — revela que as Missões não foram um projeto unilateral, mas um processo de negociação cultural constante.

Outro ponto pouco explorado é a sofisticação do sistema econômico. As reduções desenvolveram formas coletivas de produção e distribuição, com áreas de trabalho comunitário (as chamadas “tupambaé”) e parcelas familiares. Essa organização permitia certo nível de autonomia econômica e garantia relativa segurança alimentar, algo notável no contexto colonial. Além disso, havia uma rede de trocas entre diferentes reduções, demonstrando articulação regional e planejamento. O COOPERATIVISMO.

Também merece atenção o papel da música e da educação. Embora bastante mencionadas, muitas vezes são tratadas como elementos decorativos. Na prática, a música era central na vida missioneira, com orquestras, corais e fabricação de instrumentos, funcionando como meio de expressão, ensino e integração social. A educação, por sua vez, incluía alfabetização em guarani e, em alguns casos, em espanhol ou latim, o que evidencia um nível significativo de letramento para a época.

Um aspecto frequentemente negligenciado é a dimensão política e geopolítica das Missões. Elas funcionavam como zonas de fronteira entre os impérios ibéricos e também como espaços de resistência indígena frente à escravização promovida por bandeirantes. Episódios como a Guerra Guaranítica mostram que os Guarani não eram apenas sujeitos passivos, mas agentes que reagiam às imposições externas, defendendo seus territórios e modos de vida.

Por fim, há o tema das continuidades culturais. Muitas práticas, símbolos e saberes desenvolvidos ou ressignificados nas Missões persistem até hoje na cultura regional — desde o artesanato até a religiosidade popular. Reconhecer essas permanências permite superar a ideia de que as Missões são apenas um passado encerrado, percebendo-as como parte viva da identidade cultural do sul do Brasil e de países vizinhos.

Outro aspecto importante é a elite cultural indígena. No livro: Letra de Índios (NEUMANN, 2015), ressalta que o guarani não só reescrevia textos religiosos, como correspondências oficiais elaboradas pelos cabildantes.

A lembrança é muito pertinente — e, de fato, esse é um dos aspectos mais reveladores e ainda pouco valorizados das Missões Jesuíticas Guarani. A existência de uma elite indígena letrada, capaz de redigir cartas e petições formais, desmonta a ideia de que os Guarani eram apenas receptores passivos da ação missioneira.

Durante o contexto da Guerra Guaranítica, especialmente após o Tratado de Madri, surgiram lideranças indígenas que dominavam não apenas a língua guarani, mas também o espanhol escrito e as formas diplomáticas europeias. Essas lideranças — muitas vezes ligadas aos cabildos (câmaras indígenas das reduções) — redigiram cartas dirigidas ao governador de Buenos Aires contestando a ordem de abandonar os Sete Povos das Missões.

Esses documentos são extraordinários por vários motivos. Em primeiro lugar, revelam domínio da retórica política: os autores invocavam a lealdade ao rei da Espanha, argumentavam com base em direitos adquiridos e denunciavam a injustiça da expulsão de suas terras. Ou seja, apropriavam-se da linguagem jurídica e administrativa do colonizador para defender seus próprios interesses. Não se tratava de mera repetição do discurso jesuítico, mas de uma elaboração consciente e estratégica.

Além disso, as cartas evidenciam uma consciência territorial muito clara. Os Guarani afirmavam que aquelas terras lhes pertenciam por direito, pois haviam sido por eles ocupadas, trabalhadas e defendidas. Esse argumento reforça a ideia de que as Missões haviam gerado formas de pertencimento e identidade política próprias, que iam além da simples organização religiosa.

Outro ponto importante é que essa produção escrita indica um nível significativo de alfabetização e circulação de saberes dentro das reduções. A escrita não estava restrita aos padres: havia indígenas que aprendiam a ler e escrever, atuando como secretários, músicos, artesãos especializados e líderes políticos. Essa “elite cultural indígena” desempenhou papel fundamental na mediação entre o mundo europeu e o guarani.

Por fim, essas cartas revelam algo ainda mais profundo: a capacidade de adaptação e resistência. Ao utilizar instrumentos do próprio sistema colonial —

Como trabalhar o tema das Missões Jesuítico-Guaranis na educação básica e no ensino superior de forma crítica, atrativa e contextualizada?

Na educação básica o professor pode trabalhar com mapas, traçados urbanos, questionando porque as cidades eram construídas daquela forma. Trabalhar com as cartas dos caciques onde percebemos a movimentação e resistência dos indígenas por ocasião do Tratado de Madri. Construir maquetes dos povoados missioneiros; construir cidades virtuais usando as tecnologias disponíveis. Nas aulas de educação artísticas, explorar as imagens, feitura, cor e seu uso. Explorar a natureza e topografia da região missioneira. Pesquisar o artesanato suas cores e materiais.

Ensino superior:

Debate sobre a análise historiográfica e sociológica, focando a hibridização cultural. Discutir como a estética missioneira foi ressignificada pela cosmologia Guarani na escultura e na música. Debate sobre o conceito de “Redução”, o significado   não apenas de aldeamento, mas proteção relativa contra a escravidão bandeirante; a questão de fronteira, avanço e ocupação do espaço; integrar o uso do cinema, da música, das orquestras; refletir sobre o valor da cultura material, arquitetura, escultura, fazer conexão com o patrimônio imaterial (saberes, língua e resistência) demonstrar que a história missioneira é a chave fundamental para entender a identidade latino-americana.

Para o ensino superior ressaltar a importância da interdisciplinariedade – história, antropologia e arqueologia.

O que a celebração dos 400 anos das Missões nos convida a refletir sobre o passado, mas também sobre o futuro da região e das relações entre culturas diferentes?

A celebração dos 400 anos das Missões Jesuítico-Guarani nos convida, primeiramente, a uma profunda revisão do passado, superando a visão de que a história da região começou apenas com a chegada europeia. Esse marco exige o reconhecimento da sofisticação da cultura Guarani e da complexidade do encontro colonial, que foi marcado tanto por uma colaboração artística e organizacional sem precedentes quanto por tensões, perdas identitárias e conflitos sangrentos. Refletir sobre esse período é entender as Missões não como ruínas estáticas, mas como um experimento social onde a resistência indígena e a adaptação mútua forjaram as bases de uma identidade platina singular.

No que diz respeito ao futuro da região, os 400 anos funciona como um catalisador para o desenvolvimento sustentável e o fortalecimento do turismo ético e cultural. A preservação desse patrimônio — reconhecido pela UNESCO — não deve servir apenas como contemplação estética, mas como um motor econômico que valorize as comunidades locais e promova a integração entre Brasil, Argentina e Paraguai. O desafio para os próximos anos reside em transformar esse legado em políticas públicas que conectem o desenvolvimento regional à preservação ambiental e à educação histórica, garantindo que a memória missioneira gere dignidade para os atuais habitantes desse território.

As Missões nos ensinam sobre as possibilidades e os limites do diálogo intercultural; elas nos instigam a pensar como podemos construir sociedades que respeitem o protagonismo dos povos originários e promovam a coexistência pacífica. Celebrar essa data é, portanto, assumir o compromisso de garantir que o “futuro” da região passe pelo respeito à autodeterminação indígena e pela valorização da diversidade como nossa maior riqueza coletiva.

Como está se desenvolvendo a programação que está sendo realizada por ocasião destes 400 anos?

A programação dos 400 Anos das Missões Jesuítico-Guaranis (1626–2026) reflete o esforço de integração e reflexão sobre este importante patrimônio. Em vez de uma data isolada, o governo do Rio Grande do Sul, em conjunto com municípios e entidades internacionais, estruturou um calendário que se estende por todo o ano de 2026, com foco em três eixos principais:

O Marco Histórico e Espiritual

O ponto alto ocorreu em 3 de maio de 2026, em São Nicolau, com a celebração da missa, fazendo uma alusão à primeira missa conduzida pelo Padre Roque Gonzales, às margens do Rio Uruguai, em 1626. Esse evento foi acompanhado pela Cavalgada dos 400 Anos, que percorre o caminho dos Santos Mártires, conectando o passado religioso à tradição do cavalo e da terra, unindo fé e identidade regional. A Missa da Terra Sem Males celebrada em frente à Catedral de Santo Ângelo com apresentação de um coral de 400 vozes, integrando todas as etnias que compõem a região dando destaque à etnia Guarani. Foi um evento que marcou estas comemorações pela sua beleza estética, religiosa e fraternal.

Conectividade e Inovação (Conecta Missões)

Eventos como o Conecta Missões, sediado em Santo Ângelo, mostram a face moderna da celebração. A programação incluiu:  Educação e Patrimônio: Seminários como o “Aldeia do Conhecimento” focados em história e empreendedorismo.  Cultura e Arte: O 17º Canto Missioneiro e Festivais de Cinema com protagonismo dos cineastas guaranis.  Experiência Gastronômica: O projeto Degusta Missões, que criou uma vila gastronômica para valorizar os sabores da identidade missioneira, fundindo tradições indígenas e europeias.

Visibilidade e Investimento.  A programação também se destaca pelo caráter institucional, com investimentos expressivos na requalificação de museus e infraestrutura turística. A tecnologia ganhou espaço com projetos de projeções mapeadas para Santo Ângelo e o já existente nas ruínas de São Miguel, modernizando o espetáculo Som e Luz, e o tema chegou até à capital, Porto Alegre, sendo o centro do Acampamento Farroupilha 2026, sob o mote “Herança Jesuítica e Guarani”.

Essa agenda robusta cumpre o papel de não apenas celebrar o “aniversário” de um evento, mas de usar a efeméride para projetar as Missões como um polo de economia criativa e turismo cultural para os próximos anos.

No mês de julho a URI, campus de Santo Ângelo sediará as XX JORNADAS INTERNACIONAIS MISSÕES JESUÍTICAS. História Pública, Patrimônio e Memória nas Reduções Guarani. Envolvendo cinco universidades, incluindo Argentina, Paraguai e Uruguai.

O tema das Missões é fascinante justamente por essa dualidade: é, ao mesmo tempo, uma história de pedras e de gentes, de passado e de futuro.

*Professora Claudete Boff: natural de Espumoso (RS), reside em Santo Ângelo-RS, sendo docente na Universidade Regional Integrada do Alto Uruguai e das Missões, atuando como professora do curso de Arquitetura e Urbanismo. Bacharel em Artes Plásticas na UFRGS e Mestre em História – Área de concentração em Estudos Latino-americanos pela UNISINOS, coordenou o Centro de Cultura Missioneira/URI e presidiu o Conselho Municipal de Patrimônio Histórico e Cultural, além do movimento Pró-Memória de Santo Ângelo, época em que coordenou o projeto de escavação arqueológica na Praça Pinheiro Machado, que teve como responsável técnica a arqueóloga Raquel Machado Rech. Desde os anos 1980 pesquisa na área de Missões Jesuíticas Guarani. Desses estudos surgiu a produção do livro sobre a “Imaginária Guarani, o acervo do Museu das Missões”.

Fonte: Vatican News / Por Jackson Erpen – Cidade do Vaticano

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